terça-feira, 26 de abril de 2016

Como ensinar uma geração que vive conectada.
Foto: Shutterstock

Seminário do Instituto Brasileiro de Formação de Educadores discute tendências e aponta caminhos para ampliar o engajamento dos nativos digitais.

Por Marina Lopes, do Porvir –

O mundo não pode mais se desconectar. Diante do excesso de informações e da velocidade das transformações, a grande pergunta é: como a educação se prepara para isso? Para o português Luís Rasquilha, especialista em futuro, tendências e inovação, o primeiro passo é refletir sobre a própria definição de educação, que já não pode mais ser entendida como apenas um conjunto de normas pedagógicas.

Durante o 1º Seminário de Tendências e Inovação na Educação, realizado nesta quarta (9), pelo IBFE (Instituto Brasileiro de Formação de Educadores), em Campinas (SP), Rasquilha afirmou que o grande desafio da atualidade é tentar manter o foco em um momento de permanente transformação. “É a primeira vez na história da humanidade que as gerações mais novas têm mais informações que as gerações mais velhas. É a primeira vez que o aluno entra na sala de aula e sabe tanto ou até mais sobre o tema do que o professor.”

Com a possiblidade de pesquisar qualquer tipo de informação por meio de um smartphone, o especialista em tendências disse que vivemos em um período no qual a vida se mistura com softwares e hardwares. “Quer a gente goste ou não, o mundo de hoje é o mundo da conexão”, constatou, ao defender que os educadores precisam estar preparados para lidar com essa mudança.

Ao traçar um panorama de algumas das principais tendências para os próximos anos, Rasquilha chamou atenção para a necessidade de tornar a educação mais interessante. E, segundo ele, esse caminho passa pelo empoderamento dos alunos, criação de ambientes propícios para o compartilhamento de ideias, transformação da escola em uma verdadeira experiência engajadora, integração entre diferentes conteúdos e o uso da tecnologia. “Mais do que enfiar goela abaixo o que o aluno vai estudar, temos que trazer ele para perto”, afirmou.

De acordo com Rasquilha, há um descompasso muito grande entre o que as instituições educacionais oferecem e o que os alunos precisam para enfrentar alguns desafios da vida, como ingressar no mercado de trabalho, por exemplo. “As empresas estão pedindo outro tipo de pessoas, que não são aquelas que estão saindo das escolas ou faculdades”, explicou. O especialista português ainda mencionou que se as estruturas não mudarem, o caminho será a substituição das universidades tradicionais por universidades corporativas.

“Nós entramos na escola, aos seis anos, com 98% de índice criativo; saímos da faculdade, aos 23 ou 24 anos, com apenas 2%. Hoje o que as empresas mais procuram são pessoas criativas, inovadoras e com pensamento fora da caixa. E nós, ao longo da formação deles, estamos tirando isso e colocando todo mundo para pensar da mesma forma”, refletiu Rasquilha. Segundo ele, diante de todo cenário apresentado, há cinco recomendações que todos os professores deveriam ter a obrigação de incorporar nas suas vidas: o aprendizado mão na massa, estratégias rápidas de dar informações e promover o engajamento, apresentação de conteúdos relevantes e a quebra de fronteiras entre as matérias.

Para ilustrar a fala do especialista português, o professor Marcelo Veras, iniciou a sua apresentação com uma situação vivenciada na universidade. Enquanto dava aula de marketing para uma turma de MBA, ao falar sobre um autor e mencionar que não tinha certeza se ele ainda estava vivo, um aluno prontamente pesquisou no seu smartphone e levantou a mão para compartilhar as informações encontradas. Além de exemplificar a velocidade que a informação pode chegar até a sala de aula, o caso apresentado serviu para mostrar que conexão não é sinônimo de dispersão.

Autor e organizador do livro “Métodos de Ensino para Nativos Digitais”, Veras reuniu algumas das críticas mais recorrentes entre os professores durante encontros de formação. Entre elas, aparece a reclamação de que esta geração, composta pelos chamados nativos digitais, não sabe escrever corretamente e abrevia tudo. No entanto, segundo ele, a própria palavra “você”, que hoje muitos adolescestes escrevem com a abreviação “vc”, já representa uma redução de “vosmecê” e “vossa mercê” na língua antiga.

“Eu estou vendo uma guerra travada por parte dos profissionais de educação com essa nova geração. As pessoas não estão entendendo o que está acontecendo”, contou. De acordo com ele, para engajar os alunos desta geração, quatro pilares devem direcionar a estratégia pedagógica: a exposição dos projetos desenvolvidos pelos alunos, a competição, desde que realizada de maneira saudável, a participação e a colaboração.

Na tentativa de entender como deveria ser a escola do futuro, Veras participou de um estudo que ouviu alunos, professores e pais de escolas parceiras do grupo Unità Educacional. Durante o seminário, ele apresentou alguns resultados da pesquisa, que traz respostas muito semelhantes entre atores envolvidos: um descontentamento com o currículo, os métodos de ensino, a arquitetura da escola e o sistema de avaliação.

Mas dá para ser inovador dentro de um setor que ainda mantem estruturas muito conservadoras? Segundo ele, a resposta é sim. No entanto, o professor deverá se reinventar para assumir novos papeis, que envolvem a curadoria de conteúdos, o diagnóstico cognitivo do que cada aluno aprende e a liderança de equipes, porque o aprendizado deve se tonar cada vez mais participativo e colaborativo. “O que está precisando mudar é o método”, concluiu, ao mencionar que falta de tecnologia ou dinheiro não podem ser uma desculpa para não inovar dentro da sala de aula.

No final do evento, três professores participantes ainda foram convidados para compartilhar experiências bem-sucedidas de inovação na sala de aula.


* A repórter esteve em Campinas a convite do IBFE.


Fonte: Porvir
Entendendo o passado, sem aclarar o futuro.
Fundo do Açude Carnaubal que abastecia a cidade de Crateús, no Ceará. Foto: Fernando Frazão/ Agência Brasil (05/03/2015).

Muitas notícias nos jornais e na televisão têm tratado nos últimos dias da questão da água na Região Metropolitana de São Paulo (20 milhões de habitantes) ou no município da capital (11,96 milhões). O foco é o anunciado fim próximo da escassez, com muitas obras que aumentaram o volume captado, até no Sul do Estado, e transposto para a capital a elevados custos.

Por Washington Novaes*

Sempre é interessante verificar o que se pensava há uma década dos temas hoje centrais – embora o escritor Pedro Nava advirta que a experiência é como o farol de um automóvel virado para trás: ilumina o trajeto percorrido, mas não aclara o futuro. Mesmo porque, como têm afirmado outros pensadores, a velocidade das tecnologias e da informação hoje mostra que o que levava um século para acontecer agora acontece em uma década; o que levava uma década pode acontecer em um ano; e pode até não acontecer nada, porque a inércia de administradores públicos e da própria população paralisa todos, com frequência.

Revendo textos publicados neste espaço há uma década ou pouco mais pelo autor destas linhas mostra, por exemplo, como ainda continuam presentes temas como corrupção em obras públicas, inadequação de megaempreendimentos, insistência em projetos já condenados por tecnologias modernas ou pela Justiça. É o caso, por exemplo, do projeto de transposição de águas do Rio São Francisco (tratado neste espaço em 24/11/2006) para outras áreas do Semiárido, quando as águas do grande rio já não bastam sequer para atender às regiões historicamente supridas – porque a devastação do Cerrado baixou muito o fluxo para o São Francisco, porque os custos da transposição não param de crescer, etc. Recursos hídricos foram tema muito frequente em 2006.

Um exemplo desses temas de uma década atrás (5/5/2006) é o esquecido Cerrado, “primo pobre dos biomas brasileiros”, ou “uma floresta de cabeça para baixo”, como dizia o sábio escritor Carmo Bernardes – porque, ao contrário da Floresta Amazônica, o Cerrado tem a maior parte de sua biomassa debaixo da terra; e porque ali, no subsolo, nascem 14% das águas brasileiras, que chegam com seu fluxo a todas as grandes bacias – amazônica, do Paraná e do São Francisco. Agora, afirma o Ministério do Meio Ambiente, o Cerrado só tem estocada água equivalente a três anos dos seus fluxos; uma estiagem forte pode ter consequências graves.

Outro exemplo é o da usina nuclear de Angra 3 (também tratado aqui em 24/11/2006) – caso em que especialistas no mundo todo não se cansam de advertir para o altíssimo risco de acidentes em usinas nucleares, com custos desastrosos (inclusive em vidas humanas), e para as evidências de desvio de recursos de alto porte. Mas a obra continua aí, frequentando os meios de comunicação. Uma terceira evidência é a defasagem da matriz energética brasileira, que, no momento em que o mundo se volta para as energias renováveis (mais eficazes, mais baratas em grande parte), insiste em termoelétricas de alto custo, hidrelétricas em meio ao bioma amazônico (inconvenientes, problemáticas); e muito mais, principalmente a insistência no consumo de combustíveis fósseis, caros e altamente poluidores, afetando o clima (objeto de vários artigos no mesmo ano).

Já há mais de uma década, tema muito presente foi o da inadequação dos critérios de avaliação do estado do mundo em várias áreas (15/8/2006 e outras datas), influenciados apenas por premissas econômicas, sem olhar para aspectos sociais e culturais. Lembravam-se, na ocasião, as palavras do economista Celso Furtado, para quem grande parte das hipóteses globais das quais partem economistas são “equivocadas”, porque formuladas “a partir da observação do comportamento dos agentes que controlam os centros principais do poder; não interessa saber se aqueles que o exercem derivam sua autoridade do consenso, das maiorias ou da interação de formatos sociais que se controlam mutuamente (…) e por isso as decisões podem ser equivocadas, inadequadas ou em desacordo com os interesses sociais”. E a partir desses pressupostos, “examina o economista os critérios sobre investimentos ou de avaliação do produto interno bruto (PIB) que não levam em consideração recursos e serviços naturais. (…) Como ignorar o custo da destruição dos recursos naturais não renováveis, do solo, das florestas, da poluição das águas?”.

Na época em que Celso Furtado assim descrevia o panorama, lembrava-se também a ironia de José Lutzemberger, que dizia não haver nada melhor para o crescimento do PIB que um terremoto, que não leva em conta a destruição e contabiliza toda a reconstrução. Depois disso, citava-se no artigo o economista J. K. Galbraith, para quem “nos anos à frente deve haver algum procedimento pelo qual a ONU fortalecida suspenda a soberania de países cujos governos estejam destruindo seus povos.” Mas ele também não acertou, até aqui.

E assim vai esse olhar retrospectivo, mergulhando em muitas questões sem resposta adequada até hoje. As questões planetárias da água, por exemplo (7/4/2006), que começavam quando se lembra que 10% da humanidade ainda não recebe água tratada de boa qualidade e 2,5 bilhões de pessoas não dispõem de saneamento básico. Que mudou?

Os números estão aí, com os avanços no setor equivalendo apenas aos aumentos da população. No Brasil também os problemas continuam praticamente nos mesmo níveis: 10% sem água, quase 40% sem ligação das suas casas com as redes de esgotos.

E as questões do aquífero, esse gigantesco depósito de águas subterrâneas (mais de 40 trilhões de metros cúbicos), mas que enfrenta questões delicadas, embora já abasteça, por exemplo, cerca de 400 cidades só no Estado de São Paulo (Ribeirão Preto é uma delas, que só recebe águas subterrâneas). No país das águas (12% das águas superficiais do planeta), temos problemas como esses.

Pedro Nava tem razão.

* Washington Novaes é jornalista.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Por que falar de cidades educadoras?
Entre os dias 1 e 4 de junho deste ano, a cidade de Rosário na Argentina, receberá o XIV Congresso Internacional de Cidades Educadoras. Será o primeiro do gênero nas Américas, que têm atualmente 12 países e 60 cidades cadastradas na Associação Internacional de Cidades Educadoras (AICE).

Por Pedro Ribeiro Nogueira –

Em 1990, durante o primeiro congresso da AICE, em Barcelona, uma carta de princípios foi redigida, esboçando algumas das características que fazem de uma cidade um ambiente educador. Baseada na Declaração Internacional dos Direitos Humanos, a carta entende que as cidades são espaços plenos de oportunidades educativas, que podem ser potencializadas ou esquecidas. E reafirma: aprender é um processo para todas as idades e para toda a vida.

Entre tantos países e cidades, não faltaram diferentes aplicações destes princípios. Cada prefeito, gestor, diretor de escola, professor, coletivo ou organização da sociedade civil que se aproxima da ideia realiza um aporte único, alicerçado em sua realidade e em sua prática no território. Além dos vinte pontos do texto do I Congresso, muitos outros vão sendo criados diariamente por todos aqueles e aquelas que olham para a educação como algo que ocorre também fora dos muros das escolas.

Para debater estes diferentes aspectos, o Portal Aprendiz dá início a uma série de reportagens sobre experiências, conceitos e princípios que sublinham a atuação das Cidades Educadoras em suas diferentes formas. Nesta edição, perguntamos às pessoas que atuam na cultura, na educação, no urbanismo, na preservação e acesso ao patrimônio, na inclusão e na infância por que faz sentido falar em Cidades Educadoras no Brasil.
Foto: imfernandes

# Infância,

Por Ana Cláudia Leite, diretora de educação do Instituto Alana.

Garantir às crianças o direito à vida, saúde, educação, alimentação, enfim, os direitos fundamentais, deve ser prioridade absoluta. Honrar a criança, garantindo seu pleno desenvolvimento, é um caminho para garantir uma sociedade mais justa, plural e igualitária. O quanto a cidade é capaz de absorver essas demandas e acolher a infância, sendo um espaço de convivência, justiça e igualdade, terá um impacto fundamental nisso. Não há como desvincular a discussão de uma Cidade Educadora, do impacto do território na formação das novas gerações, da discussão da garantia de direitos.

Nós aprendemos ao longo de toda a vida, mas na infância, isso é muito mais intenso. Então, quando garantimos uma cidade que educa, na qual os bairros têm saberes que devem ser valorizados, que ela é um espaço formativo, você amplia as possibilidades dela ser um lugar significativo. A cidade que cresce com vistas a ser educadora olha não só para habitação e saneamento, que são fundamentais, mas para lazer, áreas verdes, espaços públicos. A criança convida a se pensar políticas de uma maneira mais universal, na perspectiva dela, é possível acolher mais gente, imaginar outras possibilidades de se fazer cidade. Ter uma responsabilidade com a infância e com a educação é se humanizar, é fortalecer formas significativas de conviver.
Foto: Governo do Estado

# Inclusão,

Com Maria Antônia Goulart, Especialista em políticas públicas da educação integral e uma das idealizadoras do Movimento Down.

No congresso passado, em Barcelona, o mote era “Cidade Educadora é aquela que inclui”. Acho que essa é uma dimensão fundamental: uma cidade não pode ser educadora se ela não pensa em todos setores que a compõe. E isso rebate em várias áreas, não é só nas escolas inclusivas e preparadas, mas na cidade como um todo, em como ela se produz e em como ela produz a comunicação, a acessibilidade dos espaços públicos e culturais, na possibilidade de troca de experiências por pessoas com e sem deficiência, das mais diversas línguas e nacionalidades.

Nas práticas mais arrojadas que vemos hoje de Cidades Educadoras, a questão da inclusão vem com bastante força. No Brasil, precisamos olhar a inclusão como um componente da vida das pessoas. Não é só escola especial ou adaptação. Trata-se de construir as condições necessárias para demolir as barreiras que criamos, para desfazer os obstáculos que fazem com que cada vez menos pessoas tenham acesso aos serviços e oportunidades. Neste ano teremos Paraolímpiadas e o que você viu sobre acessibilidade e inclusão até agora? O Brasil tem muito que avançar.
Foto: Jan Ribeiro/ Olinda

# Patrimônio e acesso aos bens culturais,

Com Márcio Carvalhal, membro da Rede Juntos pela Educação Integral e Ecomuseu de Maranguape (CE).

A questão do acesso aos bens culturais no Brasil esbarra na falta de políticas públicas que facilitem que a população possa conhecer e usufruir de tais bens, e de uma cultura de preservação e valorização do patrimônio, seja ele material ou imaterial na educação. É preciso que haja um comprometimento político dos gestores públicos com este tema, que esta consciência possa permear e influenciar as decisões de gestão em um sentido pedagógico. Este histórico de desvalorização dos bens culturais formou uma população que não reconhece seu patrimônio, e que não possui uma relação com o espaço que o circunda e tampouco poderá valorizar este contexto.

A importância de explorar e disseminar a concepção de Cidade Educadora para o Brasil reside no fato de que esse tipo de iniciativa faz com que gestores públicos, educadores e cidadãos comuns pensem em políticas públicas que facilitem a integração e a qualificação de seus potenciais espaços de aprendizagem, com objetivo de convidar crianças, jovens e adultos a conhecer, valorizar e vivenciar a cidade. A construção de uma Cidade Educadora propõe que exploremos a cidade como um currículo vivo e dinâmico: a rua ensina e precisamos aprender a ler seu potencial educativo, construindo um profundo significado na relação homem/território e seu papel cidadão. Outra contribuição da Cidade Educadora é colaborar com a requalificação dos conteúdos da educação no Brasil, ajudando a formatar currículos mais dinâmicos e integrados à cidade ou comunidade local, levando em consideração suas particularidades.
Pedro Ribeiro Nogueira/Portal Aprendiz

# Educação,

Com Helena Singer, socióloga, pesquisadora e educadora, coordenou o edital sobre Inovação e Criatividade na Educação Básica, do Ministério da Educação, que identificou centenas de práticas educadoras na educação brasileira.

É curioso que a gente precise explicar porque falar de Cidade Educadora é importante para a educação. Isso se dá porque a visão geral da educação é sua redução à escolarização e o processo de escolarização tende a se reduzir ao ensino de habilidades básicas que credenciem a certificados específicos. Mas, claro que educação é muito mais do que isso. Trata-se de processo permanente em nossas vidas, que nos possibilita conhecer, refletir e reconstruir os valores e códigos de nossa sociedade. Neste sentido, a cidade também é um agente de nossa educação. A Cidade Educadora reconhece e assume este papel, desenvolvendo um planejamento que se volta integralmente para o bem-estar de seus habitantes. E de seus múltiplos territórios.

Para tanto, os diversos setores urbanos precisam trabalhar de forma integrada, compartilhando suas bases de dados, perspectivas e estratégias para construir juntos ações que efetivamente impactem o bem-estar de todos. O setor da educação dita formal, das escolas e universidades, claro que deve ter papel protagonista em todo este processo. Na Cidade Educadora, os projetos pedagógicos destas instituições reconhecem os territórios em que estão localizadas, os modos de vida de seus públicos, sua cultura, o acesso que têm ou não a bens e serviços urbanos. Com base neste reconhecimento, as escolas e universidades das Cidades Educadoras constroem seus currículos e firmam alianças com agentes dos outros setores no mesmo território, além da própria comunidade. Dessa forma, tornam-se centros locais de produção de conhecimento capazes de se espalhar e catalizar os processos de desenvolvimento urbano.
Foto: Lu

# Urbanismo,

Com Beatriz Goulart, arquiteta, urbanista e educadora.

A concepção de Cidades Educadoras está fundamentada na ideia de educação permanente e integral – que se dá o tempo todo, por toda parte, em todos os lugares, inclusive nas escolas. Nesse sentido, considera-se a potencialidade educativa do território, formado por espaços construídos e espaços livres. Ou seja, por arquiteturas e urbanismos que, neste contexto, não devem ser mais tratadas isoladamente mas, sim, articuladamente. Falar de Cidades Educadoras, portanto, requalifica o campo de reflexão e atuação da arquitetura-urbanismo na perspectiva do território-rede. Além disso, considerar o potencial educativo dos lugares – lugares-casa, lugares-escola, lugares-praça, lugares-rua, lugares-floresta, etc – tem exigido uma revisão das teorias e metodologias de projeto (de arquitetura e de urbanismo), no âmbito do ensino/formação, da pesquisa e da atuação dos arquitetos-urbanistas na sociedade, de modo que nossas práticas sejam mais integradas e integradoras do que têm sido. A meu ver, este movimento todo levará à necessária revisão dos instrumentos legais que regem este campo – planos diretores, lei de uso do solo, código de obras e programa de necessidades dos edifícios públicos e privados – que foram desenvolvidos desconsiderando a integralidade e o potencial educativo do território. Não há mais sentido, por exemplo, em projetar e construir escolas estruturadas a partir de uma sequência de salas de aula idênticas, cercadas de altos muros, sem qualquer integração com seu entorno. A lógica da arquitetura e do urbanismo ainda responde a concepções do século passado, quiçá retrasado.

A temática das Cidades Educadoras exige que as cidades e as escolas se transformem e, para isso, nós arquitetos-urbanistas somos obrigados a também nos reinventar, a sairmos do nosso quadrado, somos obrigados a entrar na roda enquanto mediadores-educadores ambientais, trabalhando com metodologias colaborativas, participativas. A Cidade Educadora requer a reinvenção do sentido e do significado de nossa profissão, de nossa produção.
Foto: Cidade do Saber Camaçari.

# Cultura,

Com Juana Nunes, coordenadora da Secretaria de Educação e Formação Artística e Cultural (Sefac) do Ministério da Cultura (MinC).

A Cultura tem um papel fundamental no conceito de uma Cidade Educadora e é premissa básica para a construção de um novo caminho de formação cidadã. Essa perspectiva visa o diálogo com os diversos setores que atuam na cidade, potencializando as ações conjuntas dos diversos sujeitos, seus saberes e fazeres, dentro e fora dos espaços formais de educação, e aponta para um modelo sustentável de vida. A Cidade Educadora necessita da participação social, pois tem como base o planejamento estratégico intersetorial, intergeracional e interterritorial. Seu caráter participativo requer processo criativo constante. Ela é lugar do diálogo para quem se colocar como autor/ator de um projeto de futuro.

E é, também, aquela que resulta da poesia urbana, da vida partilhada em praças públicas, praias, campos, avenidas, museus, centros culturais, pontos de cultura, moradias, edificações históricas, escolas, hospitais, enfim, por todos os espaços e territórios da vida humana – considerando o campo e a cidade como extensão um do outro na produção da diversidade cultural. O respeito aos modos de ser, saber e fazer das comunidades em diversos territórios gera enraizamento e apropriação dos sujeitos aos espaços de vida, que se manifesta (espontânea, técnica e/ou artisticamente) em distintos modos de produzir cultura. Sendo assim, o processo formativo requer métodos múltiplos e complexos do ponto de vista político, ético e estético, principalmente quando se trata de um plano para a Cidade Educadora. Ela é, por fim, uma utopia do educar na direção da arte do viver junto.


Existe pouca vida ao longo do Rio Doce.
Grupo Independente para Avaliação do Impacto Ambiental (GIAIA) publica novo relatório mostrando que as calhas dos rios Doce, Gualaxo e do Carmo estão seriamente afetadas. 

Por Redação do Greenpeace Brasil – 

Qual é a situação ambiental ao longo da bacia do Rio Doce hoje, após o desastre da Samarco em Mariana (MG)? Haverá de fato recuperação ambiental e quando? Essas são algumas das questões que grupos de pesquisadores independentes estão tentando responder, de forma clara e imparcial. Entre eles, o GIAIA acaba de lançar o relatório “Análise da Comunidade Bentônica”, revelando os resultados dos impactos da tragédia sobre os bentos (organismos que vivem no fundo do leito do rio). 

Os bentos são compostos por espécies de animais e plantas, cuja presença e diversidade é muito utilizada para avaliar a situação da conservação e alteração de ambientes. De acordo com a análise de ocorrência dos bentos, as calhas dos rios Doce, Gualaxo e do Carmo foram seriamente afetadas.

Os resultados ainda são preliminares e precisam ter continuidade, mas apontam que, ao longo dos 11 pontos de coleta, os pesquisadores encontraram poucos indivíduos bentônicos, e, em sete dos pontos, não foi encontrado nenhum indivíduo vivo. No relato, os únicos organismos encontrados vivos foram larvas de besouro, minhocas e alguns camarões. Comparando os resultados obtidos com levantamentos anteriores realizados na calha do Rio Doce, em seus afluentes e lagos, já havia uma baixa ocorrência destes organismos. Os pesquisadores atribuem isso à intensidade de ocupação do solo na região e à baixa qualidade de água em decorrência de ação humana.

O estudo enfatiza que “além dos organismos bentônicos terem sido afetados pelo rejeito de ferro, a comunidade do médio curso do Rio Doce, estava sofrendo com a poluição orgânica”. Outras questões devem ser consideradas em futuras expedições científicas, pois estes organismos têm sua ocorrência e riqueza influenciada por alterações e também pela densidade e constituição de sedimentos, conforme cita o estudo: “a enxurrada de lama de rejeitos carregou e eliminou esses organismos no momento do acidente”.

Existem muitas lacunas de pesquisa biológica e dos impactos na população humana atingida, que ainda precisam ser preenchidos. Houve intensa alteração na paisagem nas calhas dos rios afetados, e os estudos que o GIAIA acaba de apresentar demonstram que estamos apenas no começo do entendimento dos reais impactos socioambientais gerados pelo incidente.

Assim como esta, novas iniciativas têm surgido, abrindo mais possibilidades de investigação e produção de resultados, para consolidar uma base de dados confiável que possa estar à disposição das autoridades e da sociedade. Atualmente, está em curso o edital Rio Doce, idealizado por artistas que se sensibilizaram com a gravidade da situação e promoveram shows beneficentes em Belo Horizonte (MG) e São Paulo (SP). Os recursos obtidos por esta iniciativa foram destinados ao projeto coletivo #RiodeGente, do qual o Greenpeace participa como gestor do edital de pesquisas que está aberto a propostas até o dia 22 de março.

Serão apoiados projetos no valor máximo de 70 mil reais durante seis meses, totalizando R$ 350 mil reais. Leia aqui o edital e as respectivas linhas de pesquisa propostas pelo coletivo #RiodeGente. “Os temas buscam gerar resultado para ajudar a entender os impactos da tragédia e gerar dados independentes para o monitoramento da recuperação do meio ambiente e compensação justa para as pessoas”, explica Nilo D’Ávila, coordenador de campanhas do Greenpeace Brasil.

Leia a íntegra do relatório “Análise da Comunidade Bentônica” do GIAIA aqui.

Quer ser um dos pesquisadores a calcular o impacto dessa tragédia? Leia mais sobre o Edital Rio Doce aqui.


Empreendedorismo e sustentabilidade no restaurante.
Foto: Reprodução/Youtube

“Vamos por a mão na massa para termos restaurantes mais sustentáveis?”, sugere o especialista
Por Marcus Nakagawa*

Em um momento em que vemos uma baixa no movimento do mercado nacional e desarranjos político e econômico, o empreendedorismo tem sido uma das soluções para aqueles que vêm sofrendo diante desse cenário. Muitas empresas estão fechando ou entrando em acordo judicial, aumentando o índice de desemprego. Porém, o otimismo e a criatividade inerente ao povo deste nosso país faz com que as pessoas busquem soluções para a sua sobrevivência, como já aconteceu muitas outras vezes.

Com o advento da internet, das mídias sociais e das novas programações da televisão, algumas outras profissões e negócios acabaram se “glamourizando” ou se “gourmetizando” como se diz na linguagem das mídias sociais. Profissões e negócios antes do cotidiano, iniciaram uma empreitada de destaque e de grande audiência mostrando o dia a dia de personagens comuns e um pouco caricatos. Esta mudança é muito bom para que as pessoas entendam que é mais importante o prazer do trabalho e do estilo de vida do que ganhar muito dinheiro fazendo aquilo que não gosta somente por posses ou consumo exacerbado.

É neste movimento que a profissão de chef de cozinha ou líder de um restaurante vem sendo mostrada nas suas mais diversas facetas, desde filmando o dia a dia de um confeiteiro famoso e os seus conflitos familiares até um concurso de quem faz os melhores pratos. Mais do que encorajar pequenos e médios empreendedores que sempre sonharam em trabalhar com umas das profissões que muitas vezes é somente o hobby do fim de semana com os amigos, fez com que novos nichos de mercados fossem abertos, como alguns restaurantes que só recebem no máximo 20 pessoas com reserva prévia de uma semana.

Isso mesmo… Novos restaurantes, novo mercado, consumidores que querem experimentar algo diferente num segmento que, mesmo em crise, é necessário, pois “todos precisam se alimentar” (quem já não ouviu esta frase?).

Porém, nem tudo é tão simples assim! É necessário planejamento, pesquisa de mercado, levantamento de um bom ponto comercial, capital inicial, capital de giro, precificação de cada prato, busca de mão de obra especializada ou treinar a já existente, investimento em cardápios diferenciados a cada estação, investimento em equipamentos, fornecedores, enfim, tudo isso e muito mais que qualquer negócio precisa ser submetido.

Mas além de tudo isso, ainda é possível que o empreendedor siga todos estes passos de gestão e ainda coloque pitadas e temperos de sustentabilidade? A resposta é sim!

Na última edição do Ciclo de Seminários de Sustentabilidade para PMEs, realizado em Curitiba em setembro de 2015, pela iSetor e pelo Instituto Envolverde, com a parceria da IBM, a empreendedora Anna Vargas de Faria apresentou a Farnel Gastronomia Paranaense, um restaurante que fica na capital do estado e se diferencia no mercado pelo cardápio com receitas tipicamente regionais.

Além de ter um espaço com um ar de “casa da avó” (pois a maioria da decoração é exatamente isso, com equipamentos de cozinha e utensílios que passaram de geração em geração, ou seja, a preservação cultural familiar), a Farnel valoriza a preservação ambiental do espaço, faz compostagem com as sobras dos alimentos, valoriza a cadeia local com fornecedores de cerveja, vinho, produtos de limpeza e farinha. Algumas negociações com fornecedores e provedores de serviços são feitas em conjunto com restaurantes vizinhos, barateando os preços, garantindo ainda mais a qualidade, o prazo de entrega e a procedência. E ainda está no planejamento muitas outras ações como horta orgânica, trabalhar com catadores de resíduos recicláveis, entre outros.

No banco de dados do Centro Sebrae de Sustentabilidade na internet, existe o caso da Tedesco Lanchonete e Restaurante na cidade de Santo Antônio de Jesus (BA) que fica no terminal rodoviário do município, há 184 km da capital baiana. Neste estabelecimento, além da forte prática de segurança alimentar, o óleo residual da cozinha é coletado de forma responsável, assim como as latas de alumínio e papelão. Os resíduos orgânicos são doados para proprietários rurais para serem utilizados como alimentação para animais. A água passa por um tratamento no qual a gordura é filtrada antes do descarte no sistema de esgoto e esta gordura é destinada corretamente.

Pois é, não é somente o conteúdo do alimento que tem que ser sustentável, saudável, orgânico, de boa procedência, mas também todo o processo de preparo, de gestão do negócio, sem obviamente esquecer da parte financeira. Vamos por a mão na massa para termos restaurantes mais sustentáveis?

* Marcus Nakagawa é sócio-diretor da iSetor; professor da ESPM; idealizador e presidente do conselho deliberativo da Abraps (Associação Brasileira dos Profissionais de Sustentabilidade); e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida. www.marcusnakagawa.com


Fonte: EcoD
Crianças vivem sitiadas na Síria.
Meninas e meninos da cidade síria de Alepo são obrigados a frequentar escolas subterrâneas, em outubro de 2014. Foto: ShellyKittleson/IPS.

Por Valentina Ieri, da IPS – 

Nações Unidas, 14/3/2016 – Trabalhadores humanitários são testemunhas de como morrem crianças por falta de médicos e medicamentos e de como crescem sem alimentos, escola e livros, fato cotidiano na Síria, onde vivem mais de 250 mil menores em áreas assediadas.As áreas sitiadas nesse país do Oriente Médiose tornaram prisões a céu aberto, onde famílias, meninos e meninas, ficam presos, rodeados por combatentes de grupos contrários, que se enfrentam e impedem que cheguem alimentos, combustível e outros suprimentos vitais, e também que as pessoas saiam.

O contexto da crise é detalhado no último informe Infância Assediada, divulgado pela organização Save The Children, apresentado em uma entrevista coletiva patrocinada pela Associação de Correspondentes da Organização das Nações Unidas (ONU).O conflito sírio, que já dura cinco anos, deixou 250 mil mortos, 4,6 milhões de refugiados e 6,6 milhões de deslocados internos, além de mais de 13,5 milhões de pessoas que necessitam de assistência humanitária.

“Em muitas dessas áreas é bastante difícil encontrar cloro para potabilizar a água. Porém, os grupos que se enfrentam teriam usado gás de cloro para atacar e matar civis”, diz o documento. “O centro de saúde daqui é apenas uma mesa, um esterilizador e uma gaze”, contou uma mãe de Ghouta, um bairro de Damasco.

A diretora regional da SaveThe Childrren, Sonia Khush, relatou que o único médico que há em Madaya é um combatente veterano, enquanto em Moadamiyeh três em cada oito são dentistas. Quando as pessoas precisam de analgésicos, tomam um comprimido a cada três dias. Não há vacinas nem medicamentos para as doenças crônicas, como diabetes ou problemas do coração.As consequências da precária situação de escassez não são apenas físicas, mas também psicológicas para as mulheres e crianças, que são criadas em um ambiente longe de ser seguro e em estreito contato com uma cultura de guerra”, ressaltou.

“As crianças vivem com o temor permanente dos bombardeios, que ocorrem mais em zonas sitiadas do que em qualquer outra parte da Síria”, acrescentouKhush.Os dados com os quais foi preparado o informe surgiram de 22 grupos de referência e de entrevistas com mais de 125 pais, mães e filhos residentes em oito diferentes áreas assediadas da Síria. Os resultados mostram que os sírios tiveram que reduzir o número de refeições diárias pela metade, ou mais.

Em sete dos grupos, 32% do total, algumas pessoas disseram que às vezes passavam um dia sem colocar alimento na boca. Quatro dos grupos de adultos, 24%, disseram que há crianças que morrem por falta de alimentos.Além disso, os pais de 14 grupos, 84%, relataram que seus filhos se tornam mais agressivos, retraídos ou deprimidos. Uma assistente humanitária, que pediu para não ser identificada e que fundou,em 2012,uma organização local para coordenar as atividades de ajuda nas zonas sitiadas, se referiu à “arte de sobreviver” praticada por milhares de famílias.

Ela contou que “há mães obrigadas a cozinhar mato e dar de comer aos filhos alimentos de animais. Vários recém-nascidos morrem nos postos de controle porque não se consegue o medicamento adequado. Para mim isso que é viver em uma área sitiada”.Apesar de o Conselho de Segurança da ONU ter emitido seis resoluções desde 2014, nas quais cobra o livre acesso para o pessoal humanitário na Síria, o número de pessoas que residem em lugares isolados pela guerra aumentou mais do que o dobro no ano passado, como também o de bombardeios.

“A situação piorou”, enfatizou Khush. “Em 2015, apenas 1% das pessoas residentes em zonas sitiadas receberam assistência gratuita da ONU. Mas as comunidades se tornam mais resilientes e determinadas em atuar para resolver seus próprios problemas”,acrescentou, destacando que “toda a sociedade civil da Síria, que não existia antes do conflito, tenta reconstruir uma sociedade quebrada, graças à contribuição de mulheres e homens que, apesar dos riscos diários, estão decididos a ser parte da solução”.

Segundo Khush, “é importante para nós que tenha começado o processo de reconstrução do país, para devolver às pessoas sua dignidade e o sentido de apropriação. Instalados em Damasco, trabalhamos principalmente em áreas onde operam grupos insurgentes. Por meio de uma sólida rede de voluntários e de conselhos locais, controlamos diariamente quais zonas foram bombardeadas, quais escolas foram atacadas e a segurança das crianças à saída. Falamos diretamente com as pessoas”.

Em áreas como Ghouta oriental, um território principalmente agrícola, as pessoas já não querem esmolas. Quando chegam os suprimentos, preferem sementes, ferramentas e implementos, contou a diretora regional da SaveThe Children.“É dada muita atenção aos comboios e à assistência alimentar, que é muito importante. Mas não se atende outra infinidade de questões relacionadas com o que realmente as pessoas necessitam. Não se concentra em como ajudar as comunidades a gerar renda por sua conta e de forma sustentável, que é o que faz SaveThe Children”, ressaltou.


Fonte: ENVOLVERDE
Agroecologia cubana em teste.
Uma trabalhadora da fazenda Marta, impulsionada por um dos históricos promotores da agroecologia em Cuba, colhe alface produzida de forma orgânica, no município Caimito, na província ocidental de Artemisa. Foto: Jorge LuisBaños/IPS

Por Ivet González, da IPS – 

Havana, Cuba, 14/3/2016 –Os Estados Unidos reiteram interesse em comprar alimentos orgânicos cubanos, quando a aproximação entre os dois países permitir. Quando esse dia chegar, o setor agroecológico da ilha poderá não estar preparado, segundo seus protagonistas.“O impacto estará condicionado por vários fatores, entre eles a capacidade dos agricultores de planejar, implantar e avaliar modelos de negócios agroecológicos que respondam aos mercados nacional e internacional”, apontou à IPS um dos fundadores do movimento verde no agronegócio cubano, Humberto Ríos.

A possível oportunidade no grande e exigente mercado norte-americano colocará à prova a capacidade de resposta dos cultivos orgânicos no país. “Os agricultores sabem produzir sem agroquímicos, mas isso não é suficiente para o desenvolvimento da agroecologia”, explicou por e-mail esse pesquisador, que atualmente trabalha na Espanha, no Centro Internacional paraa Pesquisa Agropecuária Voltada ao Desenvolvimento.

Cuba precisa de “uma política clara para o crescimento econômico dos setores privado e cooperativo interessados em oferecer produtos e serviços agroecológicos”, afirmou Ríos, ganhador, em 2010, do Prêmio Ambiental Goldman, conhecido como Nobel Verde.Ele foi premiado por seu trabalho no Projeto de Inovação Agropecuária Local (Pial), que desde 2000ensina, com cooperação internacional, a melhora participativa de sementes e outras técnicas ecológicas para 50 mil pessoas em 45 dos 168 municípios cubanos.

Ríos recordou a teoria de que a atual abertura econômica de Cuba possa ter um impacto positivo ou devastador. Vozes especializadas qualificam a agroecologia cubana como “filha da necessidade”, porque nasceu quando, em 1991, desapareceram os insumos que até então eram garantidos pelos países do extinto bloco soviético. “Se não forem tomadas medidas e resolvidos assuntos pendentes, provavelmente a invasão da agricultura convencional e seus produtos vai tragar os mais de 25 anos de agroecologia”, acrescentou.

Já houve variadas iniciativas dos Estados Unidos para impulsionar uma abertura bilateral no setor agropecuário, desde que começou o degelo entre os dois países, em dezembro de 2014, e espera-se que se multipliquem com a histórica visita que o presidente Brack Obama fará a Havana nos dias 21 e 22 deste mês.No município montanhoso de La Palma, onde o então jovem Ríos começou a trabalhar com um punhado de camponeses na localidade da província de Pinar delRío, no extremo ocidental do país, agora os ativistas do cultivo verde já percebem algumas das ameaças anunciadas.
Mulher colhe vagem orgânica na propriedade La Sazón, no bairro de Casino Deportivo, em Havana, que faz parte do sistema de agricultura urbana de Cuba. Foto: Jorge LuisBaños/IPS.

“O auge dos cultivos potencializados é uma debilidade”, afirmou Elsa Dávalos, da Associação Nacional de Pequenos Agricultores de La Palma e coordenadora do movimento agroecológico na localidade, onde 500 de um total de 1.127 propriedades cultivam alimentos sem o uso de produtos químicos.Dávalos contou que são chamados de “potencializados”os cultivos priorizados pelo ramo agrícola, que vêm junto com um pacote tecnológico químico, como, por exemplo, milho e feijão. “Muitos produtores optam por eles para obter grandes colheitas sem muito trabalho”, lamentou em conversa com a IPS no município.

Essa opção cresceu no agronegócio cubano depois que o governo de Raúl Castro começou, em 2008, uma reforma econômica com o foco voltado à produção agrícola, para reduzir a fatura anual de US$ 2 bilhões com importação de alimentos.Até agora as medidas aplicadas, como entrega de terras em usufruto, permitiram crescimentos modestos na agricultura, de 3,1% em 2015, que são considerados insuficientes para atender a demanda interna e diminuir os elevados preços dos alimentos, que se tornaram impossíveis de deter.

O setor produtivo se queixa, entre outras coisas, da carência de insumos como fertilizantes, máquinas e sistemas de irrigação, escassez de força de trabalho, pouco acesso a serviços complementares, entraves burocráticos e fraca industrialização para aproveitar excedentes em conservas. As propriedades ecológicas nadam em meio a essas dificuldades gerais e às próprias desse tipo de agricultura mais exigente.

“É muito difícil o camponês atender todas suas funções e também arrumar tempo para produzir os insumos ecológicos necessários”, pontuouYoan Rodríguez, coordenador do Pial em La Palma, sobre uma realidade que as áreas de produção orgânica evitam.Para elevar os rendimentos, “algumas pessoas devem se especializar em obter apenas os insumos como micro-organismos eficientes, compostagem e húmus de minhoca”, acrescentou à IPS esse pesquisador que impulsiona a melhora dos serviços agroecológicos na localidade, para apoiar e atrair os produtores.

“Há certa abertura de Cuba para o mundo e ainda mais com as negociações com os Estados Unidos. De alguma maneira chegarão também insumos químicos que saturam o mercado agrícola global. Será bem difícil manter o trabalho conquistado durante tantos anos”, advertiu Rodríguez.Outros fatores que desanimam o movimento no país são a quase nula certificação dos produtos agroecológicos e a ausência de preços diferenciados e competitivos para os alimentos orgânicos nas empresas estatais, às quais cooperativas e camponeses independentes estão obrigados a vender grande parte de sua produção.

Entretanto, o Pial e outras iniciativas traçam novas estratégias para também aproveitar as oportunidades que se abrem com a reforma e com a reinserção internacional. Com uma posição privilegiada entre a capital e a Zona Especial de Desenvolvimento Mariel, a fazenda Marta, que fica na província de Artemisa, produz, sem uso de químicos, vegetais e hortaliças vendidaspara 25 restaurantes de luxo de Havana, entre outros.
Membros da Coalizão Agrícola Norte-Americana por Cuba, integrada por 30 empresas agroalimentares, visitam a cooperativa Primeiro de Mayo em Güira de Melena, na província cubana de Artemisa. Foto: Jorge LuisBaños/IPS,

“Temos boa conexão com os mercados e vendemos o suficiente para valorizar o que fazemos”, contou Fernando Funes-Monzote, outro fundador do movimento agroecológico no país, que em 2011 iniciou esse projeto, onde atualmente trabalham 16 pessoas. “A aposta era demonstrar que é possível desenvolver aqui um projeto familiar ecologicamente sustentável, socialmente justo e economicamente viável”, disse à IPS.

Enquanto isso acontece, o interesse pela agricultura ecológica cubana é reiterado pelas visitas ao país de empresários e funcionários norte-americanos do setor, que se destacam entre os promotores mais ativos para que seja consolidada a normalização das relações entre Estados Unidos e Cuba, separados por apenas 90 milhas náuticas.O maior exemplo são as 30 companhias do setor dos Estados Unidos da Coalizão Agrícola Norte-Americana por Cuba (Usac), que nasceu em janeiro de 2015 para contribuir para a anulação do embargo que seu país mantém contra a ilha desde 1962.

Inclusive o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos pediu ao Congresso financiamento para que cinco funcionários trabalhem em tempo integral em solo cubano, para preparar o caminho para que o comércio e os investimentos arranquem quando desaparecerem as restrições atuais.Também é significativo que a primeira fábrica norte-americana a se instalar em Cuba em mais de meio século, após receber a aprovação de seu governo em fevereiro, seja uma unidade para montar mil tratores por ano, destinados a agricultores independentes, que funcionará na zona de Mariel.

Por uma exceção ao embargo de 2000, Cuba pode adquirir à vista alimentos e medicamentos dos Estados Unidos, o que diminuiu nos últimos anos, porque a ilha encontrou facilidades de créditos em outros mercados. Em 2015, as compras de alimentos somaram apenas US$ 120 milhões contra os US$ 291 milhões de 2014, segundo o Conselho Econômico e Comercial Estados Unidos Cuba.

Agroecologia, escassa em números

As estatísticas cubanas sobre alimentos orgânicos e fazendas agroecológicas são escassas e dispersas por municípios e programas. A iniciativa nacional que oferece números com maior frequência é o Programa Nacional de Agricultura Urbana, Suburbana e Familiar, que promove a plantação nas cidades sem uso de produtos químicos.

Nessa modalidade são cultivados 8.438 hectares, dos quais 1.293 nos chamados organopônicos, pequenas áreas urbanas atendidas por diaristas, com 6.875 hectares de hortas intensivas e 270 de cultivos semiprotegidos.Os quintais e as áreas em zonas urbanas e suburbanas produziram um total de 1.257.500 toneladasem 2015, em sua maioria vegetais, o que representou 2.500 toneladas a menos do que no ano anterior.


Fonte: ENVOLVERDE