terça-feira, 23 de outubro de 2018


Brasil ganha sistema de trilhas de longo curso.

Quatro grandes corredores vão conectar paisagens naturais no país. Meta é chegar a 18 mil km e movimentar 2 milhões de pessoas por ano.

Os ministros do Turismo, Vinicius Lummertz, e do Meio Ambiente, Edson Duarte, juntamente com o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBIO), Paulo Henrique Carneiro, assinam nesta sexta-feira (19) em São Paulo a portaria que institui a Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso e Conectividade. O ato marca a abertura da 19a Adventure Sports Fair, considerado o principal evento latino-americano dedicado ao mercado de turismo de aventura e esportes do ar livre.

A “RedeTrilhas” será composta por trilhas que ligam diferentes biomas de Norte a Sul do País, conectando paisagens e ecossistemas brasileiros para promover a organização, estruturação e ampla visibilidade à oferta turística de natureza no Brasil. Elas serão identificadas com um símbolo de uma “pegada” no chão e poderão ser percorridas a pé, de bicicleta ou utilizando outros modos de viagem não motorizados. A medida tem o objetivo de reconhecer e proteger rotas pedestres de interesse natural, histórico e cultural, além de sensibilizar a sociedade para a importância do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (Snuc).

O sistema de trilhas prevê quatro grandes corredores naturais sinalizados com uma pegada amarela sobre uma base preta, indicando o sentido a ser percorrido. Pelo menos, 1,9 mil quilômetro já está pronto. A meta é estruturar 18 mil quilômetros em 20 anos, com estimativa de movimentar 2 milhões de pessoas por ano.

“O ecoturismo representa uma das maiores oportunidades que temos de nos posicionar no cenário internacional para atrair turistas e divisas para o país. Diversos países, como os Estados Unidos, servem de exemplo de como usar de forma sustentável os atrativos naturais para movimentar a economia”, comentou o ministro do Turismo, Vinicius Lummertz. De acordo com o estudo de competitividade do turismo do Fórum Econômico Mundial, o Brasil é o número um do mundo em atrativos naturais.

CIRCUITOS

Os circuitos são o Litorâneo, do Oiapoque (AP) ao Chuí (RS); o Caminhos Coloniais, do Rio de Janeiro até Goiás Velho (GO); o Caminhos dos Goyases, entre Goiás Velho e a Chapada dos Veadeiros (GO); e o Caminhos do Peabiru, ligando o Parque Nacional do Iguaçu (PR) ao litoral paranaense.

Entre as trilhas já sinalizadas, estão o Caminho da Serra do Mar (RJ), a Transcarioca (RJ), a Transespinhaço (MG), a Rota Darwin (RJ-PE) e o Caminho das Araucárias (RS/SC), que integram o corredor Litorâneo; o Caminho de Cora Coralina (GO) e o Caminho da Floresta Nacional de Brasília, que fazem parte do Caminhos dos Goyases; a Trilha Chico Mendes (AC); e a Transmantiqueira (RJ, MG e SP), que estão sendo percorridas pelos primeiros grupos de aventureiros e exploradores.

EXPERIÊNCIA

O sistema brasileiro de trilhas de longo curso foi inspirado nas experiências internacionais, em especial no sistema europeu. É formado por grandes trilhas nacionais compostas por trilhas regionais menores, uma acabando onde começa a outra. Assim, cada uma pode ser percorrida em espaços de tempo variados, encaixando-se em diferentes períodos de férias – uma semana, duas semanas ou até um mês. “Isso permite ao ecoturista voltar para casa com a sensação de ter atingido o objetivo de completar a totalidade de uma trilha”, ressalta Menezes.

O coordenador cita, como exemplos, a Trilha Transmantiqueira (MG, RJ e SP) e o Caminho das Araucárias, entre Canela (RS) e o Parque Nacional de São Joaquim (SC), que podem ser feitas em três semanas. Outros exemplos são a Trilha Transcarioca, no Rio de Janeiro, que leva 10 dias de caminhada, e trechos menores, como Caminhos da Serra do Mar ou as voltas da Juatinga e da Ilha Grande, todas no Rio de Janeiro, que levam sete dias de caminhada.

A Rede Nacional de Trilhas de Longo Curso integra o Programa Nacional de Conectividade de Paisagens, do Ministério do Meio Ambiente (MMA). O programa reúne um conjunto de ações que buscam promover a interligação de ecossistemas e a gestão das paisagens no território brasileiro, estimulando a conservação da natureza e o desenvolvimento social, econômica e cultural do país.

ECOTURISMO

Para mais de 622 mil estrangeiros que visitaram o Brasil no ano passado, o turismo de natureza, ecoturismo ou aventura foi o principal motivo de viagem. Além disso, em três dos quatro países para os quais já foi adotado o visto eletrônico, o segmento foi o principal motivo da viagem para destinos brasileiros no ano passado: Japão (72,8%), Austrália (60,6%) e Canadá (42,8%).

A performance do país nesse mercado é incompatível com a diversidade e qualidade da oferta, segundo Lummertz. “Enquanto os EUA recebem 307 milhões de visitantes e faturam US$ 17 bilhões com os parques ao ano, o Brasil recebe e fatura cerca de 3% disso, com uma área 10 vezes maior. Isso não faz sentido, precisamos agir e virar essa página”, disse o ministro do Turismo.

Juntos, os setores de hospedagem e alimentação representam mais de 50% dos R$ 2 bilhões de faturamento anual gerado para os municípios de acesso aos parques no Brasil. O dado revela a importância econômica do turismo para destinos que são portões de entrada dessas áreas protegidas.

ADVENTURE SPORTS FAIR – O estande do MTur na feira, com cerca de 180 m2, contará com exposição de experiências e atividades em cenários naturais de 13 parques nacionais brasileiros. Também haverá atendimento ao público do evento, que é voltado especialmente ao consumidor final.

Serão três dias de programação no centro de convenções São Paulo Expo, que deve receber cerca de 30 mil visitantes até domingo (21). O espaço vai reunir destinos, marcas, produtos e serviços do segmento, setor público, profissionais, academia, entidades ambientais, trade turístico e público final interessados em atividades como o 14º Fórum Interamericano de Turismo Sustentável (FITS) e a compra de produtos e serviços de ecoturismo e aventura em parques nacionais. No ano passado, 26,7 mil visitantes geraram R$ 15 milhões em negócios durante a 18a edição.

De acordo com a organização do evento, em 2017 cerca de 47% dos frequentadores da feira declararam-se praticantes regulares do turismo de aventura e 80% afirmaram que viajam pelo menos duas vezes ao ano com esse propósito.

No evento, turistas e demais interessados em atividades do segmento poderão conhecer roteiros de viagem nacionais e internacionais de ecoturismo; testar lançamentos de equipamentos, vestuário, calçados e acessórios para os esportes de aventura, além de vivenciar modalidades como o snowboard, esqui, mergulho, arvorismo, escalada, caiaque, stand-up paddle e fazer test drives com veículos off road. A Adventure Sports Fair funciona das 12h às 20h nesta sexta e das 10h às 20h no sábado e domingo.


Fonte: ENVOLVERDE

Nota do MMA sobre ataques contra Ibama e ICMBio.


Ministro do Meio Ambiente, Edson Duarte, manifesta apreensão em relação aos casos registrados durante operações de combate ao desmatamento na Amazônia. Carros do Ibama foram incendiados e servidores do ICMBio sofreram ameaças.

O Ministério do Meio Ambiente manifesta forte apreensão diante dos recentes ataques perpetrados contra agentes de fiscalização do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), durante operações de combate ao desmatamento na Amazônia neste final de semana.

Ataques como esses representam um atentado contra a nação, contra as instituições públicas e contra servidores que doam as suas vidas e se dedicam a preservar o meio ambiente e a respeitar a legislação brasileira.

As pessoas que agem na legalidade não têm porque temer a ação da fiscalização. Por isso, o MMA credita esses atentados àqueles que querem se perpetuar na ilegalidade, afrontando os órgãos ambientais.

Continuaremos trabalhando duro para combater todo e qualquer ato ilícito, para fazer valer a legislação ambiental e para defender aquilo que é de interesse do povo brasileiro, que é o nosso rico patrimônio natural.

Por fim, informamos que já entramos em contato com o Ministério da Segurança Pública da Presidência da República, para relatar os fatos, expressar nossa preocupação com o recrudescimento dessas ameaças e solicitar providências urgentes para identificação e punição dos autores.

Edson Duarte
Ministro do Meio Ambiente


Fonte: ENVOLVERDE

O equilíbrio climático deve ser uma bandeira apartidária.


Por André Ferretti e Carlos Rittl – 

Estamos a alguns dias do segundo turno das eleições que decidirão quem será o futuro presidente do nosso País. Entre as dezenas de propostas apresentadas em diversas áreas de extrema importância para os brasileiros, algumas estão com o alerta vermelho ligado. O presidente eleito, independentemente da sua bandeira partidária, não poderá tratar com descaso a mudança climática que o nosso planeta vive. Ao nosso ver, este é o maior desafio da humanidade neste século.

Contrariando o que muitos pensam, isso não é apenas de uma preocupação ambiental. Trabalhar pelo equilíbrio climático – seja em hábitos individuais, atitudes organizacionais ou políticas públicas – é determinante para questões como qualidade de vida, segurança alimentar, desenvolvimento econômico, investimentos, infraestrutura, defesa civil e muitas outras.

Precisamos correr contra o tempo. O clima está mudando e desafia o Brasil e todas as nações a se adaptarem. Contudo, o tema vem sendo praticamente ignorado na corrida presidencial e medidas extremas aventadas ao longo da campanha – como a possibilidade de sairmos do Acordo de Paris e a desestruturação de órgãos e mecanismos ambientais de extrema relevância para a conservação de nosso patrimônio natural – podem colocar abaixo conquistas ambientais históricas.

O Acordo de Paris é um instrumento de governança global extremamente importante para o desenvolvimento econômico, social e ambiental que define medidas de redução da emissão de gases de efeito estufa a partir de 2020 e estabelece mecanismos para que todos os países limitem o aumento da temperatura global e fortaleçam a defesa contra os impactos inevitáveis da mudança climática. 

Abandonar o tratado seria ignorar todos esses benefícios e seguir os passos de Donald Trump, que fez com que os Estados Unidos sejam o único país do mundo a querer sair do acordo.

Caso essas medidas se confirmem a partir de 2019, esta será uma das maiores, se não a maior ameaça já vista ao patrimônio natural brasileiro desde a redemocratização. Tal fato seria desastroso para a sociedade e para a economia.

O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) indica, por exemplo, que limitar o aquecimento global a 1,5°C reduziria impactos sobre ecossistemas, saúde humana e bem-estar, tornando mais viável o alcance dos objetivos de desenvolvimento sustentável das Nações Unidas. Decisões políticas não podem simplesmente ignorar dados científicos.

O Brasil é o País com a mais rica biodiversidade do mundo, um ativo primordial para a qualidade de vida da nossa população, assim como, entre outras, para a segurança hídrica, atividades agropecuárias e nossa resiliência a eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes. Um ambiente equilibrado é um direito constitucional, um dever do Estado e uma condição básica para a manutenção dos serviços ambientais essenciais para a nossa vida. Sem isso não tem como haver prosperidade e qualidade de vida.

Se quiser evitar um colapso do clima, o que impactaria severamente a nossa civilização, a humanidade tem pouquíssimo tempo para revolucionar a economia, fazendo com que a sociedade troque a economia fóssil e que destrói florestas por uma sustentável e de baixo carbono. 

Independentemente de quem seja eleito nosso novo presidente, precisamos de líderes comprometidos com essa transformação urgente e de imenso impacto, cujas janelas de oportunidade estão se fechando.

* André Ferretti é gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza e coordenador geral do Observatório do Clima.

* Carlos Rittl é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza e secretário-executivo do Observatório do Clima.

Fonte: ENVOLVERDE

segunda-feira, 15 de outubro de 2018


Comunicando a mudança climática na era da negação: uma coleção especial lançada no PLOS Biology.


As pessoas são programadas para responder a histórias, mas as narrativas de negação do clima podem ser tão convincentes quanto as que transmitem os fatos sobre o aquecimento global.

Uma nova coleção, “Confronting Climate Change in the Age of Denial”, publicada em 9 de outubro na revista PLOS Biology, explora os desafios e as armadilhas de usar histórias para comunicar evidências científicas sobre a mudança climática, oferecendo ressalvas e possíveis soluções para contar histórias de mudanças climáticas baseadas em evidências que podem ressoar com o público.

Comunicadores de ciência e educadores lutaram por muito tempo com os desafios de comunicar evidências que contradizem as crenças pessoais, religiosas ou políticas das pessoas, particularmente em relação à evolução, segurança de vacinas e mudança climática.

Um estudo de caso perfeito da tendência das pessoas de criar suas próprias narrativas para explicar o aparentemente inexplicável é a recente resposta viral a uma foto de um urso polar faminto. Os fotógrafos esperavam que o urso faminto pudesse ajudar as pessoas a entender o que o futuro pode significar para os animais que não podem mais depender do gelo marinho para caçar e se abrigar, pois o aquecimento global continua a derreter os lençóis de gelo polar. Mas negadores da mudança climática contra-atacaram circulando fotos de ursos saudáveis para afirmar que o aquecimento global é uma farsa.

A coleção apresenta dois artigos de cientistas sociais que oferecem diferentes perspectivas sobre o alistamento de narrativas para transmitir a ciência das mudanças climáticas e uma de especialistas em mamíferos marinhos que definiram o registro direto dos prováveis impactos da mudança climática na vida selvagem do Ártico.

“Mamíferos marinhos são sentinelas do ecossistema, capazes de refletir a variabilidade oceânica através de mudanças em sua ecologia e condição corporal”, argumentam Sue Moore, oceanógrafa biológica, e Randall Reeves, biólogo de mamíferos marinhos, em “Tracking Arctic Marine Mammal Resilience in the Era of Alteração rápida do ecossistema “.

Eles propõem uma estrutura que adiciona indicadores ecológicos (por exemplo, alcance geográfico e comportamento) e fisiológicos à demografia tradicional para fornecer uma visão mais abrangente da saúde das populações. Os autores esperam que sua estrutura, que pode alimentar pesquisas de oceano globais existentes, ofereça “um caminho para a sustentabilidade por meio de melhores previsões, mais precauções e políticas mais sensatas nesta era de mudança ambiental global”.

Em “Comunicação climática para biólogos: quando uma imagem pode contar mil palavras”, os psicólogos Stephan Lewandowsky e Lorraine Whitmarsh examinam estratégias para usar as anedotas e imagens que satisfazem nossa necessidade de narrativa sem sacrificar a precisão científica.

Os especialistas em comunicação científica Michael Dahlstrom e Dietram Scheufele exploram outra dimensão do perigo e prometem usar histórias para comunicar a ciência em “(escapar do paradoxo da narrativa científica”). Em vez de contar histórias para simplesmente transmitir conhecimento – o que pode não ser bem-sucedido, dizem eles, já que o aumento da alfabetização científica não leva a uma maior aceitação da ciência – pode ser melhor contar histórias sobre como o conhecimento científico é produzido. “No final, usar a narração de histórias para construir principalmente apoio científico através de objetivos de conhecimento, atitude ou comportamento sem também envolver o raciocínio científico pode não ajudar a ciência a longo prazo.”

Ao publicar esta coleção, os editores da PLOS Biology esperam que todos que valorizam evidências científicas imparciais pensem em maneiras de aproveitar a narrativa para ajudar as pessoas a entender essa ameaça complexa, mas muito real, para o nosso planeta. Precisamos recuperar o enredo antes que seja tarde demais.

Textos da Coleção:

Editorial: 
Gross L (2018) Confronting climate change in the age of denial. PLoS Biol 16(10): e3000033. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.3000033

Artigos:

Moore SE, Reeves RR (2018) Tracking arctic marine mammal resilience in an era of rapid ecosystem alteration. PLoS Biol 16(10): e2006708. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.2006708

Lewandowsky S, Whitmarsh L (2018) Climate communication for biologists: When a picture can tell a

thousand words. PLoS Biol 16(10): e2006004. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.2006004

Dahlstrom MF, Scheufele DA (2018) (Escaping) the paradox of scientific storytelling. PLoS Biol16(10): e2006720. https://doi.org/10.1371/journal.pbio.2006720

In your coverage please use this URL to provide access to the collection’s freely available Editorial article in PLOS Biology:


Citation: Gross L (2018) Confronting climate change in the age of denial. PLoS Biol 16(10): e3000033.



Fonte: EcoDebate

O nível total de sequestro de carbono e a conseqüente mitigação do aquecimento global só poderão ser alcançados com uma combinação de espécies.

Universidade de Zurique*

Em 2009, o projeto BEF-China iniciou um experimento de biodiversidade em uma floresta, com a colaboração de instituições da China, Alemanha e Suíça. O amplo projeto investigou quão importante é a diversidade de espécies de árvores para o bom funcionamento dos ecossistemas florestais. Foram plantados grupos de árvores com diferentes números de espécies, desde monoculturas até terrenos altamente diversificados, com 16 tipos diferentes de árvores em uma área de 670 metros quadrados.

Após oito anos, tais terrenos armazenavam uma média de 32 toneladas de carbono por hectare em biomassa acima do solo. Em contrapartida, as monoculturas acumularam menos da metade disso: uma média de apenas 12 toneladas de carbono por hectare. Durante a fotossíntese, as plantas absorvem dióxido de carbono da atmosfera e convertem o carbono em biomassa. Quando uma floresta armazena mais carbono, isso auxilia na redução dos gases de efeito estufa e ao mesmo tempo também indica uma alta produtividade florestal.

Florestas biodiversificadas são mais produtivas

O fato de a biodiversidade aumentar a produtividade já havia sido anteriormente demonstrado através de experimentos em prados na Europa e nos Estados Unidos. Mas como partiram do principio de que todas as espécies de árvores ocupam nichos ecológicos semelhantes, concluíram que a biodiversidade florestal traria um efeito mínimo. Evidentemente, no entanto, esta suposição estava errada. “No experimento de biodiversidade florestal, a biomassa aumentou tão rapidamente quanto nas pradarias. Conseqüentemente, mesmo após apenas quatro anos, se via claras diferenças entre as monoculturas e as florestas ricas em espécies,” explica o Professor Helge Bruelheide da Universidade Martinho Lutero de Halle-Wittenberg, co-diretor do Centro Alemão para Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), o qual supervisionou os experimentos de campo junto com o Instituto de Botânica da Academia Chinesa de Ciências. Tais diferenças continuaram a se intensificar nos quatro anos seguintes.

“Estas descobertas têm grande relevância ecológica e econômica,” afirma o Professor Bernhard Schmid, da Universidade de Zurique, autor sênior na equipe de redação, composta de 60 pessoas, da presente publicação na Science. Um estudo anterior já havia encontrado uma correlação positiva entre a biodiversidade e o armazenamento de carbono. Contudo, ele foi baseado apenas na comparação entre a variação de diversidade de espécies em terrenos naturais. “Portanto, era impossível concluir se a maior biodiversidade era a causa da maior produtividade. Mas agora nós chegamos à mesma conclusão com um experimento sob condições controladas: uma floresta com um grande número de espécies de árvores é mais produtiva que uma monocultura,” acrescenta o Professor Dr. Keping Ma, da Academia Chinesa de Ciências e co-gestor do projeto.

Maior produtividade, melhor proteção climática

Em todo o mundo, há planos para grandes programas de reflorestamento, com o objetivo de proteger o clima através do plantio de novas florestas. Somente na China, entre 2010 e 2015, foram plantadas anualmente 1.5 milhão de hectares de novas florestas, ainda que a maior parte constituída de monoculturas de rápido crescimento. “Nosso novo estudo mostra que as florestas não são todas iguais no quesito proteção climática: as monoculturas não fornecem nem metade dos serviços ambientais desejados. O nível total de sequestro de carbono e a conseqüente mitigação do aquecimento global só poderão ser alcançados com uma combinação de espécies.

Além disso, florestas ricas em espécies também contribuem para proteger a ameaçada biodiversidade do planeta,” explica Bernhard Schmid. “Infelizmente, o conceito errôneo de que produtividade e biodiversidade se excluem mutuamente ainda é muito difundido. Mas o oposto é verdadeiro.” As florestas ricas em espécies também são menos vulneráveis à doenças ou fenômenos meteorológicos extremos, que estão se tornando cada vez mais freqüentes devido à mudança climática.

Se os efeitos observados no experimento forem extrapolados para as florestas existentes no mundo, pode-se concluir que uma redução de 10% das espécies de árvores levaria à perdas de produção mundiais no valor de 20 bilhões de dólares, por ano. Tal resultado mostra que, de acordo com os pesquisadores, o reflorestamento com uma combinação de diferentes espécies é economicamente vantajoso.
Referência:
Yuanyuan Huang et al.: Impacts of species richness on productivity in a large-scale subtropical forest experiment, Science, 5 Oktober 2018. DOI: 10.1126/science.aat6405
http://dx.doi.org/10.1126/science.aat6405


Tradução de Ivy do Carmo, Magma Translation (magmatranslation.com).


Fonte: EcoDebate

Parque dos Falcões: O santuário das aves de Rapina.

As aves de rapina ou rapinantes são o grupo formado por todas as aves carnívoras, que possuem características específicas para a caça, como por exemplo garras afiadas, bico curvo e afiado para rasgar a carne e também uma visão aguçada e um vôo poderoso. Unindo todas essas ferramentas, esse grupo de aves se torna eficiente e muito ágil na hora de capturar sua refeição.

As aves de rapina representam 10% de todas as aves que conhecemos no mundo, sendo que a maioria das espécies pode ser encontrada no Brasil.
Se você é um amante dessas poderosas belezas da natureza, você com certeza precisa conhecer o Parque dos Falcões, localizado há 45km de Aracajú-SE.

A experiência única que o local oferece encanta não somente quem é fascinado por essas aves, mas também pessoas que nunca imaginaram que estar com elas é algo tão incrível assim. No Parque dos Falcões, o  visitante recebe a chance de ter um contato íntimo com as aves e de brinde ainda leva uma super selfie para casa.

O Parque dos Falcões possui  uma área de 3.500 km² de Organização Não Governamental (ONG) mantida por José Percílio e Alexandre Correia. O primeiro a entrar de cabeça nesse sonho foi Percílio, enquanto Alexandre se juntou ao projeto em 1999, dando início a uma parceria que continua até os dias de hoje.
Mas a história por trás do projeto começou bem antes! Quando Percílio tinha ainda apenas 7 anos, ele foi presenteado com um ovo de Carcará (Caracara plancus) e depois de 28 dias sendo chocado por uma galinha, nasceu Tito, seu primeiro grande amigo. Atualmente, Tito tem 27 anos e o Instituto está cuidando de mais de 300 aves, entre gaviões, falcões, corujas, socós-boi, pombos, etc.

O Parque dos Falcões também conta com a autorização e apoio do IBAMA, para a criação das aves em cativeiro e é referência mundial referência mundial no manejo, reprodução e reabilitação dessas aves.

Muitas das aves do Parque, são vítimas da crueldade humana, através de tráfico de animais, multilação e também maus tratos em cativeiros ilegais. Esses animais chegam até lá trazidas pelo Ibama e Corpo de Bombeiros, para que recebam o cuidado necessário para se recuperarem da melhor forma possível. Quando chegam ao local, as aves mal tratadas estão ariscas e com muito medo do contato com humanos, mas graças a dedicação de toda a equipe, logo os animais se sentem mais seguros e se adaptam às visitas de pessoas aoparque e conseguem ter a sua recuperação total ou parcial, dependendo do nível do trauma sofrido.
Após o período de recuperação completo, algumas das aves recebem a chance de reintegração à natureza, enquanto outras não podem e ficam no Parque, recebendo cuidados diários para uma melhor qualidade de vida.

As aves que sofrem maus tratos também passam pelo trabalho de reprodução em cativeiro e graças a dedicação da equipe do local e de Percílio, os filhotes gerados já superaram as expectativas.

Quanto ao treinamento das aves, ao contrário da falcoaria tradicional da Ásia e Europa, que treina as aves para caçar ao lado de humanos, Percílio se concentra em fazer com que a população entenda o verdadeiro papel das aves de rapina na natureza, e as vejam como predadoras com papel fundamental na cadeia alimentar e não como “assassinas sanguinárias”.
No Instituto, os adestradores identificam e reproduzem cada vocalização da ave, criando um diálogo com ela e assim envia comandos de defesa, ataque, alerta, ou mesmo cumprimentos por meio de sons guturais produzidos na “linguagem” das aves. “O segredo está na vocalização”, explica José Percílio. “Através da identificação de cada som produzido pela ave, sabemos o que ela quer. Há sons de ataque, pedido de carinho, e outros que avisam sobre a chegada de pessoas”.
De três quatro vezes por semana, todas as 32 aves adestradas do Parque voam em pequenas viagens no exercício chamado de punho-a-punho – a longas distâncias – nos voos livres pela serra. Ao som do apito ou da própria voz do treinador, as aves simulam ataques a presas imaginárias.

Cada espécie de ave precisa realizar um treinamento individual, pois só assim as necessidades de cada espécie são colocadas em prioridade.  “Treinamento é tudo. Por serem  aves de rapina, elas precisam se exercitar de forma a queimar gordura e atingir o peso ideal”, explica Ricardo Alexandre. 

“A vida dessas aves está associada ao vôo. É através dele que, na natureza, essas espécies buscam alimento. O treinamento permite que os falcões mantenham a forma e estejam prontos para qualquer tarefa”.

O Parque dos Falcões está nos roteiros de passeios ecoturísticos do Estado de Sergipe, e além das aves de rapina, oferece um passeio guiado pelas no Parque Nacional Serra de Itabaiana, com quem faz fronteira.

O Parque não trabalha de forma exploratória, mas precisa de dinheiro para cuidar das aves, uma vez que não recebe apoio do  governo para se manter. Sendo assim, para cada visita, é preciso pagar uma tarifa de acesso. Para mais informações sobre o local e como visitar, veja abaixo!
TARIFA DE ACESSO
Adultos: R$ 25,00
Crianças de 8 a 12 anos: R$ 15,00
Crianças até 7 anos: acesso livre.

Todas as visitas ao Parque dos Falcões devem ser previamente agendadas e ocorrem somente às 9h e às 14h. Faça seu agendamento através dos telefones: (79) 99962-8396 | 99885-2522 | 99945-9020.

AGENDAMENTO

Todas as visitas ao Parque dos Falcões devem ser previamente agendadas e ocorrem somente às 9h e às 14h.

Faça seu agendamento através dos telefones: (79) 99962-8396 | 99885-2522 | 99945-9020.

*As visitas turísticas incluem apresentação oral e audiovisual da história, missão e técnicas de manejo do Instituto; apresentação dos hábitos de vida das aves de rapina; e fotografias com os animais em punho.


Fonte: ENVOLVERDE

ECO21 – A Amazônia tem pressa.

por Elisa Homem de Mello – jornalista ambiental – 

A importância da Amazônia para o mundo é proporcional à sua extensão. Trata-se de região complexa o suficiente, cujas fronteiras não respeitam limites, já que as mesmas, por si só, se extrapolam.

Em parceria com o Grupo Santander, a The Nature Conservancy (TNC) trouxe ao público, no último dia 3 de setembro, em São Paulo, o evento “Amazônia tem pressa: Experiências Empreendedoras”, que debateu a expansão da infraestrutura na região, abordando os desafios da governança e as gestões públicas para a conservação do território Amazônico, com base em uma visão integrada e em experiências práticas.

Ainda que fosse para justificar o óbvio, se tivéssemos de pontuar os motivos pelos quais investir na Amazônia é lucro certo, enfatizaríamos o suprimento de água e a melhora na qualidade do ar que respiramos, visto que a região Amazônica concentra 20% de toda água doce do Planeta e que os processos de evaporação e transpiração desta floresta ajudam a manter o equilíbrio climático. 

Poderíamos lembrar ainda do fornecimento de medicamentos e matérias primas para os mais variados segmentos da indústria. Sem falar dos alimentos. A Amazônia é a última fronteira gustativa da Terra, uma vez que aí estão os sabores que o mundo desenvolvido ainda não experimentou e talvez seja o único lugar onde eles ainda existam.

Aí também estão uma em cada cinco espécies do Planeta. E, por isso, poderíamos lembrar também que a Amazônia contém a genética que vai prover as soluções das novas fontes de energia, já prevendo o fim do ciclo do petróleo. E seriam infindáveis os motivos para convencermos quem quer que fosse a investir nestas terras, pois todas as soluções ecológicas e sustentáveis para o mundo passam pela Amazônia.

Na prática

Com tanto potencial, fica fácil compreender que a Amazônia não precisa de ajuda, mas sim de oportunidades. Então, o que falta nesta região de tanta visibilidade e com tantos atributos desejados para que o empreendedorismo não seja apenas um ato de muita fé e acolha com seriedade o cuidado com o meio ambiente e a responsabilidade social?
Reserva Tapajós/Arapiuns Crédito – Sergio Amaral

De acordo com as experiências práticas da Reserva Extrativista (RESEX) Tapajós-Arapiuns, modelos de negócio que valorizem a floresta em pé devem ser olhados com carinho. O desmatamento na região representa hoje a liberação de 200 milhões de toneladas de carbono por ano (2,2% do fluxo total global). Por outro lado, a Amazônia armazena em suas florestas o equivalente a uma década de emissões globais de carbono, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

Para Andréa Cardoso de Almeida, Representante da Organização e das Associações e Moradores da Resex Tapajós-Arapiuns, falta Investimento. A variedade de produtos da região é indiscutível, mas está claro que eles precisam ser trabalhados para chegarem ao consumidor final. “É preciso ainda qualificação, inovação, transporte, dentre outras questões sociais, como o combate ao preconceito de igualdade de gênero nos trabalhos”, afirma Almeida. Em consonância, está a visão de Hélia Félix, agricultora e cooperada da Coopatrans/Cacauway, para quem faltam também Políticas Públicas, cujo papel deve ser o de tornar a vida daqueles que querem investir na Amazônia mais fácil e fazer com que empreender na região não seja uma aventura e sim um ato corriqueiro e responsável. “Vontade e produtos de qualidade nós temos. Precisamos de meios para escoar esses produtos”, explica Félix, dando como exemplo o trecho de 480 km que liga sua indústria de produção de geleia até Santarém, dos quais apenas 120 km são asfaltados.

Existem histórias de sucesso na Amazônia, conquanto sejam pontuais e isoladas. E nem todos conseguem perseverar e apresentar a resiliência necessária neste processo. Faltam centros de infraestrutura, seja para logística de distribuição, seja para embalagens, fazendo com que os produtos locais não concorram com outros em preço, uma vez que estes custos são alto neste Estado. Por outro lado, os produtos existentes, tais como cacau, cupuaçu, bacuri, açaí e os mais de 140 cogumelos yanomamis já catalogados, garantem a segurança na biodiversidade. “Falta Conexão. A questão/desafio é como conseguiremos chegar nas prateleiras dos supermercados da Europa, de São Paulo ou dos EUA com um preço competitivo. Somos produtores mas não estamos no centro consumidor”, coloca Raphael Medeiros, Diretor Executivo do Centro de Empreendedorismo da Amazônia.

A Resex Tapajós-Arapiuns tem cerca de 1 milhão de hectares, o que representa 10 vezes o tamanho de São Paulo. Aí habitam 6 mil famílias, que, a grosso modo, poderíamos concluir, “cuidam” de aproximadamente 208 milhões de brasileiros.
Uma visão integrada do desenvolvimento

A Bacia do Tapajós é um território bastante emblemático no processo amazônico. Localizado entre os estados da Amazônia, de Mato Grosso, do Pará e de Rondônia, abrange 74 municípios com cerca de 1,5 milhão de habitantes. Trata-se de área de transição entre o Cerrado e a Floresta Amazônica, onde 40% do território está destinado às Unidades de Conservação (UCs) e aos Territórios Indígenas. Aí habitam 800 espécies de pássaros, 500 espécies de peixes e 250 de mamíferos. Além de concentrar enorme potencial hídrico e, portanto, energético, e uma localização estratégica para a saída Norte de toda a produção de grãos que vem do Mato Grosso, expandindo a fronteira agrícola.

Entretanto, os processos de transformação territorial na região não são projetados em escalas adequadas a estes processos socioambientais e econômicos, tão pouco respeitam as pessoas que lá estão, muito menos o DNA da própria Amazônia.

“Seguimos planejando muito mal todo este território, analisando os projetos de forma fragmentada, sem considerar impactos cumulativos e sinergias, e sem fazer com que as políticas públicas associadas a todos estes investimentos que ali chegam, sejam revertidas em transformação sistêmica com resultado socioeconômico positivo para todo o território”, afirma Karen Oliveira, Gerente de Infraestrutura, TNC Brasil.

Foi pensando em resgatar a questão do planejamento que foi criado o Blueprint. Trata-se de uma metodologia científica de planejamento integrado apoiada em base de dados espaciais que permite identificar áreas prioritárias para ações governamentais de conservação e gestão. O Blueprint serve como ponto de partida para fortalecer o diálogo entre diferentes atores e setores, e para a implementação de políticas que assegurem a sustentabilidade ambiental, fundamental para a manutenção da biodiversidade e de serviços ecossistêmicos, e para o crescimento econômico de uma bacia hidrográfica. A partir daí, torna-se possível estabelecer uma visão integrada e compartilhada por todos, fazendo com que as políticas públicas ali direcionadas passem a ser mais efetivas.

A partir de um conjunto de variáveis físicas (elevação e gradiente do terreno, densidade da drenagem e gradiente do leito dos rios) o Blueprint foi capaz de definir a Bacia do Tapajós em 985 unidades de planejamento (UPs), que integraram quatro grupos maiores de drenagem: rios de cabeceiras, pequenos tributários, grandes tributários e rios principais. Os cruzamentos desses dados geraram o ATLAS TAPAJÓS 3D – avaliando as dimensões tecnológica, científica e social.

De outro lado, um grupo formado por 177 associações empresariais, organizações da sociedade civil e academia criaram 28 propostas, agrupadas em três principais eixos (ordenamento territorial; dinamização dos mecanismos e agropecuária de baixo carbono aliada à conservação; restauração, reflorestamento e uso sustentável dos recursos naturais), com o objetivo de construir uma agenda para a agricultura, pecuária e economia de base florestal competitivas e sustentáveis. A Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura colabora para a implementação da Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC), que contém os compromissos assumidos em 2015, no âmbito do Acordo de Paris.

“Estes serão elementos importantes para a prosperidade do país”, afirma Izabella Teixeira, ex-Ministra do Meio Ambiente, que lembra, no entanto, que ainda não fomos capazes de sair das questões do Século 20, como segurança alimentar e segurança energética, embora no Século 21 as questões primordiais sejam a segurança hídrica e a climática.

De fato, a gestão do território amazônico é uma questão que se arrasta desde a década de 1980 e está claro que o modelo de gestão empregado pelo estado brasileiro, que compreende relações tais como as conhecidas, precisa mudar. “É preciso ter flexibilidade para se tomar decisões com maior embasamento. O mundo espera que o Brasil apresente soluções para o meio ambiente”, enfatiza Teixeira.
A Amazônia tem pressa

Para Patrícia Audi, Superintende Executiva de Relações Institucionais do Santander, falta planejamento a partir do território. “Com base em um planejamento territorial, poderemos estabelecer as prioridades e o papel de cada stakeholder, atribuindo responsáveis e uma visão de monitoramento para se pensar a Amazônia que abrange o mundo agrícola, o mundo extrativista (inclusive o ilegal) e o mundo hídrico. É preciso pensar uma visão estratégica que perpasse governos e que perdure muito além de 4 anos, pois a Amazônia tem pressa e o povo que lá está não pode esperar por planejamentos cujos efeitos nunca serão vistos”.

A Amazônia tem pressa para encontrar um modelo de transformação que tenha como base a governança social e territorial e que valorize seus ativos naturais. Um modelo que seja inspirador e inovador e que promova e propicie uma transformação sistêmica que supere barreiras e, ao mesmo tempo, atenda às necessidades de fomento socioeconômico e ambiental.

“O empreendedorismo amazônico também nos faz dialogar sobre as muitas amazônias que existem na Amazônia. É preciso um modelo de desenvolvimento sustentável que fomente mecanismos financeiros públicos e privados. A Amazônia tem pressa e é preciso fazer com que seu legado seja reconhecido e respeitado mundialmente”, afirma Santiago Gowland, Vice-presidente Executivo de Inovação Global e Diretor Executivo para AL, TNC
Empreendimentos que merecem atenção

Ferrogrão – Questão/Desafio: como entrar na Amazônia, respeitando seus povos, suas culturas e sua floresta? Desde 2012, a preocupação maior dos investidores envolvidos neste empreendimento tem sido fazer uma consulta prévia com a sociedade da região e as culturas indígenas.

O projeto de construção de uma ferrovia (EF-170, comumente chamada de Ferrogrão) faz frente à expansão da fronteira agrícola brasileira e à demanda por uma infraestrutura integrada de transportes de carga, produzindo benefícios socioeconômicos de alto impacto para as regiões entre Sinop/MT e Itaituba/PR.

Prevê-se que, já em 2020, a demanda total de carga alocada da ferrovia alcance 25 milhões de toneladas, número que poderá chegar a 42,3 milhões de toneladas em 2050. O corredor a ser constituído pela EF-170 e pela rodovia BR-163 abrirá uma nova rota para a exportação da soja e do milho no Brasil. Hoje, mais de 70% da safra mato-grossense é escoada pelos portos de Santos/SP e de Paranaguá/PR, a mais de 2 mil km da origem.

Essa circunstância dá ao projeto uma importância de extrema relevância dentro do sistema logístico de cargas do país, sendo imprescindível um olhar crítico que foque principalmente na região e na população que aí vive.

Hidrelétrica de São Luiz – Questão/Desafio: é possível desenvolver infraestrutura na Amazônia de forma sustentável? Para especialista de uma das mais novas geradoras de energia elétrica do país, trata-se de empreendimento capaz de produzir desenvolvimento e alavancar a comunidade local, entretanto, é preciso repensar as tecnologias, unindo conhecimento social e ambiental.

A Usina Hidrelétrica São Luiz do Tapajós foi concebida como uma usina-plataforma, conceito inspirado nas plataformas de exploração de petróleo em alto mar. Depois de pronta, o canteiro de obras deverá ser desmanchado, para o reflorestamento da região. Usinas-plataformas funcionam de forma mais automatizada e não são ligadas por estradas. O acesso dos funcionários terá que ser feito por helicóptero. O lago terá área de 722,25 km². A queda será de 35,9 metros, gerando 6.356,4 MW através de 31 turbinas Kaplan de 198 MW e duas de 109,2 MW. Produzirá 29.548,8 GW/ano.

A previsão é de que este seja o maior complexo do Tapajós. Sondagens da Eletrobras indicam a possibilidade de expansão da capacidade energética para 7.880 MW.

Essa circunstância dá ao projeto uma importância de extrema relevância dentro do sistema hídrico do país, sendo imprescindível um olhar crítico que foque principalmente no meio ambiente e na responsabilidade social, além do fortalecimento de instituições como Funai e ICMBio.

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Fonte: ENVOLVERDE

Consciência no (pós-) consumo.


por Cristiane Lima Cortez* e José Goldemberg** – 

Todos os dias, nós consumimos ar, água, alimentos e uma infinidade de produtos manufaturados. Como consequência, geramos poluentes atmosféricos, efluentes líquidos e resíduos sólidos. Alguns, inevitáveis, como o gás carbônico da respiração, que junto com outras fontes de emissão de gases de efeito estufa – como o combustível dos transportes e o lixo orgânico disposto nos aterros sanitários – contribuem para o aumento do aquecimento global. Questão difícil de resolver, pois depende de ações integradas de todos os países, uma vez que seus efeitos são globais, e, assim, a sociedade muitas vezes não consegue se enxergar como parte da solução.

Mas se tomarmos consciência de que nossos hábitos de consumo estão diretamente ligados à solução (ou à piora) desses problemas, conseguiremos entender claramente como a responsabilidade é, em primeiro lugar, de cada um de nós. Essa é a proposta do Dia do Consumo Consciente, celebrado anualmente no dia 15 de outubro. A data foi instituída pelo Ministério do Meio Ambiente em 2009 para despertar a consciência das pessoas não apenas para as ameaças ambientais, mas sociais, econômicas e políticas, oriundas de padrões de produção e consumo excessivos e insustentáveis.

Que tal começarmos pelos resíduos sólidos? Cada brasileiro gera, em média, 1 quilo de resíduo sólido por dia. Então, devemos agir em duas frentes: (i) produzir menos resíduos e (ii) segregar os resíduos produzidos a fim de que o máximo possível possa ser reutilizado ou reciclado.

Assim, o consumidor consciente evita usar produtos descartáveis e prefere comprar produtos com menos embalagens, optando por refis e alimentos a granel. O movimento “sem-lixo” ou “lixo zero” presente no mundo todo (e também no Brasil) mostra como famílias que vivem nos centros urbanos conseguem gerar pouco lixo – e, na maioria, biodegradável –, como cascas de frutas e legumes compostados em sistemas caseiros com minhocas, que ocupam pouco espaço.

A mudança de comportamento acontece de forma gradativa até que todos ao redor sejam positivamente influenciados a agir da mesma forma. É importante que todo o lixo produzido seja segregado e destinado de forma correta.  O rejeito para a coleta municipal e reciclável pode ser levado até um ponto de entrega voluntário (PEV) do estabelecimento comercial, do ecoponto municipal ou associação/cooperativa de catadores ou submetido à coleta porta a porta que algumas cidades fazem. Estamos diante de muitas possibilidades.

Além disso, alguns resíduos especiais, como pilhas, baterias portáteis, eletroeletrônicos e lâmpadas, devem ser levados, de forma separada, até pontos de entrega específicos, como manda a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) (Lei n.º 12.305/2010), que instituiu a responsabilidade compartilhada entre todos os geradores de resíduos, incluindo os consumidores como protagonistas no processo. A corresponsabilidade é dividida entre fabricantes, importadores, distribuidores, comerciantes, cidadãos e titulares de serviços de manejo dos resíduos sólidos urbanos.

Vários municípios possuem leis que preveem multas para a população e para os elos da cadeia produtiva que descumprirem as regras de segregação dos resíduos e não participarem de sistemas de logística reversa. Por sua vez, os municípios precisam ter coleta de rejeitos e de recicláveis, além de destinação eficaz dos resíduos coletados.

O consumo consciente começa a partir do momento que compreendemos que não existem atitudes isoladas. O que você faz (ou deixa de fazer) ao meio ambiente é refletido em consequências, boas ou ruins, e uma coisa é certa: a responsabilidade, sim, também é nossa.

*Cristiane Lima Cortez é assessora técnica do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP. Bacharel e mestre em Engenharia Química. Doutora em Energia. Membro do Conselho de Orientação de Energia da Agência Reguladora de Saneamento e Energia do Estado de São Paulo (Arsesp). Integrante do Comitê da Bacia Hidrográfica do Alto Tietê. Membro do Conselho Municipal do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Cades), da Secretaria do Verde e Meio Ambiente da cidade de São Paulo. Professora dos cursos de Engenharia da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap). Foi coordenadora de projetos no Centro Nacional de Referência em Biomassa do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo (Cenbio/IEE/USP).

** José Goldemberg é presidente do Conselho de Sustentabilidade da FecomercioSP. Doutor em Física. Professor emérito da USP. Membro da Academia Paulista de Letras. Membro do Conselho Estadual de Política Energética (Cepe), da Secretaria de Energia e Mineração do Estado de São Paulo. Foi presidente da Fapesp, da SBPC e da Cesp, além de reitor da USP. Atuou como secretário das pastas de Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente de São Paulo e do Meio Ambiente da Presidência da República. Também foi ministro da Educação e professor da Universidade de Paris (França) e de Princeton (Estados Unidos).


Fonte: ENVOLVERDE

terça-feira, 9 de outubro de 2018


MPF processa Eletronorte e Funai por coação ao povo Waimiri Atroari, por concordância com a construção do Linhão de Tucuruí.

Waimiri Atroari – Pedido de liminar requer que a empresa e a fundação não condicionem a efetivação de programa assistencial aos indígenas à concordância do povo com a construção do Linhão de Tucuruí.
Vista aérea da linha de transmissão Manaus/Roraima
Foto: Vanilton 2006

O Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas ajuizou ação civil pública, com pedido de liminar, para impedir que a Eletronorte e a Fundação Nacional do Índio (Funai) tomem qualquer medida no sentido de impor ou condicionar a efetivação de programa voltado ao povo Waimiri Atroari à concordância dos indígenas com a construção da linha de transmissão Manaus – Boa Vista, o Linhão de Tucuruí, cujo traçado abrange a terra indígena onde vivem os Kinja, como se autodenominam os waimiri. Para o MPF, a exigência caracteriza prática abusiva de coação.

A ação do MPF pede, em caráter de urgência, que a Justiça suspenda o cronograma previsto pela Eletronorte, em que a empresa condiciona a continuidade do Programa Waimiri Atroari à concordância dos indígenas com a linha de transmissão, e também qualquer outra medida restritiva em relação à continuidade dos repasses de recursos referentes ao programa até o final do processo.

O MPF também requer que a Eletronorte e a Funai sejam proibidas de impor, de forma unilateral, prazos para análise do empreendimento sem a realização de consulta prévia, livre e informada, conforme a Convenção nº 169, da Organização Internacional do Trabalho (OIT).

Nos pedidos finais da ação, o MPF quer a confirmação de todos esses pedidos em caráter definitivo e pede também o pagamento de indenização no valor de R$ 1 milhão por dano moral coletivo e a anulação de cláusula de termo de cooperação, firmado entre a Eletronorte, a Funai e a Associação da Comunidade Indígena Waimiri Atroari, que condiciona a continuidade do programa à aceitação dos indígenas em relação à execução do projeto do Linhão.

A ação tramita na 3ª Vara Federal Cível do Amazonas, sob o número 1003750-98.2018.4.01.3200.

Prática de coação – O Programa Waimiri Atroari (PWA) foi elaborado em 1987, como forma de compensar os impactos socioambientais causados pela construção da Usina Hidrelétrica de Balbina no território do povo indígena. Pelo programa, a Eletronorte seria responsável pela implantação de medidas de assistência em saúde e educação, atividades produtivas e vigilância dos limites da área onde vivem os Kinja.

Em 2013, ano em que o programa foi renovado por mais dez anos por meio de termo de cooperação, a Eletronorte inseriu no documento cláusula estabelecendo que a eficácia e o início de vigência do referido acordo estavam condicionados à assinatura de protocolo de intenções entre a Eletronorte, a Funai e a Associação da Comunidade Indígena Waimiri Atroari, que formalizasse a concordância com o início imediato dos estudos do processo de licenciamento ambiental da linha de transmissão, bem como com o cronograma geral do empreendimento.

Na ação, o MPF ressalta que a Eletronorte inseriu obrigações aos indígenas que estão ligadas a outro empreendimento, no contexto da prorrogação do acordo especificamente voltado ao ressarcimento por danos socioambientais causados pela implantação da Usina Hidrelétrica de Balbina. “Os indígenas entenderam que ali havia uma menção à concordância com a realização de estudos, aos quais nunca se opuseram, e não imaginariam que a alusão a um cronograma geral iria ser utilizada contra eles no futuro”, ressalta trecho do documento.

O MPF narra que, posteriormente, em agosto de 2018, a Eletronorte remeteu documento no qual afirma que tomou decisão unilateral acerca da continuidade de pagamentos ao Programa Waimiri Atroari, condicionando-os ao cumprimento pelo povo indígena de uma série de ações relacionadas ao procedimento de licenciamento ambiental da linha de transmissão Manaus – Boa Vista.

“A empresa adotou uma medida de chantagem ao povo Kinja, exigindo a manifestação positiva ao empreendimento de linha de transmissão, independentemente de adoção do procedimento de consulta prévia, livre e informada”, sustenta o MPF na ação. Para o órgão, a atuação abusiva configura prática de coação, conforme prevê o artigo 151 do Código Civil.

Desrespeito à legislação e a decisões judiciais – A ação civil pública reforça que a atuação da Eletronorte, com a aparente anuência da Funai, desconsidera a existência de decisões judiciais e de todo o debate a respeito da realização da consulta prévia, livre e informada ao povo Waimiri Atroari, prevista na Convenção nº 169, da OIT.

“A obrigação de consultar os povos afetados, em casos de empreendimentos e atividades, se justifica pela necessidade de garantir a integridade das terras indígenas, haja vista que a manutenção do modo tradicional de vida dos povos indígenas depende diretamente de seus territórios e dos recursos naturais neles contidos”, lembra o MPF.

A Justiça Federal já decidiu favoravelmente ao MPF em duas ações civis públicas diferentes quanto à necessidade de consulta aos Waimiri Atroari em relação à linha de transmissão. O empreendimento foi suspenso em sentença proferida em novembro de 2014. Em outra decisão judicial, em 2018, a Justiça reafirmou o caráter vinculante do consentimento dos Waimiri Atroari para qualquer obra de grandes empreendimentos com potenciais impactos sobre as terras indígenas pertencentes ao povo.



IPCC defende ‘mudanças sem precedentes’ para limitar aquecimento global a 1,5 °C.

Limitar o aquecimento global a 1,5 °C exigirá “mudanças de longo alcance e sem precedentes” no comportamento humano, segundo um painel científico das Nações Unidas, que lançou nesta segunda-feira (8) um relatório especial segundo o qual algumas das ações necessárias já estão em andamento, mas precisam ser dramaticamente ampliadas.

Solo ressecado próximo ao rio Nilo Branco, em Cartum, Sudão. Foto: Banco Mundial/Arne Hoel

ONU

O IPCC, ou Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgou o relatório em Incheon, na Coreia do Sul, onde, na semana passada, centenas de cientistas e representantes governamentais analisaram milhares de informações para demostrar o que pode acontecer com o planeta e a população global diante do aquecimento global de 1,5 °C.

“Uma das principais mensagens enfatizadas fortemente neste relatório é que já estamos vendo as consequências do aquecimento global de 1°C, como eventos climáticos mais extremos, elevação do nível dos oceanos e degelo no Ártico, entre outras mudanças”, disse Panmao Zhai, copresidente de um dos grupos de trabalho do IPCC.

O Acordo de Paris para o clima, adotado em dezembro de 2015 por 195 nações na 21ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), incluiu o objetivo de fortalecer a resposta global à ameaça da mudança climática “segurando o aumento da temperatura média global para bem abaixo de 2 °C acima dos níveis pré-industriais, e buscando esforços para limitar o aumento da temperatura a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais”.

Em publicação no Twitter logo após o lançamento do relatório, o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que não é impossível limitar o aquecimento global a 1,5 °C, de acordo com o documento. “Mas isso exigirá uma ação climática coletiva e sem precedentes em todas as áreas. Não há tempo a perder”.

Petteri Taalas, secretário-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), disse nesta segunda-feira (8) em Genebra que havia “extrema urgência” por parte dos signatários do Acordo de Paris, e que “até agora o progresso não tem sido bom o suficiente” para manter a elevação da temperatura abaixo de 2 °C.

“A mudança climática já é visível e está tendo um impacto sobre os seres humanos e ecossistemas em todo o mundo. Com aumento de 2°C teremos verão sem gelo na Antártida todo ano, mas com aumento de 1,5 °C veríamos isso apenas a cada 100 anos”, disse ele, dando um exemplo de como o clima do mundo muda drasticamente por um aumento de apenas meio grau.

“Haverá 420 milhões de pessoas sofrendo menos por causa da mudança climática se pudermos limitar o aquecimento a 1,5 °C, e temos certas áreas no mundo que são extremamente sensíveis”, disse Taalas. “Pequenos Estados insulares, a região do Mediterrâneo e também a África subsaariana já estão sofrendo e sofrerão mais no futuro”.

Ainda é possível limitar o aquecimento global a 1,5 °C, continuou o oficial da OMM, “mas devemos mudar muitas coisas, a forma como administramos nossos negócios diários hoje”.

Também em Genebra, um especialista em direitos humanos da ONU alertou que não fazer mais para lidar com a mudança climática pode provocar décadas de graves violações.

“A mudança climática está tendo — e terá — efeitos devastadores em uma ampla gama de direitos humanos, incluindo direitos a vida, saúde, alimentação, moradia e água, bem como o direito a um ambiente saudável”, disse David Boyd, relator especial da ONU para direitos humanos e meio ambiente.

“O mundo já está testemunhando os impactos da mudança climática — de furacões na América, ondas de calor na Europa, secas na África e enchentes na Ásia.”


Meio grau é importante

O relatório destaca vários impactos da mudança climática que poderiam ser evitados limitando o aquecimento global a 1,5 °C em comparação com 2 °C ou mais.

Por exemplo, até 2100, a elevação global do nível do mar seria 10 cm mais baixa com o aquecimento global de 1,5 °C em comparação com 2 °C.

Além disso, os recifes de corais, já ameaçados, cairiam 70-90% com o aquecimento global de 1,5 °C, enquanto praticamente todos seriam perdidos com aumento de 2 °C, segundo o relatório.

“Cada aquecimento extra, especialmente a partir de 1,5 °C ou mais, amplia o risco associado a mudanças duradouras ou irreversíveis, como a perda de alguns ecossistemas”, disse Hans-Otto Pörtner, copresidente do grupo de trabalho 2 do IPCC.

“Limitar o aquecimento a 1,5 °C é possível dentro das leis da química e da física, mas isso exigiria mudanças sem precedentes”, disse Jim Skea, copresidente do grupo de trabalho 3 do IPCC.

Com isso em mente, o relatório pede grandes mudanças no uso de terra e energia, na indústria, no setor de construção, de transporte e em todas as cidades em todos os lugares. As emissões líquidas globais de dióxido de carbono precisariam cair 45% em relação aos níveis de 2010 até 2030, e atingir o equilíbrio entre emissões e compensações por volta de 2050.

Permitir que a temperatura global aumente temporariamente acima de 1,5 °C significaria uma dependência maior das técnicas que removem CO2 do ar para retornar as temperaturas globais para abaixo de 1,5 °C até 2100.

Mas o relatório adverte que “a eficácia de tais técnicas não é comprovada em larga escala e algumas podem acarretar riscos significativos para o desenvolvimento sustentável”.

“Limitar o aquecimento global a 1,5 °C em comparação com 2 °C reduziria os impactos desafiadores nos ecossistemas, saúde humana e bem-estar, tornando mais fácil alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) das Nações Unidas”, disse Priyardarshi Shukla, copresidente do grupo de trabalho 3 do IPCC, referindo-se aos 17 objetivos adotados pelos Estados-membros da ONU há três anos para proteger o planeta e assegurar que todas as pessoas desfrutem de paz e prosperidade até 2030.

O novo relatório vai alimentar um processo chamado “Diálogo de Talanoa”, no qual as partes do Acordo de Paris para o clima vão avaliar o que foi realizado nos últimos três anos. O diálogo fará parte da próxima conferência da UNFCCC dos Estados-partes, conhecida como COP 24, que ocorrerá em Katowice, na Polônia, em dezembro.


Fonte: ONU Brasil

Emissões de carbono de incêndios florestais na Amazônia são até 4 vezes piores do que se estimava.

As perdas de carbono causadas pelos incêndios florestais de El Niño de 2015 e 2016 poderiam ser até quatro vezes maiores do que se pensava, de acordo com um estudo de 6,5 milhões de hectares de floresta na Amazônia brasileira.

Lancaster University*

Nova pesquisa, publicada em uma edição especial da revista Philosophical Transactions da Royal Society B , revelou que as consequências dos incêndios florestais de 2015 e 2016 na Amazônia resultaram em emissões de CO2 três a quatro vezes maiores do que as estimativas comparativas das bases de dados de atuais emissões globais de incêndios.

A descoberta é parte de uma série de resultados publicados esta semana, por pesquisadores da Universidade de Lancaster, que estavam trabalhando no coração do local de um dos piores incêndios florestais que a Amazônia viu em uma geração.

Pesquisadores afirmam que incêndios florestais descontrolados no sub-bosque – ou no nível do solo – de florestas tropicais úmidas durante secas extremas são uma fonte grande e mal quantificada de emissões de CO2.

O estudo “Quantifying immediate carbon emissions from El Niño-mediated wildfires in humid tropical forests” analisou uma região de 6,5 milhões de hectares, dos quais quase 1 milhão de hectares de florestas primárias e secundárias queimadas durante o El Niño 2015-2016, área equivalente a metade do País de Gales.

Embora a área analisada cubra menos de 0,2% da Amazônia brasileira, esses incêndios resultaram em emissões imediatas de CO2 de mais de 30 milhões de toneladas, três a quatro vezes maiores do que estimativas comparáveis de bancos de dados globais de emissões de fogo.

O autor principal, Kieran Withey, da Universidade de Lancaster, disse: “Incêndios descontrolados de sub-bosque em florestas tropicais úmidas durante secas extremas são uma fonte grande e mal quantificada de emissões de CO2. Esses incêndios consumiram completamente resíduos lenhosos e detritos lenhosos finos, enquanto parcialmente queimando árvores lenhosas, resultando em altas emissões imediatas de CO2. Esta análise cobre uma área de apenas 0,7% do Brasil, mas a quantidade de carbono perdido corresponde a 6% das emissões anuais de todo o Brasil em 2014. ”

No final de 2015, Santarém, no estado brasileiro do Pará, foi um dos epicentros do El Niño daquele ano. A região sofreu uma seca severa e extensos incêndios florestais e os pesquisadores estavam trabalhando bem no meio dela. Cientistas do ‘ECOFOR’, o projeto de pesquisa internacional liderado pelo professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, instalaram 20 áreas de estudo em Santarém, oito das quais queimadas.

A equipe de pesquisa rapidamente percebeu que eles tinham a oportunidade de documentar em detalhes como uma floresta responde ao fogo nessa escala.

A Dra. Erika Berenguer, da Universidade de Oxford e Lancaster, e seus colegas descobriram que após os incêndios, as árvores sobreviventes cresceram significativamente mais do que aquelas localizadas em florestas não queimadas, independentemente de sua história de perturbação humana anterior. Em média, as árvores nas áreas queimadas da floresta cresceram 249% mais do que as árvores nas florestas afetadas pela seca, mas não pelo fogo. Embora a taxa de crescimento seja uma boa notícia, esse grande aumento no crescimento parece ser uma resposta relativamente de curto prazo.

O professor Jos Barlow, da Lancaster University, disse: “Apenas algumas árvores podem sobreviver a esses incêndios florestais, já que as florestas da Amazônia não coevoluem com essa ameaça. Assim, embora as árvores sobreviventes cresçam mais rapidamente nas florestas queimadas, isso não compensa a grande perda de carbono”. resulta da mortalidade das árvores “.

Enquanto isso, Camila VJ Silva da Universidade de Lancaster liderou pesquisas incluindo 31 outras áreas queimadas em toda a Amazônia brasileira, que mostraram que mesmo 30 anos depois de um incêndio, florestas aparentemente “recuperadas” ainda possuem 25% menos carbono do que florestas primárias não perturbadas próximas.

Ela disse: “incêndios florestais em florestas tropicais úmidas podem reduzir significativamente a biomassa florestal por décadas, aumentando as taxas de mortalidade de árvores de grande e alta densidade de madeira (como castanha-do-brasil ou mogno), que armazenam a maior quantidade de biomassa em florestas antigas, desmonstrando que os incêndios florestais diminuem ou retardam significativamente a recuperação pós-fogo das florestas amazônicas.

Berenguer disse: “No geral, nossos resultados combinados destacam a importância de considerar os incêndios florestais nas políticas de conservação florestal e mudanças climáticas. Com os modelos climáticos projetando um futuro mais quente e seco para a bacia amazônica, os incêndios florestais provavelmente se tornarão mais generalizados. Considerar os incêndios florestais nas políticas públicas levará a intervalos mais curtos de retorno ao fogo, com as florestas sendo incapazes de recuperar seus estoques de carbono. ”
Referência:
Quantifying immediate carbon emissions from El Niño-mediated wildfires in humid tropical forests.
Kieran Withey, Erika Berenguer, Alessandro Ferraz Palmeira, Fernando D. B. Espírito-Santo, Gareth D. Lennox, Camila V. J. Silva, Luiz E. O. C. Aragão, Joice Ferreira, Filipe França, Yadvinder Malhi, Liana Chesini Rossi, Jos Barlow
Published 8 October 2018.DOI: 10.1098/rstb.2017.0312
http://rstb.royalsocietypublishing.org/content/373/1760/20170312


* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Fonte: EcoDebate