terça-feira, 16 de abril de 2019


Enzima modificada pode aumentar a produção de etanol de segunda geração.


A partir de proteína produzida por fungo amazônico, pesquisadores desenvolveram uma molécula capaz de aumentar a liberação de açúcar da biomassa para fermentação.

Um dos maiores desafios para a produção de biocombustíveis de segunda geração é identificar enzimas oriundas de microrganismos que, combinadas em um coquetel enzimático, viabilizem a hidrólise de biomassa. Por esse processo, as enzimas atuam em conjunto para degradar e converter carboidratos da palha e do bagaço da cana-de-açúcar, por exemplo, em açúcares simples, capazes de sofrer fermentação.

Um grupo de pesquisadores da Unicamp, em parceria com colegas do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), descobriu que um fungo encontrado na Amazônia, da espécie Trichoderma harzianum, produz uma enzima com potencial para se tornar a mais importante em um coquetel enzimático.

A proteína, chamada β-glicosidase, da família 1 das glicosídeo hidrolases (GH1), atua na fase final da degradação da biomassa e produz glicose livre para ser fermentada e transformada em etanol. Porém, os pesquisadores observaram em laboratório que essa mesma glicose produzida pela reação enzimática inibia a atividade da β-glicosidase.

“Também constatamos que a atividade ótima de catálise da proteína ocorria a 40 graus. Isso representava outro obstáculo para o uso da enzima porque, em ambientes industriais, a hidrólise enzimática da biomassa é feita sob temperaturas mais altas, geralmente em torno de 50 graus”, explicou Clelton Aparecido dos Santos, pós-doutorando no Centro de Biologia Molecular e Engenharia Genética da Unicamp com bolsa da FAPESP.

Por meio de análises da estrutura da enzima, combinadas com técnicas de genômica e de biologia molecular, os pesquisadores conseguiram fazer modificações na estrutura da molécula que permitiram solucionar esses problemas e aumentar de forma considerável sua eficiência em degradar biomassa.
A professora Anete Pereira de Souza, coordenadora do projeto: “A mutação dos dois aminoácidos no sítio ativo da proteína tornou-a uma enzima supereficiente, pronta para aplicação industrial” Foto: Antonio Perri Edição de Imagem: Luis Paulo Silva

Resultado de um projeto Regular e de um Temático, ambos apoiados pela FAPESP, o estudo foi publicado na revista Scientific Reports.“Verificamos que a proteína modificada que desenvolvemos é muito mais eficiente do que a enzima não modificada e pode ser usada para suplementar os coquetéis enzimáticos comercializados hoje para a degradação de biomassa e produção de biocombustíveis de segunda geração”, disse Santos à Agência FAPESP.

Para chegar à proteína modificada, os pesquisadores inicialmente compararam a estrutura cristalográfica da molécula original com a de outras enzimas β-glicosidases selvagens das famílias 1 (GH1) e 3 (GH3) das glicosídeo hidrolases. Os resultados das análises revelaram que as glicosidases GH1 mais tolerantes à glicose apresentavam um canal de entrada do sítio ativo mais profundo e estreito do que outras β-glicosidases. Mostraram ainda que esse canal restringia o acesso da glicose ao sítio ativo da enzima.

Já as β-glicosidases menos tolerantes à glicose possuem um canal de entrada do sítio ativo mais curto e largo, que permite o acesso de uma quantidade maior da glicose produzida por essas enzimas durante a fase final da degradação da biomassa. A glicose retida entope o canal da proteína e diminui sua atividade catalítica.

Com base nessa observação, os pesquisadores fizeram, por meio de uma técnica de biologia molecular denominada mutagênese sítio-dirigida, a substituição de dois aminoácidos que poderiam funcionar como “porteiros” na entrada do sítio ativo da enzima, autorizando ou impedindo a entrada da glicose. As análises dos experimentos indicaram que a modificação causou o estreitamento do sítio ativo da enzima.

“O sítio ativo da enzima mutante passou a ter uma dimensão menor e semelhante ao das β-glicosidases GH1 mais tolerantes à glicose”, afirmou Santos.

Aumento de eficiência

A fim de avaliar o desempenho da proteína melhorada na degradação de biomassa – especialmente do bagaço da cana, um resíduo agroindustrial com grande potencial a ser explorado no Brasil –, os pesquisadores fizeram uma série de experimentos. Por meio de um estágio de pesquisa no exterior com bolsa da FAPESP, Santos analisou, em colaboração com um grupo de pesquisadores liderados pelo professor Paul Dupree, da Universidade de Cambridge, na Inglaterra, a eficiência da enzima melhorada em relação à liberação de glicose na conversão de diferentes fontes de biomassa vegetal.

Os resultados das análises indicaram que a enzima modificada apresentou uma eficiência catalítica 300% maior do que a proteína selvagem e tornou-se mais tolerante à glicose, propiciando um aumento significativo da liberação de açúcar de todas as fontes de biomassa vegetal testadas. Além disso, a mutação aumentou a estabilidade térmica da enzima durante a fermentação.

“A mutação dos dois aminoácidos no sítio ativo da proteína tornou-a uma enzima supereficiente, pronta para aplicação industrial”, disse Anete Pereira de Souza, professora da Unicamp e coordenadora do projeto. “Uma das vantagens dessa enzima é que ela é produzida in vitro e não a partir de um organismo modificado, nesse caso, o fungo. Com isso, é possível produzi-la em grandes quantidades e reduzir os custos”, avaliou.


Fonte: ENVOLVERDE

Rio Paraopeba está morto e perda de biodiversidade é irreversível.

Por Caroline Aragaki – Jornal da USP – 

A sociedade precisa entender que, sem o ambiente, não tem como existir vida humana, afirma gestora ambiental.

Análise da Fundação SOS Mata Atlântica afirma que o Rio Paraopeba está morto no trecho que corta Pará de Minas.

Trata-se de uma consequência do rompimento da Barragem 1 da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. Ana Paula Fracalanza, professora de Gestão Ambiental da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, comenta o caso, que afeta o abastecimento de água da região.

“Quando a Fundação SOS Mata Atlântica diz que o rio está morto, ela quer dizer que não há vida aquática”, afirma a especialista. Para determinar isso, a Fundação considerou alguns parâmetros enquanto realizou coleta de 22 pontos em 305 quilômetros do rio. Um deles foi o índice de turbidez, que aparece 6,83 vezes acima do limite máximo permitido por lei.

“A água estando turva faz com que haja dificuldade de um feixe de luz atravessar a água, isso prejudica a fotossíntese e resulta em um aumento de calor. Então, a vida aquática é prejudicada e a vida acaba não conseguindo seguir”, explica Ana Paula. Outro fator associado à turbidez é a taxa insuficiente de oxigênio dissolvido, fazendo com que não exista manutenção da vida aquática, porque animais não conseguem sobreviver. “Apenas alguns tipos de bactérias, que não precisam de oxigênio para viver, conseguiriam persistir no Rio Paraopeba.”

De acordo com a professora, mesmo se o rio conseguisse voltar a ter vida depois de muito tempo de recuperação ambiental, precisaríamos pensar quais usos eram feitos da água. Alguns eram agricultura, pecuária, abastecimento. Quanto a isso, “em 24 de fevereiro, a Secretaria de Estado de Saúde, Meio Ambiente, Desenvolvimento Sustentável, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais lançou uma medida de prevenção, proibindo o uso da água em qualquer finalidade por tempo indeterminado”.

Não há possibilidade de recuperação para abastecimento público. Um simples processo de purificação não basta para conter os metais pesados, “que, acima de alguns limites máximos, também são prejudiciais à saúde”. Como exemplos, temos: chumbo, mercúrio, ferro, cobre, manganês e cromo.

Para além da perda no uso da água, Ana Paula também ressalta o impacto ambiental: “Mesmo que houvesse a recuperação da vida aquática, não seria a mesma vida que havia anteriormente ao crime ambiental, porque a biodiversidade que havia antes não tem como ser recuperada. Não temos como avaliar todas as espécies que existiam previamente à ocorrência do crime ambiental. Não há como avaliar isso”.

A professora explica o posicionamento que o governo e a sociedade devem ter para evitar casos como o de Brumadinho. Em relação ao governo, o posicionamento deve ser sempre preventivo, de fiscalização e de importância ao cumprimento das leis ambientais. “O Brasil tem uma legislação bastante avançada em relação às questões ambientais, então nesse sentido é fundamental que nós não soframos um retrocesso, que as leis sejam cumpridas e que as penalidades sejam, de fato, aplicadas.” 

Para ela, a sociedade deve pressionar e não apenas colaborar. “Fazer a sua parte de perceber que o ambiente é fundamental, que sem o ambiente não há vida. Sem as leis ambientais, sem o ambiente, não tem como existir a vida e nem o ser humano.”

Recentemente, no dia 15 de março, a Vale assumiu a elaboração, pagamento e execução de uma nova adutora, com extensão de 50 quilômetros, capaz de captar água do Pará e resolver o problema de abastecimento do município de Pará de Minas. Enquanto a obra não for finalizada, a construtora se comprometeu a perfurar novos poços artesianos que captem água do Córrego dos Moreiras, que será interligada na tubulação já existente do Rio Paraopeba. Não sabemos o risco ou o impacto que ambas as medidas podem gerar.


Fonte: ENVOLVERDE

Ameaça aos rios da região de Bonito gera prejuízos para todo o Brasil.

por Fundação SOS Mata Atlântica – 

Recentes reportagens do Fantástico (07/04) e do Bom dia Brasil (08/04), da TV Globo, tornaram público o que pesquisadores, cientistas, ambientalistas, profissionais de turismo, moradores, ONGs e promotores de justiça do município de Bonito (MS) têm alertado para autoridades locais e nacionais há meses: os rios da região também estão por um triz.

A Fundação SOS Mata Atlântica parabeniza o trabalho de todos estes setores, inclusive da imprensa, que mobilizam a sociedade em defesa dos rios e do meio ambiente. Conhecidos por suas águas cristalinas, os rios de Bonito têm perdido essa característica, principalmente por conta das mudanças no uso do solo e avanço das lavouras de soja, especialmente sobre as Áreas de Preservação Permanente e recarga dos aquíferos. Este episódio comprova como a condição da água dos rios brasileiros é fundamental para a qualidade de vida das pessoas, para a economia e o meio ambiente.

Se nada for feito por essa região, o Brasil está sob risco iminente de perder uma das áreas mais ricas em biodiversidade e conhecida internacionalmente com o polo turístico em razão das belezas naturais, importante para a vida de milhares de pessoas e crucial para o desenvolvimento econômico local.

Os prejuízos podem começar com as cadeias turísticas local, nacional e internacional, passando por impactos no Pantanal e na Mata Atlântica da região, como no Parque Nacional da Serra da Bodoquena, responsável por proteger mais de 77 mil hectares de ecossistemas naturais de grande relevância ecológica e beleza cênica nos municípios de Bodoquena, Bonito, Jardim e Porto Murtinho.

O que acontece no Mato Grosso do Sul vai ao encontro do alerta que a SOS Mata Atlântica lançou no Dia Mundial da Água (22/03), quando evidenciamos como nossos rios estão por um triz. Na ocasião, o relatório “O retrato da qualidade da água nas bacias da Mata Atlântica“ destacou como os rios brasileiros são agredidos e vão perdendo lentamente sua capacidade de abrigar vida aquática, de abastecer a população e de promover saúde e lazer para a sociedade. Além disso, o estudo apontou que as ameaças são ocasionadas ora por agressões geradas por grandes desastres, ora por conta dos maus usos da água no dia a dia, decorrentes da falta de saneamento, da ocupação desordenada do solo nas cidades, por falta de florestas e matas ciliares que protegem os rios e nascentes e por uso indiscriminado de fertilizantes químicos e agrotóxicos. Ou seja, a situação dos rios sul-mato-grossenses acompanha este triste retrato nacional.

Os dados produzidos por nossos voluntários do projeto Observando os Rios, em 2018, na região de Bonito (MS), dão conta que, dos 13 pontos analisados – sendo 12 em Bonito e um em Bodoquena –, apenas três têm qualidade de água boa (localizados nos rios Formoso, Perdido e Salobra). O relatório mostra que 77% dos pontos analisados no Mato Grosso do Sul possuem qualidade de água regular, ou seja, no limite mínimo permitido na legislação e nos padrões internacionais de qualidade da água. 

Entre estes pontos estão os rios da Prata e Mimoso. Variações climáticas e alterações do uso do solo ou uso desordenado dos recursos hídricos ao longo do curso dos rios acabam provocando interferência direta na qualidade da água.

O Brasil está descuidando de seus rios, condenados pela falta de boa governança. Rios e águas contaminadas são reflexo da ausência de instrumentos eficazes de planejamento e gestão. Refletem a falta de saneamento ambiental, a ineficiência ou falência do modelo adotado, o desrespeito aos direitos humanos e o subdesenvolvimento.

A Fundação SOS Mata Atlântica reforça a necessidade e urgência da implementação de uma série de leis que, juntas, podem contribuir para que os rios de Bonito melhorem sua situação. Entre elas, a Política Nacional de Recursos Hídricos, de forma descentralizada e participativa, por meio dos comitês de bacias hidrográficas e com todos os seus instrumentos de gestão funcionando plenamente. 

O Código Florestal e suas políticas, como a Área de Preservação Permanente (APP) e Reserva Legal RL), que garantem a proteção da vegetação nativa e contemplam instrumentos econômicos e financeiros para o alcance deste objetivo.

Localmente, os municípios que estão inseridos na área de aplicação da Lei da Mata Atlântica (11.428/2006) podem encontrar no Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica (PMMA) outra saída. Ela é responsável por apontar ações prioritárias e áreas para a conservação e recuperação da vegetação nativa e da biodiversidade da Mata Atlântica, com base em um mapeamento dos remanescentes da região e percepção da sociedade.

Em Bonito, por exemplo, segundo os dados do Atlas da Mata Atlântica (SOS Mata Atlântica/ INPE) restam hoje 8,17% da Mata Atlântica original do município. São aproximadamente 40 mil hectares de florestas, o equivalente a 52 mil campos de futebol. Já em Bodoquena, são aproximadamente 68 mil hectares de Mata Atlântica original (88 mil campos de futebol), o que representa 27% do que havia originalmente na cidade.

Diante da gravidade e das ameaças a esses patrimônios naturais, é fundamental que os órgãos responsáveis – entre eles, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar do Mato Grosso do Sul, as prefeituras da região e o Ministério Público – tomem as medidas cabíveis para coibir e reparar os danos aos ecossistemas locais.

Fonte: ENVOLVERDE

“Coquetel” com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios – consulte o seu.


por Ana Aranha, Luana Rocha, Agência Pública/Repórter Brasil

Um coquetel que mistura diferentes agrotóxicos foi encontrado na água de 1 em cada 4 cidades do Brasil entre 2014 e 2017. Nesse período, as empresas de abastecimento de 1.396 municípios detectaram todos os 27 pesticidas que são obrigados por lei a testar. Desses, 16 são classificados pela Anvisa como extremamente ou altamente tóxicos e 11 estão associados ao desenvolvimento de doenças crônicas como câncer, malformação fetal, disfunções hormonais e reprodutivas. Entre os locais com contaminação múltipla estão as capitais São Paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Manaus, Curitiba, Porto Alegre, Campo Grande, Cuiabá, Florianópolis e Palmas.

Os dados são do Ministério da Saúde e foram obtidos e tratados em investigação conjunta da Repórter Brasil, Agência Pública e a organização suíça Public Eye. As informações são parte do Sistema de Informação de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Sisagua), que reúne os resultados de testes feitos pelas empresas de abastecimento.

Os números revelam que a contaminação da água está aumentando a passos largos e constantes. Em 2014, 75% dos testes detectaram agrotóxicos. Subiu para 84% em 2015 e foi para 88% em 2016, chegando a 92% em 2017. Nesse ritmo, em alguns anos, pode ficar difícil encontrar água sem agrotóxico nas torneiras do país.

Embora se trate de informação pública, os testes não são divulgados de forma compreensível para a população, deixando os brasileiros no escuro sobre os riscos que correm ao beber um copo d’água.

Em um esforço conjunto, a Repórter Brasil, a Agência Pública e a organização suíça Public Eye fizeram um mapa interativo com os agrotóxicos encontrados em cada cidade. O mapa revela ainda quais estão acima do limite de segurança de acordo com a lei do Brasil e pela regulação europeia, onde fica a Public Eye.

Saiba o nível de contaminação da sua cidade clicando na imagem abaixo.
O retrato nacional da contaminação da água gerou alarde entre profissionais da saúde. “A situação é extremamente preocupante e certamente configura riscos e impactos à saúde da população”, afirma a toxicologista e médica do trabalho Virginia Dapper. O tom foi o mesmo na reação da pesquisadora em saúde pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) no Ceará, Aline Gurgel: “dados alarmantes, representam sério risco para a saúde humana”.

Entre os agrotóxicos encontrados em mais de 80% dos testes, há cinco classificados como “prováveis cancerígenos” pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos e seis apontados pela União Europeia como causadores de disfunções endócrinas, o que gera diversos problemas à saúde, como a puberdade precoce. Do total de 27 pesticidas na água dos brasileiros, 21 estão proibidos na União Europeia devido aos riscos que oferecem à saúde e ao meio ambiente.

A falta de monitoramento também é um problema grave. Dos 5.570 municípios brasileiros, 2.931 não realizaram testes na sua água entre 2014 e 2017.

Coquetel tóxico

A mistura entre os diversas químicos foi um dos pontos que mais gerou preocupação entre os especialistas ouvidos. O perigo é que a combinação de substâncias multiplique ou até mesmo gere novos efeitos. Essas reações já foram demonstradas em testes, afirma a química Cassiana Montagner. 

“Mesmo que um agrotóxico não tenha efeito sobre a saúde humana, ele pode ter quando mistura com outra substância”, explica Montagner, que pesquisa a contaminação da água no Instituto de Química da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), de São Paulo. “A mistura é uma das nossas principais preocupações com os agrotóxicos na água”.

Os paulistas foram os que mais beberam esse coquetel nos últimos anos. O estado foi recordista em número de municípios onde todos os 27 agrotóxicos estavam na água. São mais de 500 cidades, incluindo a grande São Paulo – Guarulhos, São Bernardo do Campo, Santo André e Osasco – além da própria capital. E algumas das mais populosas, como Campinas, São José dos Campos, Ribeirão Preto e Sorocaba. O Paraná foi o segundo colocado, com coquetel presente em 326 cidades, seguido por Santa Catarina e Tocantins.

Os especialistas falam muito sobre a “invisibilidade” do efeito coquetel. As políticas públicas não monitoram a interação entre as substâncias porque os estudos que embasam essas políticas não apontam os riscos desse fenômeno. “Os agentes químicos são avaliados isoladamente, em laboratório, e ignoram os efeitos das misturas que ocorrem na vida real”, diz a médica e toxicologista Dapper.

Por isso, ela lamenta, as pessoas que já estão desenvolvendo doenças em decorrência dessa múltipla contaminação provavelmente nunca saberão a origem da sua enfermidade. Nem os seus médicos.

Questionado sobre quais medidas estão sendo tomadas, o Ministério da Saúde enviou respostas por email reforçando que “a exposição aos agrotóxicos é considerada grave problema de saúde pública” e listando efeitos nocivos que podem gerar “puberdade precoce, aleitamento alterado, diminuição da fertilidade feminina e na qualidade do sêmen; além de alergias, distúrbios gastrintestinais, respiratórios, endócrinos, neurológicos e neoplasias” (Leia a íntegra das respostas do Ministério da Saúde).

A resposta, porém, ressalta que ações de controle e prevenção só podem ser tomadas quando o resultado do teste ultrapassa o máximo permitido em lei. E aí está o problema: o Brasil não tem um limite fixado para regular a mistura de substâncias.

Essa é uma das reivindicações dos grupos que pedem uma regulação mais rígida para os agrotóxicos. 

“É um absurdo esse problema ficar invisível no monitoramento da água e não haver ações para controlá-lo”, afirma Leonardo Melgarejo, engenheiro de produção e membro da Campanha Nacional Contra os Agrotóxicos e Pela Vida “Se detectar diversos agrotóxicos, mas cada um abaixo do seu limite individual, a água será considerada potável no Brasil. Mas a mesma água seria proibida na França”.

Ele se refere à regra da União Europeia que busca restringir a mistura de substâncias: o máximo permitido é de 0,5 microgramas em cada litro de água – somando todos os agrotóxicos encontrados. 

No Brasil, há apenas limites individuais. Assim, somando todos os limites permitidos para cada um dos agrotóxicos monitorados, a mistura de substâncias na nossa água pode chegar a 1.353 microgramas por litro sem soar nenhum alarme. O valor equivale a 2.706 vezes o limite europeu.

O risco das pequenas quantidades

Mesmo quando se olha a contaminação de cada agrotóxico isoladamente, o quadro preocupa. Dos 27 agrotóxicos monitorados, 20 são listados como altamente perigosos pela Pesticide Action Network, grupo que reúne centenas de organizações não governamentais que trabalham para monitorar os efeitos dos agrotóxicos.

Mas, aos olhos da lei brasileira, o problema é pequeno. Apenas 0,3% de todos os casos detectados de 2014 a 2017 ultrapassaram o nível considerado seguro para cada substância. Mesmo considerando os casos em que se monitora dez agrotóxicos proibidos no Brasil, são poucas as situações em que a presença deles na água soa o alarme.

E esse é o segundo alerta feito por parte dos pesquisadores: os limites individuais seriam permissivos. 

“Essa legislação está há mais de 10 anos sem revisão, é muito atraso do ponto de vista científico” afirma a química Montagner. “É como usar uma TV antiga, pequena e preto e branco, quando você pode ter acesso a uma HD de alta definição”.

Ela se refere a pesquisas mais recentes sobre os riscos do consumo frequente e em quantidades menores, um tipo de contaminação que não gera reações imediatas. “Talvez certo agrotóxico na água não leve 15% da cidade para o hospital no mesmo dia. Mas o consumo contínuo gera efeitos crônicos ainda mais graves, como câncer, problemas na tireoide, hormonal ou neurológico”, alerta Montagner. 

“Já temos evidências científicas, mas a água contaminada continua sendo considerada como potável porque não se olha as quantidades menores”, afirma.

Em resposta a essa crítica, um grupo de trabalho foi criado pelo Ministério da Saúde para rever os limites da contaminação. “Estamos fazendo um trabalho criterioso”, afirma Ellen Pritsch, engenheira química e representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo. 

Segundo ela, pesquisas internacionais e regulações de outros países estão sendo levados em conta. Criado em 2014, a previsão é que os trabalhos sejam concluídos em setembro.

Pelo menos 144 cidades detectaram o mesmo pesticida de modo contínuo durante os quatro anos de medições seguidos, segundo os dados. Mais uma vez, São Paulo é o recordista desse fenômeno de intoxicação. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam o uso de pesticidas na produção de cana de açúcar como a provável origem para a larga contaminação do estado. “A cultura da cana é a que tem mais herbicidas registrados. Como São Paulo é um dos maiores produtores de cana, isso justifica sua presença elevada [de pesticidas na água]”, afirma Kassio Mendes, coordenador do comitê de qualidade ambiental da Sociedade Brasileira da Ciência das Plantas Daninhas.

O diuron, um dos principais herbicidas usados pelo setor, foi detectado em todos os testes feitos na água dos mananciais das regiões onde mais se cultiva cana no estado, segundo dados de 2017 da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). A substância é uma das apontadas como provável cancerígena pela Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos.

De quem é a responsabilidade?

Depois de contaminada, são poucos os tratamentos disponíveis para tirar o agrotóxico da água. “Alguns filtros são capazes de tirar alguns tipos de agrotóxicos, mas não há um que dê conta de todos esses”, afirma Melgarejo. “A água mineral vem de outras fontes, mas que são alimentadas pela água que corre na superfície, então eventualmente também serão contaminadas”.

O trabalho preventivo, ou seja, evitar que os agrotóxicos cheguem aos mananciais, deveria ser primordial, afirma Rubia Kuno, gerente da divisão de toxicologia humana e saúde ambiental da Cetesb. “O esforço deve ser na prevenção porque o sistema de tratamento convencional não é capaz de remover os agrotóxicos da água”, afirma.

É grande o debate sobre a complexidade em se enfrentar o problema, mas é difícil encontrar quem está assumindo a responsabilidade.

A reportagem procurou as secretarias do Meio Ambiente, Agricultura e Saúde e Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) para entender quais ações são tomadas no estado com o maior índice de contaminação. As respostas foram dadas pela Sabesp e pela assessoria do meio ambiente com informações técnicas sobre o monitoramento. Nem as secretarias nem a empresa esclareceram o que está sendo feito para controlar ou prevenir o problema. (Leia a íntegra das respostas da Sabesp e da Secretaria do Meio Ambiente).
O Ministério da Saúde diz que a vigilância sanitária dos municípios e dos estados deve dar o alerta aos prestadores de serviços de abastecimento de água para que tomem as providências de melhoria no tratamento da água. “Caso os dados demonstrem que o problema ocorre de forma sistemática, é preciso buscar soluções a partir da articulação com os demais setores envolvidos, como órgãos de meio ambiente, prestadores de serviço e produtores rurais”, diz a nota enviada pelo órgão.

Questionado sobre quais ações estão sendo tomadas, o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg), que representa os produtores de agrotóxicos, fez uma defesa sobre a segurança dos pesticidas. Em nota, o grupo afirma que a avaliação feita pela Anvisa, Ibama e Ministério da Agricultura garante que eles são seguros ao trabalhador, população rural e ao meio ambiente “sempre que utilizados de acordo com as recomendações técnicas aprovadas e indicadas em suas embalagens”.

O sindicato afirma que a aplicação correta dos produtos no campo é um desafio e atribui a responsabilidade aos trabalhadores que aplicam os pesticidas. “O setor de defensivos agrícolas realiza iniciativas para garantir a aplicação correta de seus produtos, uma vez que alguns problemas estruturais da agricultura como a falta do hábito da leitura de rótulo e bula e analfabetismo no campo trazem um desafio adicional de cumprimento às recomendações de uso”.
Ao contrário do que ocorre em outros países, no Brasil as empresas que produzem agrotóxicos não se envolvem com o monitoramento da água, que é custeado pelos cofres públicos e pelas empresas de abastecimento.

Em Santa Catarina, que está entre os três estados com maior contaminação, o Ministério Público Estadual chamou a responsabilidade de prefeituras, secretarias estaduais, concessionárias de água, agências reguladoras e sindicatos de produtores e trabalhadores rurais. A iniciativa partiu dos resultados de um estudo inédito que encontrou agrotóxicos na água de 22 municípios. “Alertamos todos os órgãos públicos e privados envolvidos para buscar soluções, é preciso aplicar medidas corretivas para diminuir os riscos dos cidadãos”, diz a promotora Greicia Malheiros, responsável pela investigação. A iniciativa teve início em março desse ano e ainda não tem resultados.

Mais do que remediar a contaminação da água, a coordenadora técnica do estudo, a engenheira química Sonia Corina Hess, defende a proibição do uso dos pesticidas que oferecem maior risco. Das substâncias encontradas em seu estudo no estado catarinense, sete estão proibidas na União Europeia por oferecer risco à saúde humana. “Tem que proibir o que é proibido lá fora, tem que proibir o que é perigoso. Se faz mal para eles porque no Brasil é permitido?”, questiona.


Perigoso na Europa, permitido no Brasil

O controle da água feito pelo Brasil também está distante dos parâmetros da União Europeia. Com o objetivo de eliminar a contaminação, o continente fixou a concentração máxima na água em 0,1 micrograma por litro – valor que era o mínimo detectável quando a regulação foi criada.

Para descobrir como a água do Brasil seria avaliada pelo padrão europeu, a organização Public Eye classificou os dados fornecidos pelo Ministério da Saúde segundo o critério daquele continente. 

Alguns dos agrotóxicos mais perigosos ultrapassaram os limites europeus em mais de 20% dos testes. 

Entre eles, o glifosato e o mancozebe, ambos associados a doenças crônicas, e o aldicarbe, proibido no Brasil e classificado pela Anvisa como “o agrotóxico mais tóxico registrado no país, entre todos os ingredientes ativos utilizados na agricultura”.

O glifosato é o caso mais revelador sobre as peculiaridades do Brasil na regulação sobre agrotóxicos. 

Classificado como “provável carcinogênico” pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer, órgão da Organização Mundial da Saúde, o pesticida está sendo discutido em todo o mundo. Há milhares de pacientes com câncer processando os fabricantes nos Estados Unidos – e vencendo nos tribunais – além de protestos e petições pedindo a sua proibição na Europa. Não há consenso, entre as agências reguladoras, sobre sua classificação. No Brasil, que oficialmente colocou a substância em revisão desde 2008, o Ministério da Agricultura liberou novos registros para a venda de glifosato no início deste ano. O pesticida passou a ser vendido em novas formas, quantidades e por número maior de fabricantes.

Nos testes com a água do país, a controversa substância foi a que mais ultrapassou a margem de segurança segundo o critério da União Europeia: 23% dos casos acima do limite. Pela lei brasileira, o glifosato foi um dos que menos soou o alarme: apenas 0,02% dos testes ultrapassaram o nosso limite.
Isso é um escândalo de saúde pública. Nós colocamos o limite alto, lá na estratosfera, e aí comemoramos que temos uma água segura”, questiona a pesquisadora Larissa Bombardi, professora de geografia na Universidade de São Paulo e autora de um atlas que compara a lei brasileira e europeia no controle dos agrotóxicos. Seu estudo revela como nossos limites chegam a ser 5 mil vezes mais altos que os europeus. O caso mais grave é o do glifosato: enquanto na Europa é permitido apenas 0,1 miligramas por litro na água, aqui no Brasil a legislação permite até 500 miligramas por litro.

Como o glifosato é o agrotóxico mais vendido no país, e também o que tem o limite mais generoso para presença na água, Bombardi lança suspeitas sobre os critérios usados: “no caso do glifosato é realmente difícil encontrar justificativa científica, parece ser mais uma decisão política e econômica”. O pesticida foi o mais consumido em 2017 no Brasil com 173 mil toneladas vendidas, segundo o Ibama. O volume corresponde a 22% das estimativas de vendas para esse químico em todo o mundo no mesmo ano – o que faz do Brasil um importante mercado para as fabricantes, entre elas as gigantes Syngenta e a Monsanto – comprada pela Bayer no ano passado.
Limites generosos

A larga diferença entre os limites fixados pela União Europeia e pelo Brasil é um dos principais argumentos dos críticos do uso da substância no Brasil. “Essa diferença só pode se dar por dois motivos. Ou porque nossa sociedade é mais forte, somos seres mais resistentes aos agrotóxicos. Ou mais tola, porque estamos sendo ingênuos quanto aos riscos que corremos”, provoca Melgarejo, da Campanha Contra os Agrotóxicos.

A engenheira química Ellen Pritsch, representante da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental no grupo de trabalho que reavalia os limites dos pesticidas na água, discorda. Para ela, os atuais limites são seguros e foram fixados com embasamento científico. “O critério brasileiro é dez vezes menor do que o efeito que geraria problema. Então, mesmo que seja encontrado um percentual acima esse valor, ainda assim seria menor [estaria abaixo do risco]”, afirma.

Antes de aprovar os registros dos agrotóxicos, as empresas fabricantes entregam estudos com testes feitos com animais em laboratórios. O Sindiveg, sindicato da indústria de fabricantes de pesticidas, defende que esses estudos são o suficiente para avaliar os riscos das substâncias. “São estudos de bioconcentração em peixes e micro-organismo, algas e organismos do solo, abelhas, microcrustáceos, peixes e aves”, afirma nota enviada pelo Sindiveg em resposta às perguntas da reportagem.

A principal reivindicação dos grupos que fazem campanha pelo controle dos agrotóxicos é por mais restrição e até pela proibição de alguns dos pesticidas hoje aprovados no país, como a atrazina, o acefato e o paraquate, que são campeões de venda no Brasil, mas proibidos na União Europeia.
Chamada à Câmara para explicar as liberações de novos registros de agrotóxicos, a ministra da Agricultura chamou de “desinformação” os estudos que apontam os riscos dessas substâncias.

Mas o governo aponta na direção oposta. A responsável pela pasta da agricultura, ex-líder da bancada ruralista Tereza Cristina, foi presidente da comissão especial na Câmara que aprovou, em junho passado, o Projeto de Lei que propõe agilizar a aprovação de novos agrotóxicos no país. Apelidado pelos críticos como o “PL do veneno”, já gerou grande polêmica, sendo criticado em uma carta assinada por mais de 20 grupos da comunidade científica.

Sem previsão de conseguir maioria no Congresso para aprovar o PL, a estratégia parece ter mudado. Desde o início do ano, o Ministério da Agricultura publicou novos registros para 152 agrotóxicos, uma velocidade recorde de 1,5 aprovações por dia. Chamada para esclarecer as liberações em audiência na Câmara na última terça-feira (9), a ministra disse que “não existe liberação geral” e que longos processos de aprovação só atrasam o agronegócio brasileiro. Ela chamou de “desinformação” os estudos que apontam os riscos dessas substâncias e, usando o mesmo argumento do sindicato dos produtores de agrotóxicos, declarou que as intoxicações ocorrem devido ao modo como os trabalhadores aplicam as substâncias. Um dia depois da audiência, o governo aprovou a comercialização de mais 31 agrotóxicos no Brasil.


Fonte: ENVOLVERDE

quarta-feira, 3 de abril de 2019


As pedras da Lua e a biocivilização.



Por Dal Marcondes, da Envolverde

Em 1969, quando os astronautas Neil Armstrong e Buzz Aldrin pisaram na Lua, um grande objetivo foi alcançado pela humanidade. “Um pequeno passo para o homem, mas um grande passo para a humanidade”, como ficou imortalizado o feito na fala de Armstrong.  50 anos depois a humanidade tem a frente muitos novos desafios que precisam de união e orgulho em ser uma espécie inteligente.  O texto abaixo foi escrito alguns anos atrás apenas para mostrar que ir à Lua não foi apenas um passeio, mas um desafio civilizatório. Confira!
Na foto, o astronauta Buzz Aldrin, piloto do módulo lunar, caminha sobre a superfície da lua. Foto: Nasa.

Em 1961 o presidente Jonh Kennedy lançou um desafio à sociedade americana, levar um homem à Lua e trazê-lo de volta em segurança. Mais do que isso, o feito deveria ser realizado antes do final da década. Em 1963 Kennedy foi assassinado, mas os Estados Unidos seguiu em frente e se lançou em um dos mais importantes desafios para o processo civilizatório de um dos tempos mais prolixos em realizações, o século 20. Em 20 de julho de 1969 a nave espacial Apollo 11 estabeleceu um novo marco na história humana. Pela primeira vez um ser humano pisa em um território que não pertence ao Planeta Terra. De lá foram trazidos 385 quilos de pedras, nas diversas missões Apollo, que ainda aguardam estudos mais detalhados por parte dos cientistas. “Muito dinheiro dos contribuintes para nada”, disseram conservadores e jornais da época.

Kennedy, ao lançar o desafio certamente não estava pensando no valor científico ou econômico do que seria encontrado na Lua. Estava, na verdade, estabelecendo metas para um grande salto tecnológico, que tirou o mundo de um cenário restrito do pós-guerra, para lançá-lo em um real processo de transformação científica, tecnológica e de globalização. Da decisão tomada em 1961 surgiu toda uma nova perspectiva planetária a partir do desenvolvimento de computadores menores e mais eficientes, tecnologias de comunicação, satélites, microships, universalização do acesso à internet e às telecomunicações em geral.

A sociedade e a economia que emergiram desta decisão é mais rápida, trabalha com mais informação e saber e é educacionalmente mais qualificada  do que tudo o que havia existido antes. Claro que não conseguiu resolver todos os problemas e mazelas da humanidade, teve uma parte expressiva de suas tecnologias destinadas a usos militares e criou novos problemas. No entanto, é inegável que mudou o mundo.

Seria possível continuar a linha de tempo sem os avanços da micro-computação e sem os saltos da tecnologia da informação? Certamente que sim. No entanto o novo padrão científico e tecnológico se espalhou de forma capilar e estrutural pelo mundo, o que criou novos cenários e novas oportunidades de geração de conhecimento, empregos, renda e riqueza não mais limitados a porções geográficas do “mundo ocidental”.

Nesta primeira década do século XXI surge um novo desafio, enfrentar as mudanças climáticas de forma criativa e com grande capacidade de transformação para a humanidade como um todo. Da mesma forma que a conquista da Lua foi um fator decisivo para a transformação civilizatória do final dos anos 90, a busca de conhecimento, ciência e tecnologias para o desenvolvimento de uma economia limpa, eticamente comprometida e includente sob o ponto de vista de acesso a bens e serviços é o fator que vai alavancar o crescimento da oferta de riquezas nos próximos anos, bem como sua distribuição de forma mais justa.

Manter os mesmo parâmetros de desenvolvimento, sem mudar os usos e costumes da economia não vai levar a humanidade muito além de onde chegou. A estabilidade do business as usual não oferece os desafios necessários para que empresas, governos e pessoas se superem em busca de horizontes mais amplos para cada um destes atores.

A biocivilização preconizada pelo economista Ignacy Sachs, uma mente brilhante a serviço de construir e propor hipóteses de desenvolvimento realmente inovadoras, é, sem dúvida, a transformação necessária para a criação de desafios capazes de mobilizar as forças extraordinárias do mercado e da sociedade em direção a um modelo econômico não planetariamente antropofágico.

Sachs acredita que a produção e usos de biomassas podem alavancar uma modelagem econômica com novas empresas e novas tecnologias, com mais distribuição de renda pelo trabalho e com uma imensa capacidade de regeneração de biomas e ecossistemas. Ele vê biomassa como matéria-prima para quase todos os usos que a humanidade possa precisar. São matérias-primas florestais para energia e indústria, biotecnologia de base para o desenvolvimento de produtos, bioenergia a partir de celulose, o que transforma qualquer resíduo vegetal em combustível e assim por diante. Além disso, uma organização social diferente, com estruturas de mobilidade coletiva e alto valor para educação e cultura completam o quadro de um desenvolvimento limpo.

A existência de combustíveis fósseis fartos, muito mais do que se poderia imaginar na metade do século XX, tem sido um argumento forte para que os investimentos em uma biocivilização não ganhem escala. No entanto, esta é uma argumentação que peca em uma das bases estruturais do pensamento sustentável. A ex-ministra norueguesa Gro Brundtland, ainda nos anos 80 do século passado, quando desenvolveu a pedido das Nações Unidas o relatório “Nosso Futuro Comum”, onde descreveu pela primeira vez o conceito mais aceito de sustentabilidade, estabeleceu, também, o conceito de solidariedade entre gerações: “Ser sustentável é trabalhar para prover as necessidades da atual geração de humanos sem comprometer a capacidade das futuras gerações em prover suas próprias necessidades”.

Dentro deste raciocínio, é muito importante que a atual geração olhe para uma matéria-prima da importância do petróleo com mais responsabilidade. De todos os usos que se pode dar a este recurso, o pior e menos nobre é queimar em motores de automóveis. Existe toda uma indústria petroquímica e de química fina e farmacêutica criando produtos a partir do petróleo. São produtos que poderão não estar disponíveis no futuro apenas porque setores da economia do século XXI não se esforçam  para buscar transformações estruturais em seu modo de ser e de agir. E, entre estes setores não estão apenas empresas, mas também governos que não veem com bons olhos pedir que seus eleitores mudem a forma como vivem. Mesmo que isto signifique grandes transtornos no futuro.

A busca da ciência e da tecnologia necessária para a transição para uma economia de baixo carbono pode ser a alavanca necessária para melhorar a performance do sistema educacional, pode representar um novo complexo industrial capaz de absorver milhões de trabalhadores em áreas pobres do planeta e, certamente, não significa o desmantelamento do atual parque industrial mantido pela dobradinha montadoras de veículos/petroleiras. É apenas uma nova maneira de olhar para velhos problemas e buscar o uso mais racional e eficiente de recursos naturais.

A biocivilização tem o potencial de levar parte de seus processo e de sua geração de renda para os rincões de miséria do mundo. Será preciso trabalhar em todas as potenciais áreas agrícolas e com tecnologias menos agressivas em termos de uso do solo. O mundo precisará de mais especialistas em ciências da vida, em conhecimentos tradicionais e em gestão de processos e pessoas. Principalmente, uma economia limpa deverá ter a capacidade de inovar em situações onde o conhecimento tradicional está cristalizado.

Recentemente a Alemanha anunciou o retorno de uma das mais antigas tecnologias do mundo para mover navios, as velas. Um cargueiro de 30 mil toneladas usa uma vela de última geração para reduzir em 20% seus gastos de combustível em alto mar. A vela é controlada por um piloto automático e demonstrou excelente eficácia. Não é um retrocesso, mas um avanço significativo e com alto potencial de redução de custos para os transportadores.

A busca pela reputação de sustentabilidade está fazendo com que grandes empresas globais atuem para entender melhor suas cadeias de valor, de forma a visualizar oportunidades que unam conceitos de responsabilidade socioambiental e redução de custos. Isto tem dado certo. Mas, o mais importante deste movimento, é que as empresas que enveredam pela busca honesta pela sustentabilidade não podem voltar atrás e dizer: “agora não quero mais brincar de ser sustentável, cansei”. O recuo seria muito mau visto pelos clientes e por todos os públicos desta empresa.

A transição para uma economia limpa se dará nos próximos anos. Será pela necessidade objetiva de mudanças nos padrões de produção e consumo, pelos problemas impostos pelo atual modelo, ou pela vontade de mudar. Se a sociedade conseguir gerar um pacto de transição, envolvendo empresas, governos, ongs e pessoas, as mudanças podem ser mais eficazes sob o ponto de vista de organização social, e talvez custem menos em recursos materiais, ambientais e sociais.

A busca por uma economia limpa será a “Conquista da Lua” do século XXI. Será o uso de todos os conhecimentos acumulados pela humanidade e de todos os recursos e riquezas à disposição do mundo apontando em direção ao futuro. Tudo o que sabemos e podemos deverá ser direcionado a fazer do futuro um bom lugar para se viver.
  • Dal Marcondes é jornalista especializado em jornalismo econômico, diretor e editor responsável da Envolverde – e presidente do Instituto Envolverde.

Fonte: ENVOLVERDE

Avanço da agropecuária, estradas ilegais e floresta no chão. Assim começa o ano no Xingu.

Por ISA

Destruição da vegetação nativa na bacia do Xingu nos dois primeiros meses de 2019 superou em 54% o desmatamento no mesmo período em 2018. Em média, 170 mil árvores foram derrubadas por dia.

Nos dois primeiros meses do ano, mais de 8.500 hectares de floresta, o equivalente a 10 milhões de árvores, foram derrubados na bacia do Xingu. O avanço da agropecuária, grilagem e abertura de estradas ilegais explicam esses índices, que superaram em 54% o total desmatado no mesmo período em 2018, quando foram detectados pouco mais de 5 mil hectares.

No porção mato grossense da bacia, essa porcentagem atingiu 204%, impulsionada por três municípios: Santa Carmem, com 1.119 hectares e Feliz Natal, com 755 hectares. Em União do Sul, os 1.139 hectares de floresta destruídos nos dois primeiros meses de 2019 representam 30% do total desmatado em 2018.
Avanço do desmatamento no Xingu.

Devido às fortes chuvas em dezembro, houve uma redução no desmatamento em Terras Indígenas (TIs) em comparação com os últimos meses de 2018. O aumento dos índices em relação ao ano anterior, no entanto, é significativo: em janeiro, a destruição da floresta cresceu 221% em relação ao mesmo mês do ano anterior. Já em fevereiro, a taxa atingiu 361% a mais do que o detectado em 2018.

Estrada ilegal ameaça isolados

A TI Ituna/Itatá, no Pará, foi a mais desmatada nos dois primeiros meses do ano, com 453 hectares. Nesse período foi detectada uma estrada no interior da TI, que se espalhou criando ramificações e segue em direção à vizinha TI Koatinemo, do povo Assurini. O ramal, localizado no meio da floresta, provavelmente está sendo utilizado por grileiros e madeireiros. A abertura de uma estrada para retirada ilegal de madeira na região é sem precedentes.

O território é uma área com restrição de uso, que impede a circulação de não-indígenas e destina seu uso exclusivo aos grupos isolados que ali vivem. Em 9 de janeiro, uma Portaria renovou a restrição de uso da área por mais três anos. Apesar disso, foi constatada a inscrição de CAR em dezenas de propriedades dentro da área interditada, que muitas vezes se sobrepõe. Algumas áreas dentro da TI chegam a ter cinco registros, o que indicaria que o território está sendo disputado por vários grupos de grileiros.

A TI localiza-se a menos de 70 quilômetros do sítio Pimental, principal canteiro de obras da hidrelétrica de Belo Monte, e a destruição da floresta vem aumentando exponencialmente desde 2011, início da construção da usina. A implantação de um plano de proteção à Tis é uma condicionante de Belo Monte, mas nunca foi integralmente cumprida. [Saiba mais]
Desmatamento na Terra Indígena Ituna/Itatá, no Pará, ameaça indígenas isolados| Juan Doblas – ISA;

Na rota da Ferrogrão

A expectativa da construção da Estrada de Ferro 170, conhecida como Ferrogrão, vêm aquecendo o mercado de terras na região oeste do Mato Grosso. No ano passado, 17.685 hectares foram desmatados nos municípios de Cláudia, Feliz Natal, Marcelândia, União do Sul e Santa Carmem, todos na área de influência do projeto. Em União do Sul, município campeão de desmatamento em fevereiro, foram produzidos mais de 196 mil toneladas de soja em uma área de 59 mil hectares, segundo dados do IBGE/2017.

Se sair do papel, a obra vai conectar a região produtora de grãos do Mato Grosso aos portos de exportação no Pará, consolidando um novo corredor logístico de exportação do Brasil pela Amazônia. A construção da ferrovia deve potencializar os impactos socioambientais das áreas protegidas nas proximidades do seu trajeto, além de acirrar os conflitos fundiários da BR-163, rodovia paralela à Ferrogrão.

As áreas foram detectadas pelo Sirad X, o sistema de monitoramento de desmatamento da Rede Xingu +. Por meio da tecnologia de radar, é possível detectar o desmatamento através das nuvens que cobrem a região entre setembro e maio. Os boletins são publicados na Plataforma Rede Xingu +

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Fonte: ISA

Estudo da Agência Nacional de Águas (ANA) prevê crescimento de 24% do consumo de água até 2030.

O consumo e o uso das águas no país devem crescer 24% até 2030, diz diz um estudo lançado na segunda-feira (1º) pela Agência Nacional de Águas (ANA).

De acordo com a agência, responsável pela gestão dos recursos hídricos no Brasil, o país usa, em média, a cada segundo, 2 milhões e 83 mil litros de água. Em 2030, esse total deve superar a marca de 2,5 milhões de litros por segundo.

ABr
O Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil traça um panorama das demandas pelos recursos hídricos em todos os municípios brasileiros entre 1931 e 2030. Ele se baseia no chamado consumo consuntivo quando a água retirada é consumida, parcial ou totalmente, no processo a que se destina.

Segundo o estudo da ANA, os principais usos consuntivos da água no Brasil são o abastecimento humano (urbano e rural), o abastecimento animal, a indústria de transformação, a mineração, a termoeletricidade, a irrigação e a evaporação líquida de reservatórios artificiais.

Somente a agricultura irrigada é responsável por 52% de toda a água retirada no país. Em seguida, vêm o uso para abastecimento urbano, com 23,8%, a indústria, com 9,1%, e o uso animal, em especial para dessedentação, com 8%.

De acordo com o levantamento, o volume de uso consuntivo conjunto de água na agricultura irrigada, no abastecimento urbano e na indústria de transformação responde por 85% das retiradas de água em corpos hídricos, totalizando 2,083 milhões de litros por segundo.

O uso de águas para a agricultura irrigada prevalece nas regiões Sul, Centro-Oeste e Nordeste. Na Região Norte, prevalecem atualmente as retiradas de água para termelétricas e abastecimento humano urbano. No Sudeste, predominam o abastecimento urbano e a maior demanda de uso na indústria de transformação.

A agricultura irrigada também é destaque entre os municípios que mais consomem água no país, sendo responsável por oito das dez maiores vazões de retirada de água, ficando atrás apenas de São Paulo e do Rio de Janeiro, primeiro e segundo lugares, respectivamente, onde o principal uso é para abastecimento urbano.

Juntos, os dois municípios têm cerca de 19 milhões de habitantes e retiram pouco mais de 101 milhões de litros por segundo para abastecimento. Já municípios como Uruguaiana, Santa Vitória do Palmar, Alegrete, Itaqui, São Borja e Mostardas, no Rio Grande do Sul; Juazeiro, na Bahia; e Petrolina, em Pernambuco, em sua maioria com menos de 100 mil habitantes, usam cerca de 160 milhões de litros por segundo.

Outro ponto de destaque analisado pela agência reguladora foi a evaporação líquida em reservatórios artificiais, o que inclui hidrelétricas e açudes. De acordo com o estudo, em 2017, houve evaporação líquida de 669,1 mil litros por segundo. “Este volume é aproximadamente 35% maior que o retirado para abastecimento urbano (496,2 mil litros por segundo) e 6,8 vezes maior que o consumido por este uso (99,2 mil l/s). A evaporação líquida só é superada pelo retirada e pelo consumo de água pela irrigação (respectivamente 1083,6 e 792,1 mil l/s)”, diz a ANA.

O levantamento da ANA destaca ainda o papel crescente das usinas termelétricas na demanda por água. Segundo o estudo, mesmo sendo uma atividade de intensificação mais recente, a retirada de água por termelétricas, é superior à soma de todas as retiradas para mineração e abastecimento humano no meio rural. Enquanto as termelétricas responderam por 3,8% das retiradas de água, o abastecimento rural respondeu por 1,7%, enquanto a mineração ficou com 1,6% das retiradas.

Os estados que respondem pela maior variação das retiradas são: Rio de Janeiro, com 21% da demanda total, Santa Catarina, com 13%, São Paulo, com 11%, Pará, com 9%, Maranhão, com 9%, e Pernambuco, com(8%. Juntos, esses estados concentram 72% da demanda total que foi de 79,5 m³/s em 2017.

Segundo a agência reguladora, a identificação e a quantificação dos usos atuais e potenciais das águas representa uma oportunidade de aprimorar o processo participativo na gestão da água, em torno de questões como a oferta e a demanda. A ANA diz ainda que os dados são um insumo à garantia da “segurança hídrica da população e do setor produtivo”.

“Na esfera setorial, essa base fornece aos setores produtivos um novo panorama e uma visão de futuro dos usos da água e do balanço hídrico nas bacias hidrográficas do território nacional, balizando as análises de risco e de sustentabilidade hídrica dos empreendimentos. O planejamento do Estado brasileiro junto aos setores contará com essas informações de referência, orientando importantes instrumentos como os Planos Nacional e Estaduais de Irrigação e as revisões do Plano Nacional de Energia”, diz o estudo.

Por Luciano Nascimento, da Agência Brasil



Aumentam os casos de sífilis em grávidas; Se não for tratada a doença pode ser fatal para o bebê.

A sífilis é uma Doença Sexualmente Transmissível (DST) que atinge mais de 12 milhões de pessoas segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por Bianca Smolarek e Maria Emilia Silveira
Foto: EBC

Nos últimos dois anos foi declarada como um grave problema de saúde pública no Brasil e o último Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde mostra que os casos de sífilis continuam aumentando. Chama atenção o crescimento dos casos em grávidas, o que é preocupante uma vez que a doença pode ser transmitida ao feto pelo contato com o sangue contaminado.

De acordo com o Boletim, de 2017 para 2018 o número total de casos de gestantes com sífilis aumentou em 28,4%, ocasionando milhares de mortes fetais ou neonatais. Para o médico Daniel Pereira Mandarino, ginecologista e obstetra do Plunes Centro Médico, de Curitiba, o aumento dos casos é alarmante. “Os casos de sífilis em gestante apresentaram um crescimento real. A doença precisa ser tratada de maneira adequada ainda durante a gestação já que a transmissão acontece antes mesmo do parto”, explica.

A chance de transmissão da sífilis para o bebê pode chegar a quase 100% dependendo da fase da doença e período da gestação. Sem o controle adequado, ela pode causar diversos problemas como abortamento espontâneo, óbito fetal ou neonatal e sífilis congênita – capaz de que gerar alterações nos ossos, fígado, baço, pele, pulmões, rins, entre outros órgãos. “Se os protocolos de tratamento são seguidos de maneira adequada esse risco pode ser bem minimizado”, detalha o especialista.

A prevenção da sífilis durante o período gestacional é prevista no Plano Plurianual (PPA) do governo federal como uma prioridade e o exame VDRL (Venereal Disease Research Laboratory), responsável por detectar a doença, está disponível no Sistema Único de Saúde (SUS). O VDRL é um exame rápido e em cerca de 30 minutos o paciente recebe o resultado. Pode ser realizado antes de engravidar e também a cada trimestre da gestação.

“O tratamento para gestantes é o mesmo seguido pelos outros pacientes, com doses de Penicilina Benzatina dependendo da fase da doença”, conta Mandarino. A Penicilina Benzatina é o único medicamento capaz de prevenir a transmissão vertical, ou seja, de passar a doença para o bebê. Vale lembrar que, como toda DST, a sífilis pode ser evitada com o uso de preservativos, tanto femininos quanto masculinos.

Fonte: EcoDebate

A sobrepesca e a falta de gestão pesqueira são os principais problemas da atividade pesqueira no país.

Essa é a conclusão do Guia de Consumo Responsável de Pescado, lançado ontem (2), pela seção brasileira do Fundo Mundial para a Natureza (WWF-Brasil). O estudo inédito foi produzido pela entidade em parceria com mais de 20 pesquisadores de todo o mundo.
Guia de Consumo Consciente de Pescado Brasil
A sobrepesca ocorre quando os estoques pesqueiros são explorados além da sua capacidade natural de reprodução. Muitos pescadores não respeitam a época de defeso ou reprodução de algumas espécies. Nesse período, as atividades de caça, coleta e pesca esportivas e comerciais ficam vetadas ou controladas.

Segundo a gerente do Programa Marinho da WWF, Anna Carolina Lobo, após a extinção do Ministério da Pesca, no governo passado, muitas políticas públicas voltadas para a gestão pesqueira e a aquicultura ficaram descentralizadas, incluindo o próprio pagamento do seguro defeso, feito aos pescadores de pequena escala para que possam manter sua condição de vida enquanto as espécies se reproduzem. A isso tudo se soma a falta de monitoramento e fiscalização, segundo ela.

São duas as formas de produção de pescados. Uma é a pesca comum, que se baseia na retirada de recursos pesqueiros do ambiente natural. A outra é a aquicultura, baseada no cultivo de organismos aquáticos geralmente em um espaço confinado e controlado.

Estudos da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) apontam que até 2030, quase 60% da proteína de peixe consumidas pela sociedade virão da aquicultura, em todo o mundo e no Brasil não será diferente. As espécies que apresentam maior valor comercial, como o atum, por exemplo, já têm grande impacto populacional. Acima de 80% dos estoques estão reduzidos, o que é um impacto muito grande.

Monitoramento

Os últimos dados de monitoramento da pesca no Brasil são de 2011 e utilizaram números coletados em 2008. “Na prática, são 11 anos de um país que não monitora a quantidade de desembarque, o tamanho dos estoques, o que está sendo pescado. Corre o risco de a gente estar chegando próximo a um cenário de colapso das principais espécies sem saber, sem a sociedade ter noção do tamanho do problema”, lamentou Anna Carolina.

Certificação

Outros problemas levantados pelo guia da WWF-Brasil é a falta de certificação do pescado e da regulamentação setor pesqueiro no Brasil. Com a criação de políticas públicas adequadas, vários países que estavam com seus estoques de peixe quase em extinção, como o bacalhau da Noruega, com a mudança de política pública, os estoques voltaram. Agora, os países estão suprindo a demanda interna e exportando para outros destinos, como o Brasil.

“É possível a gente chegar em uma equação em que as pessoas que dependem dessa atividade para o seu sustento de vida vão continuar com seu ganha pão. É possível virar o jogo”, apostou a especialista em gestão ambiental da WWF-Brasil.

Gestão pesqueira

Procurada pela Agência Brasil, a Secretaria de Aquicultura e Pesca (SAP) do Ministério da Agricultura informou que a gestão pesqueira no Brasil é feita de maneira compartilhada entre as diversas esferas do governo, sociedade civil e organizações não governamentais. A secretaria está elaborando um novo decreto para fortificar esse sistema.

Nove Comitês Permanentes de Gestão (CPGs) fazem o assessoramento para a definição de normas, critérios e padrões relativos ao ordenamento do uso sustentável dos recursos pesqueiros, nas respectivas unidades de gestão. Todos os CPGs têm um subcomitê científico que presta assessoramento técnico e científico a esses grupos de trabalho.

A SAP revelou ainda que 50% das receitas das taxas arrecadadas pelo órgão são destinadas ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para o custeio das atividades de fiscalização da pesca e da aquicultura. Em relação aos investimentos públicos na gestão da pesca no Brasil, a secretaria informou que o governo federal financia vários projetos com esse objetivo.



Relatório do Imazon aponta que 60% das áreas madeireiras exploradas no Pará são ilegais.

Estudo indica que a maior parte da exploração madeireira no Pará não possui autorização.

Por Stefânia Costa

O Imazon divulgou o novo relatório do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) no Pará que apresenta os dados do período de agosto de 2016 a julho de 2017. Os resultados apontaram que um total de 54.424 hectares (cerca de 54 mil campos de futebol) de florestas foram explorados pela atividade madeireira no período estudado, uma redução de 48% em relação ao período anterior (agosto de 2015 a julho de 2016). Entretanto a maioria (60% ou 32.548 hectares) não possuía autorização do órgão competente, enquanto 40% (21.876 hectares) foi executada com a devida autorização.

A análise mostrou ainda que entre as áreas que possuem autorização para serem exploradas, 30% apresentaram inconsistências como a área autorizada maior que a área do manejo, superestimativa de espécies de alto valor comercial, área autorizada em Área de Proteção Permanente (APP), área degradada por queimada e áreas sem sinais de exploração, porém com movimentação de créditos madeireiros.

Dalton Cardoso, pesquisador do Imazon, explica que o Simex é importante para colaborar no processo de monitoramento da atividade madeireira, uma das principais atividades econômicas da região amazônica. “Além de produzir informações espaciais de áreas atingidas pela atividade, o Simex avalia a execução dos projetos de manejo em operação. Com isso, contribui no combate à ilegalidade e na promoção do bom manejo.”

Da área total explorada sem autorização, a grande maioria (85%) ocorreu em áreas privadas, devolutas ou sob disputa; outros 9% em Assentamentos de Reforma Agrária; e apenas 6% em Áreas Protegidas (Terras Indígenas e Unidades de Conservação). Além disso, 77% (ou 25.141 hectares) do total explorado sem autorização ocorreu dentro de áreas inscritas no sistema do Cadastro Ambiental Rural (CAR).

Soluções – O relatório do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) traz ainda algumas medidas apontadas como necessárias para combater a exploração ilegal. Uma delas é aperfeiçoar o processo de licenciamento e monitoramento dos Planos de Manejo Florestal Sustentável sugerindo a avaliação e o monitoramento desses planos por meio do cruzamento de imagens de satélites com informações oficiais. Facilitar acesso a dados sobre os planos de manejo também é outra medida apresentada no relatório pois, dessa forma, seria possível melhorar o controle da madeira no estado e agilizaria a identificação de autorizações com indícios de irregularidade, permitindo ações de intervenção mais eficientes pelos órgãos competentes.

São apresentadas ainda outras duas medidas: intensificar fiscalizações em Áreas Protegidas e avaliar listas de espécies florestais dos projetos. As informações sobre explorações de madeira em Áreas Protegidas, divulgadas no próprio relatório, podem ser usadas pelos órgãos competentes para aperfeiçoar o processo de gestão e controle dessas áreas, inibindo a expansão da atividade madeireira ilegal. A avaliação de lista de espécies florestais possibilitaria a identificação de inconsistências no volume de espécies, evitando-se a liberação de créditos madeireiros fictícios no mercado.

Alternativas – A exploração madeireira, se conduzida seguindo práticas de manejo florestal sustentável, pode contribuir para a economia local e manutenção das florestas. Contudo, a maior parte dessa atividade é conduzida às margens da legalidade, em virtude de sua alta rentabilidade e da dificuldade de controle e monitoramento da atividade pelo Estado.

Imazon – O Imazon, Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia, responsável pelo relatório do Sistema de Monitoramento da Exploração Madeireira (Simex) é uma instituição não governamental com quase 30 anos de existência e uma das organizações mais inovadoras e respeitadas na área de pesquisa. O Imazon produz o relatório do Simex desde 2009.
Leia o relatório completo aqui.
Relatório do Imazon aponta que 60% das áreas madeireiras exploradas no Pará são ilegais
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Fonte: Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia – Imazon


Fonte: EcoDebate