segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Fome persiste, apesar da abundância.
Embora seja um dos maiores produtores de grãos do mundo, a Índia está atrasada em matéria de segurança alimentar. Quase 25% de sua população passa fome. Foto: NeetaLal/IPS

Em um contexto econômico mundial tenso, agravado pela mudança climática e a redução dos recursos, a segurança alimentar e a nutrição são um grande desafio. A Índia, terceira economia da Ásia e o segundo país mais povoado do mundo, com 1,25 bilhão de pessoas, não é exceção.

Por NeetaLal, da IPS – 

Nova Délhi, Índia, 5/8/2015 – A Organização Mundial da Saúde  (OMS) define a segurança alimentar como uma situação em que todas as pessoas têm, a todo momento, acesso físico e econômico a alimentos suficientes e nutritivos para cobrir suas necessidades e preferências alimentares para levarem uma vida ativa e saudável. A falta de uma dieta equilibrada, menos os nutrientes essenciais, se expressa em desnutrição crônica.

No Índice Global da Fome 2014, a Índia ocupa o 55º lugar entre os 120 países com maior fome, inclusive atrás de alguns vizinhos do sul da Ásia, como Nepal (44º lugar) e Sri Lanka (39º).

Apesar de sua autossuficiência na disponibilidade de alimentos e sendo um dos maiores produtores de grãos do mundo, cerca de 25% da população da Índia passa fome. Um informe do Banco Mundial diz que a taxa de má nutrição entre as crianças indianas é quase cinco vezes maior do que a da China e duplica a da África subsaariana.

Por que este país não pode alimentar seus pobres com seus abundantes recursos? Os especialistas atribuem muitas razões ao déficit. Dizem que o conceito de segurança alimentar é um problema complexo e multidimensional, que se complica ainda mais no contexto de um país grande e diverso, com uma esmagadora população e pobreza generalizada.

Segundo Shaleen Jain, da Universidade Nacional de Direito de Hidayatullah, a segurança alimentar tem três grandes dimensões. A primeira é a disponibilidade dos alimentos, que abarca a produção total, incluídas as importações e as reservas de estabilização que são mantidas nos silos públicos. É seguida do acesso aos alimentos que cada pessoa tem e, em terceiro lugar, a disponibilidade da comida, ou seja, a capacidade de uma pessoa adquirir alimentos adequados, seguros, saudáveis e nutritivos para atender suas necessidades dietéticas.

Para PawanAhuja, ex-secretário adjunto do Ministério da Agricultura, os problemas da Índia são resultado de um sistema de distribuição pública profundamente defeituoso, mais do que qualquer outra coisa. “Apesar da abundante produção de grãos e hortaliças, a distribuição dos alimentos pormeio de um sistema público corrupto impede que os benefícios cheguem aos pobres”, apontou.
O setor agrícola da Índia deve reforçar a produtividade mediante a adoção de modelos de negócio eficientes e a criação de associações público-privadas. Foto: NeetaLal/IPS

Outros problemas são as “calamidades naturais como chuva excessiva, acessibilidade da água para irrigação, a seca e a erosão do solo. Além disso, a falta de melhoria em instalações agrícolas, bem como a explosão demográfica, só pioram as coisas”, afirmouAhuja.

Para lidar com o problema, a Índia opera uma das maiores redes do mundo na matéria, a Lei Nacional de Segurança Alimentar, de 2013. O sistema é executado pelo Departamento de Alimentação e Distribuição Pública, em colaboração com o Programa Mundial de Alimentos, e fornece rações familiares mensais subvencionadas a nada menos que 800 milhões de pessoas, ou 67% da população do país. Mas o programa tem resultados díspares e os especialistas culpam a corrupção existente.

Em 2050 o mundo deverá alimentar nove bilhões de pessoas, que gerarão uma demanda de alimentos 60% maior do que a atual. A Organização das Nações Unidas (ONU) adotou como o segundo de seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) o de acabar com a fome, alcançar a segurança alimentar e promover a agricultura sustentável até 2030.

“Conseguir esses objetivos exige abordar uma série de problemas fundamentais, desde a paridade entre os gêneros e o envelhecimento demográfico, até o desenvolvimento de habilidades e o aquecimento global”, destacou o economista Sumit Bose. O setor agrícola deve reforçar a produtividade mediante a adoção de modelos de negócio eficientes e a criação de associações público-privadas, acrescentou Bose. Também são cruciais as emissões de gases-estufa, o uso da água e os resíduos.

Para promover a segurança alimentar, a Índia também colabora com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), que executa projetos de desenvolvimento no país e também proporcionam conhecimentos, o que agrega valor às tecnologias e aos enfoques existentes. Também abordam de forma prioritária problemas como os meios de vida, o acesso à alimentação das comunidades mais pobres, a sustentabilidade da água, os recursos naturais e a saúde da terra.

A ideia, segundo os especialistas, é aumentar a cooperação multilateral da Índia em setores com pragas e enfermidades transfronteiriças, produção pecuária, gestão da pesca, segurança alimentar e mudança climática. A FAO também proporciona assistência técnica e criação de capacidade para permitir a transferência de melhores práticas, bem como lições aprendidas de outros países, para depois aplicá-las na agricultura indiana.

Com o fortalecimento da resiliência dos pequenos agricultores, pode-se conseguir a segurança alimentar para a população mundial e ao mesmo tempo limitar as emissões de carbono. Segundo Bose, “a produção de alimentos de maneira sustentável significa a adoção de práticas que produzam mais com menos na mesma superfície de terra e com um uso prudente dos recursos naturais”.

“Ttambém significa reduzir as perdas de alimentos antes da fase do produto final ou de comércio varejista, mediante uma série de iniciativas que incluem melhor colheita, armazenamento, embalagem, transporte, infraestrutura, mecanismos de mercado e marcos institucionais e legais”, ressaltou.


Fonte: ENVOLVERDE

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