O caminho
para a esperança dos indígenas.
Integrantes do Conselho Cívico de Organizações
Populares e Indígenas de Honduras (Copinh) recebem a Caravana pela Paz, a Vida
e a Justiça em Utopia, em La Esperanza, o lugar onde foi morta a líder indígena
e ambientalista Berta Cáceres. Foto: Ximena Natera e Daniela Pastrana/Pie de
Página.
Por Daniela Pastrana e Ximena Natera, da IPS –
La Esperanza, Honduras, 6/4/2016 – A terra onde
viveu e morreu Berta Cáceres é um mundo onde as palavras se enchem de
significado: esperança, utopia, casa de cura. São nomes que ganham sentido
nessa montanha do departamento de Intibucá, a 1.700 metros de altitude, onde os
lencas colocaram seus corpos como escudo contra os projetos hidrelétricos em
Honduras.
“O que vivemos é uma recolonização institucional.
Uma guerra declarada ao povo lenca disfarçada de desenvolvimento, mas é um
desenvolvimento para os privados e para o poder, e um genocídio para as
comunidades indígenas”, afirmou Tomás Gómez, do Conselho Cívico de Organizações
Populares e Indígenas de Honduras (Copinh). OCopinh é a organização criada, há
23 anos, por Berta Cáceres, líder indígena e reconhecida defensora dos direitos
humanos, que foi assassinada no dia 3 de março em sua casa, por sicários não
identificados e por motivos ainda não esclarecidos.
Seu assassinato comoveu o mundo. Mas aqui em
Utopia, como é chamado o centro de trabalho do Copinh, não há lágrimas nem
lamento. Há altares, memória e uma convicção à toda prova, incluídos os sete
assassinatos de ativistas da organização.“Não podemos ficar parados”, disse,
imperturbável, Laura ZúñigaCáceres. A jovem de 23 anos teve que suspender seus
estudos de obstetrícia em outro país e voltar a essa terra depois do
assassinato de sua mãe.
Nesses dias, ela transformou a Casa de Cura de
Mulheres em seu lar. “A casa era um sonho de Berta”, contou Marleny Reyes
Castillo, também dirigente do Copinh. A casa está concebida como um lugar onde
as mulheres que sofrem violência possam ser atendidas, curadas física e
emocionalmente, e assessoradas juridicamente.O local fica a dez minutos de
Utopia, no centro de La Esperanza, uma vila de casas com teto de telhas, que
parecem modelos dos desenhos do ensino primário.
É um povoado onde não se ouve falar da violência
que há em outras regiões do país pelas guerras de gangues ou do crime
organizado. Por isso, nesse lugar ninguém tem dúvidas de que Berta foi morta
por sua oposição à construção da hidrelétrica na Represa de Água Zarca, no rio
Galcarque, vital para a sobrevivência dos lencas de Río Blanco.O povo lenca se
estende por sete departamentos de Honduras.
Além da casa de cura, e de Utopia, o Copinh tem, em
La Esperanza, a rádio comunitária La Voz Lenca, e outras quatro em regiões de
influência.Em 2015, Berta Cáceres recebeu o Prêmio Goldman, máximo
reconhecimento mundial para ativistas ambientais. Sua campanha contra a Represa
Água Zarca conseguiu deter a companhia estatal chinesa Sinohydro, a maior
construtora de represas do mundo.
No entanto, essa não era a única batalha dos povos
originários. A partir do golpe de Estado de 2009, houve uma explosão de
permissões para megaprojetos, sobretudo dos que geram provisão de energia para
concessões de mineração.“Só o Copinh enfrentou 50 hidrelétricas. Mais as
mineradoras e as eólicas. A luta está apenas começando”, pontuou Gómez.
O projetado Corredor Turístico de Honduras, uma das
formas de despojo de terras indígenas do povo lenca no país. Foto Ximena Natera
e Daniela Pastrana/Pie de Página.
O governo de Juan Orlando Hernández tem uma solução
para os indígenas do país: que não existam, segundo ativistas. E vem tentando,
desde que iniciou seu governo, em janeiro de 2014, com a explosão de concessões
de megaprojetos. Mesmo antes, quando presidia o Congresso Nacional que aprovou
a proposta de criar Cidades-Modelo, já tentava.
Trata-se de um esquema parecido ao impulsionado no
México, pelo ex-presidente Ernesto Zedillo, para criar polos urbanos de
desenvolvimento que, segundo o plano, acabariam com a pobreza dos indígenas em
comunidades mais afastadas. Mas o programa fracassou porque os indígenas,
arraigados às suas terras, regressaram a elas todas as vezes que foram
reassentados.
As Cidades-Modelo forma declaradas
inconstitucionais pelo Supremo Tribunal de Justiça em 2012.Então, no que foi
considerado um “golpe de Estado técnico”, Hernández destituiu os magistrados da
sala constitucional (com o argumento de que não deram seu parecer a tempo). O
único juiz que não declarou a lei inconstitucional, e que não foi despachado
pelo então presidente do Congresso, foi Óscar Chinchilla, que depois passou a
ser procurador-geral do país.
A proposta das Cidades-Modelo foi retomada em 2013,
com a lei de Zonas de Emprego de Desenvolvimento Econômico, que tem alcances
ainda maiores, pois permite criar zonas com autonomia financeira e policial.
Isto é, dá aos investidores a autonomia que os governos da região negam aos
povos originários.“Há mais de 23 áreas em projeto. Se todo o capital esperado
não chegou, foi por causa da insegurança jurídica que há no país. É preciso um
pouco de institucionalidade”, destacou Ana Ortega, acadêmica e feminista que
preside a junta diretora do Comitê pela Livre Expressão (C-Libre).
Entretanto, o principal problema do governo é a
resistência dos grupos indígenas e camponeses. Segundo a organização Global
Witness, três em cada quatro assassinatos de ambientalistas ocorridos em 2014
foram registradosna América Latina. No informe Quantos Mais?, Honduras
aparece como o país mais perigoso para os ambientalistas, com 111 assassinatos
de ativistas. Deles, 80 ocorreram nos últimos três anos na região do Bajo
Aguan, onde estão as melhores terras de cultivode Honduras.
Outros que lutam por suas terras são os
afrodescendentes do povo garífuna, assentados na costa caribenha do país, onde
empresários, políticos e militares se apropriaram das terras para implantar
complexos turísticos. O caso mais emblemático é o dosgarinagus da comunidade de
Barra Vieja, que lutam nos tribunais contra o despojo do complexo Indura Resort
e que foram desalojados três vezes e três vezes voltaram.
“Há uma criminalização das comunidades. Os tambores
são vistos como armas de guerra. Temos deslocamentos de comunidades inteiras e
há uma perda de território para a criação de bases militares, com o pretexto da
guerra contra o narcotráfico”, apontou Miriam Miranda, dirigente da Organização
Fraternal Negra Hondurenha (Ofraneh), durante a passagem da Caravana pela Paz,
a Vida e a Justiçapor La Ceiba, que busca abrir um debate sobre a política
antidrogas na região e que, no dia 1º, deixou o território hondurenho para
entrar em El Salvador.
A Caravana começou sua caminhada em Tegucigalpa, no
dia 28 de março, e a terminará no dia 21, em Nova York.“Olá, compadre, venha
comer, dizia Berta, embora não tivesse muito, de uma tortilha que comemos
todos”, contou Daniel Valladares, membro do Centro de Pesquisa e Promoção dos
Direitos Humanos (Ciprodeh), uma das organizações-sede da Caravana em Honduras.
Karla Lara, cantora e ativista feminista,
testemunhou que Berta conseguia integrar muitas e diferentes causas, e “fazia a
gente sentir cada luta como sendo especial, porque para ela eram especiais”. As
lutas dos povos originários em Honduras sempre foram pacíficas, explicou uma
jornalista que conheceu Berta em 1994, quando os lencas iniciaram sua
peregrinação à capital. Porém, ser indígena, mulher e ambientalista é a pior
combinação que pode haver na Honduras pós-golpe.
*Este artigo foi originalmente publicado no portal
Pie de Página, um projeto da organização Periodistas de a Pie financiado pela
Open Society Fundations. A IPS-Inter Press Service tem um acordo especial com
essa entidade para a difusão de seu material.
Fonte: ENVOLVERDE
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