quinta-feira, 20 de dezembro de 2018


Educação ambiental prepara a sociedade para os dilemas do desenvolvimento.

por Bere Adams, da revista Educação Ambiental em Ação – 
Entrevista com Dal Marcondes para a 66ª edição da Revista Virtual Educação Ambiental em Ação.

Apresentação: O entrevistado desta edição é Dal Marcondes, um dos mais importantes jornalistas do país que se dedicam as questões ambientais. Ele tem especialização em economia e em sustentabilidade com foco em economia e negócios. É, também, especialista em Ciência Ambiental pela USP. Atualmente cursa Mestrado Profissional em Jornalismo Digital e Modelos de Negócios em Jornalismo Pós Industrial e participa ativamente de diversas atividades de Militância em Sustentabilidade e Jornalismo. Além disto, é Presidente da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental e Vice-Presidente da Associação Profissão Jornalista. É, ainda, Presidente do Instituto Envolverde e diretor executivo da DAL MARCONDES Consultoria & Comunicação. Será que teremos algo a aprender com ele?
Jornalista Dal Marcondes

Bere Adams – Prezado Dal Marcondes, é uma grande honra tê-lo como o nosso entrevistado. A sua contribuição será ímpar para todos, e certamente poderemos aprender muito a partir da sua vasta experiência. Muito obrigada por aceitar o nosso convite. Normalmente começo as minhas entrevistas perguntado: como o tema meio ambiente entrou em sua vida? Algo aconteceu que despertou o seu interesse? Conta pra gente como foi o seu ingresso nesta temática tão importante e essencial que é meio ambiente.

Dal Marcondes – Minha relação com o meio ambiente é uma paixão antiga. Quando eu era criança meus pais saíram de São Paulo e fomos morar em uma cidade no interior de Goiás. La aprendi a nadar em rio, andar a cavalo, comer fruta no pé. Depois, em 1974 fui para a Amazônia e me embrenhei na floresta, no Pará e no Maranhão. Até então, era uma relação idílica. Quando voltei para São Paulo fui estudar jornalismo, me tornei repórter e editor de economia. Foi quando compreendi que as questões ambientais são essencialmente dilemas econômicos. Todos os problemas socioambientais que enfrentamos no dia a dia têm origem em decisões de caráter estritamente econômico.

Bere Adams – Qual foi o maior desafio de sua jornada pelo jornalismo ambiental?

Dal Marcondes – Montei a Envolverde em 1995 e o site entrou no ar em 8 de janeiro de 1998. Quando contei a alguns amigos que iria largar a grande imprensa para me dedicar ao jornalismo ambiental foi um deboche só. Um amigo me disse que eu estava jogando a minha carreira de jornalista econômico bem sucedido no lixo. Hoje eu acho que tomei a decisão certa, não pelo dinheiro, acho que estaria ganhando mais na grande mídia, mas pela qualidade da minha vida.

Bere Adams – Qual é, para você, a importância da informação ambiental para lidarmos com os desafios ambientais que se apresentam?

Dal Marcondes – Informação, jornalismo independente e de qualidade são fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade, de um país e para a qualidade de vida no planeta. O cuidado que se deve ter é não confundir ser um jornalista ambiental com ser um militante ambiental. O jornalista trabalha com dados, fatos, informações e pluralismo de opiniões. O militante trabalha com causa.

Bere Adams – Temos inúmeros problemas ambientais e não seria possível abordarmos a cada um. Por esta razão, destaco um deles que é de suma importância e se trata de um dos grandes desafios que enfrentamos que é o da falta de saneamento básico, que potencializa a proliferação de doenças, a desigualdade social, a poluição… Como você percebe esta lacuna e como a mídia lida com este assunto?

Dal Marcondes – Nenhum país do mundo desenvolvido chegou lá sem antes resolver as demandas de sua população em água potável e saneamento. Esse é o principal problema a ser abordado pela sociedade brasileira nos próximos anos e os números são assustadores. Menos de 50% do esgoto gerado é coletado, e menos de 25% é tratado. Nossos ecossistemas recebem seis piscinas olímpicas repletas de merda todos os dias. A mídia dá uma atenção marginal a esse assunto. Não contabiliza as milhares de crianças doentes nas filas de postos de saúde sem nenhuma estrutura e não dá ouvido às pessoas que carregam esse subdesenvolvimento nas costas. Apenas quando sai uma nova estatística os indignados de plantão se manifestam. O apartheid brasileiro se define por quem tem e quem não tem água e esgoto. No mundo dos políticos esgoto é “obra enterrada”, não dá voto. Uma mentira que escorrega no tempo e serve de bordão para desviar o dinheiro para bonitezas que chamam a atenção de eleitores com torneira e chuveiro.
Diálogos Capitais, com a participação da Senadora Marina Silva, no teatro TUCA, PUC;

Bere Adams – Fale-nos um pouco sobre como as questões ambientais devem ser enfrentadas.

Dal Marcondes – As questões ambientais devem ser encaradas e tratadas em toda a sua complexidade. Não há simplicidade nas relações ambientais. Os impactos humanos sobre a natureza devem ser continuamente estudados e mitigados e o equilíbrio das ações deve se dar pela resultante da aplicação de ciência e tecnologia sobre serviços ecossistêmicos de forma a garantir o benefício para a sociedade sem impactar negativamente biomas e ecossistemas. Não é simples, mas já temos a ciência e a civilidade necessária. O papel do jornalista nesse cenário é tornar transparente para a sociedade os critérios de cada decisão e seus impactos e resultados.

Bere Adams – Para você, a Educação Ambiental se relaciona com Informação Ambiental?

Dal Marcondes – Sempre! A educação ambiental oferece ao cidadão os instrumentos necessários para entender e agir em um contexto de complexidade e, principalmente, dá os instrumentos necessários para decodificar as informações ambientais para a tomada de decisão. Há que se ter em conta que o analfabeto ambiental passará a vida tomando decisões baseadas em desconhecimento, em incapacidade de cognição com o ambiente. As pessoas que têm acesso a uma educação ambiental de qualidade – e isso á mais do que reciclar lixo ou plantar uma florzinha – terão uma visão de mundo mais integrada e capaz de decodificar a complexidade ambiental em suas decisões pessoais e profissionais.

Bere Adams – Destaque qual projeto você realizou e que considera mais significativo.

Dal Marcondes – Essa é uma pergunta delicada para alguém como eu que tem mais de 40 anos como jornalista. Mas, acho que minha contribuição para o jornalismo ambiental, a criação da Envolverde e o fortalecimento da Rede Brasileira de Jornalismo Ambiental estão entre as coisas que considero um legado profissional. Porém, ainda há muito a ser feito. Neste momento estou estudando modelagem de negócios para o jornalismo digital, porque acredito que nos próximos anos o jornalismo em ecossistema digital terá um papel estrutural para a sociedade. Além disso, as novas plataformas digitais e redes sociais precisam da atuação de jornalistas bem formados e remunerados por projetos capazes de se sustentar. Essa é a parte da minha militância pelo jornalismo.

Bere Adams – Você está a frente da Envolverde, uma das revistas de jornalismo e sustentabilidade mais importantes do Brasil. Conte-nos um pouco sobre a sua trajetória com este informativo tão relevante.

Dal Marcondes – A Envolverde entrou no ar em 8 de janeiro de 1998, há 20 anos, portanto. Um estudo de uma universidade norte-americana identificou a Envolverde como o mais antigo projeto de jornalismo nativo digital em operação no Brasil. São duas décadas de invenções, inovações e reinvenções em todos os sentidos. Tecnologias que mudam com o passar do tempo, formatos de entrega das notícias, pautas, enfim, não há muita rotina. O importante é o esforço cotidiano para manter a relevância dos temas e pautas de nossas reportagens.

Bere Adams – Qual é a contribuição da Envolverde para o desenvolvimento de atividades de Educação Ambiental?
Dal Marcondes – Acho que a informação que oferecemos cotidianamente tem ajudado muitos educadores ambientais e formular suas ações, estratégias e aulas. E queremos fazer mais, oferecer instrumentos mais adequados para o uso em turmas das mais diversas idades e interesses. Vamos ver se avançamos mais nisso.

Bere Adams – Com tanto tempo trabalhando em veículos de comunicação ambientais, quais avanços você poderia destacar, de forma geral, na área ambiental?

Dal Marcondes – Hoje há muito mais informação sobre temas ambientais do que a 20 anos, quando comecei nessa área. Há mais profissionais de jornalismo que se interessam em obter uma melhor qualificação para tratar do tema meio ambiente, com cursos de especialização e mestrado em ciência ambiental, gestão ambiental, economia ambiental etc. Mesmo os grandes veículos também dão mais atenção ao assunto, a pauta ambiental deixou de ser uma pauta esporádica e tornou-se um assunto de economia. Há profissionais trabalhando em organizações sociais que se especializaram em temas específicos, como clima, água, poluição, Amazônia, Oceanos e muitos outros. Em suma, há mais gente olhando para o meio ambiente.

Bere Adams – Estamos em tempo de mudanças de governo. Resumidamente, quais são as suas expectativas sobre como será tratada a Política Ambiental?

Dal Marcondes – Esse é um tema de muita apreensão. A perspectiva não é boa e por isso os jornalistas e os profissionais da área ambiental em geral devem estar atentos para avaliar e trabalhar sobre a realidade com a velocidade dos acontecimentos. Não dá para pré-julgar, mas também não há um horizonte de otimismo.

Bere – Para finalizar, deixa uma frase, uma ideia que possa servir de inspiração para nossas leitoras e nossos leitores.

Dal Marcondes – Temos grandes desafios em termos de sobrevivência, principalmente neste século. Este será um período decisivo para a história humana, quando temos ciência, tecnologias e conhecimentos para tornar o futuro um bom lugar para se viver. Nossas decisões cotidianas nos dirão como será esse futuro e como irão viver nossos netos e bisnetos.

A humanidade é uma espécie ainda na infância, temos menos de 5 mil anos do início da civilização, 2 mil anos desde o surgimento do cristianismo, pouco mais de 500 anos da invenção da prensa, 200 anos da revolução industrial, pouco mais de 100 anos do automóvel e do avião, 70 anos da televisão, 15 anos dos smartphones… Há espécies na terra que estão aqui há milhões de anos, temos ainda muito a aprender.

Bere – Prezado Dal Marcondes, nós da equipe da revista, agradecemos pela oportunidade de conhecer melhor o seu trabalho, a sua jornada e as peculiaridades que envolvem o jornalismo ambiental. Fica evidente a importância da informação como referencial fundamental para o desenvolvimento de ações de Educação Ambiental que promovam as mudanças de atitudes para um futuro mais sustentável, muito obrigada! Parabéns e desejamos-lhe cada vez mais sucesso!


Fonte: ENVOLVERDE

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