quarta-feira, 2 de março de 2016

Tratado contra testes nucleares só no papel.
O cogumelo atômico sobre o atol de Bikini, nas Ilhas Marshall, gerado por Castle Bravo, o maior teste nuclear realizado pelos Estados Unidos em toda sua história. Foto: Departamento de Energia dos Estados Unidos, por intermédio daWikimediaCommons.

Por Thalif Deen, da IPS – 

Nações Unidas, 11/2/2016 –Após nove anos no cargo, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Ban Ki-moon, se retirará em dezembro, possivelmente sem conseguir um de seus objetivos políticos mais ambiciosos, o de garantir a entrada em vigor do Tratado de Proibição Completa dos Testes Nucleares (CTBT).

“Em 2016 completamos 20 anos desde que o tratado foi aberto para assinaturas”, afirmou Ban no final de janeiro, quando alertou que o teste nuclear da Coreia do Norte, realizado no dia 6 de janeiro – o quarto desde 2006 –, foi um fato “profundamente desestabilizador para a segurança regional e prejudica seriamente os esforços internacionais de não proliferação”.

Agora é o momento de fazer o último esforço para assegurar que o CTBT entre em vigor e de maneira universal, ressaltou o secretário-geral. Os governos devem considerar uma maneira de reforçar a suspensão de fato dos testes nucleares, para que “nenhum Estado possa utilizar a situação atual do CTBT como desculpa para realizar um teste nuclear”, apontou.

Mas a pergunta é: estamos perto ou longe da entrada em vigor do CTBT?

“O CTBT foi amplamente recebido como a prova de fogo da sinceridade dos Estados que possuem armas nucleares em seu compromisso com o desarmamento”, pontuou à IPS JayanthaDhanapala, integrante do Grupo de Pessoas Eminentes designadas pelo secretário executivo da Secretaria Técnica Provisória da Organização do CTBT (CTBTO). “A promessa concreta de sua adoção foi uma das causas que levaram à extensão permanente do Tratado de Não Proliferação Nuclear em 1995”, acrescentou.

O fato de não estar em vigor esse importante freio à pesquisa e ao desenvolvimento da arma mais destrutiva já inventada não é bom sinal, na medida em que se deterioram as relações entre os Estados Unidos e a Rússia, que juntos possuem 93% das armas nucleares do planeta, advertiuDhanapala, que foi subsecretário-geral da ONU para Assuntos de Desarmamento.São gastas enormes quantidades de dinheiro na modernização das armas e existe a possibilidade de grupos extremistas com práticas terroristas poderem adquiri-las, o que se soma à ameaça que estas armas representam apenas por existirem, observou.

John Hallam, da organização australiana Gente pelo Desarmamento Nuclear, disse à IPS que ao longo dos anos sugeriu várias propostas para que seja adotado o CTBT, com a possibilidade de um “grupo de amigos (governos)” declararem que, para eles, o tratado já está vigorando. Esse grupo poderia reunir uma cômoda maioria na Assembleia Geral da ONU para consolidar essa situação com uma resolução declarando que o tratado está em vigor, acrescentou.

“Entendo perfeitamente que essas estratégias provavelmente encontrem resistência por parte dos Estados que não ratificaram o tratado. Dessa forma, a pressão seria sobre eles para que o ratifiquem. E a maioria não deve estar sujeita à pequena minoria daqueles que apresentam resistência, por mais influentes que sejam”, destacouHallam.

O CTBT foi aprovado pela Assembleia Geral da ONU em 1996, mas ainda não entrou em vigor por uma razão fundamental: oito países estratégicos se negam a assiná-lo ou ratificá-lo. Os três que não assinaram (Coreia do Norte, Índia e Paquistão), e os cinco que não ratificaram (China, Egito, Estados Unidos, Irã e Israel) seguem inalteráveis em sua postura, quase 20 anos depois da adoção do tratado.

Atualmente, muitos Estados que possuem armas nucleares suspenderam voluntariamente os testes. “Mas a suspensão não substitui a vigência do CTBT. Os quatro testes nucleares realizados pela Coreia o Norte são uma prova disso”, enfatizou Ban.Em setembro de 2013 foi encomendado a um grupo de aproximadamente 20 “pessoas eminentes” a tarefa pouco invejável de convencer os oito países recalcitrantes a aderirem ao tratado. Segundo o CTBT, o tratado não pode entrar em vigor sem a participação desses oito países.

Em outubro, diante da Comissão da ONU sobre Desarmamento e Segurança Internacional, LassinaZerbo, secretário executivo da CTBTO, disse que é preciso reavivar o espírito da década de 1990 e superar a atitude de “aqui nada acontece” reinante nos últimos anos. No atual milênio, somente a Coreia do Norte violou a suspensão dos testes nucleares, recordou. “Ainda faltam medidas para garantir o futuro do tratado como uma barreira legal firme contra os testes nucleares e a corrida armamentista”, acrescentou.

As armas e os testes nucleares têm um impacto perigoso e desestabilizador na segurança mundial, e negativo parao ambiente, disse Zerbo. Até o momento foram investidos mais de US$ 1 bilhão no regime de verificação mais sofisticado e de maior alcance concebido para controlar esses testes nucleares, assegurou.Os países tomaram de boa fé importantes decisões de segurança nacional, com a expectativa de que o tratado fosse legalmente vinculante e em conformidade com o direito internacional, e os governos devem terminar o trabalho realizado pelos especialistas, enfatizou.

“Os desafios do desarmamento e da não proliferação exigem ideias audazes e soluções globais, bem como a participação ativa das partes interessadas de todos os rincões do mundo. Igualmente importante é a geração de capacidade da nova geração de especialistas, que levaram o esforço adiante”, concluiu Zerbo.

Por sua vez, Hallam considera “que a CTBTO está fazendo um trabalho magnífico, e especificamente que Zerbo faz um grande trabalho de promoção do tratado. Sugeriu que seria importante que os dados brutos recolhidos pela rede de sensores da CTBTO estejam disponíveis com facilidade e rapidez para a comunidade de investigação, e não apenas aqueles relacionados com a não proliferação, mas geofísicos e climatológicos, para não falar dos centros de alerta de tsunamis.


Fonte: ENVOLVERDE
Técnica nuclear pode ajudar no combate ao Aedes aegypti.
Mosquito Aedes aegypti está na mira de pesquisas que utilizam radiação para tornar insetos estéreis e controlar populações. Foto: FotosPúblicas / Rafael Neddermeyer.

Técnica utiliza a radiação para tornar inférteis insetos machos criados em massa e em cativeiro. 

Após tratamento, eles são liberados no meio ambiente, mas não conseguem procriar, dificultando a proliferação da espécie. Tecnologia está sendo testada para controlar populações do mosquito que transmite zika, dengue, febre amarela e chikungunya.

Por Redação da ONU Brasil –

A Agência Internacional de Energia Atômica da ONU (AIEA) chamou a atenção, no último dia 3, para a Técnica do Inseto Estéril (SIT), uma tecnologia amplamente pesquisada pelo organismo da ONU e que permitiria controlar populações de insetos, como o mosquito Aedes aegypti, vetor do vírus zika.

O método envolve a criação, em massa e em cativeiro, de insetos cujos machos são tornados estéreis por meio de radiação ionizante. Após a esterilização, eles são liberados no meio ambiente, dificultando a reprodução da espécie.

De acordo com o vice-diretor-geral da AIEA, Aldo Malavasi, a técnica já é utilizada há mais de 50 anos para o controle de diferentes pestes na agricultura, como moscas e mariposas. O uso da esterilização em mosquitos transmissores de doenças, entre eles o responsável por transmitir a zika, a chikungunya, a febre amarela e a dengue, está sendo investigado, mas alguns testes já obtiveram resultados promissores na Itália, na Indonésia, na China e em Maurício.

“É como os carros nos anos 1890: funciona, mas precisaremos de mais desenvolvimento e refinamento”, afirmou o biologista molecular a serviço da AIEA, Konstantinos Bourtzis, a respeito da técnica, cujo uso em escala industrial ainda está em seus primeiros estágios, segundo o cientista. O pesquisador faz parte de uma divisão de estudos coordenada pela agência e pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Um dos principais desafios ao uso da SIT é separar as fêmeas dos machos para o tratamento com radiação, a fim de evitar que fêmeas férteis sejam liberadas no meio ambiente, já que as fêmeas são os vetores do vírus. Apesar do obstáculo, já existe um método disponível capaz de tornar estéreis mesmo as fêmeas que acidentalmente se misturarem aos machos tratados com radioatividade e forem, posteriormente, soltas em comunidades e ambientes silvestres.

Ao longo da última década, diferentes países solicitaram apoio técnico, equipamento e treinamento à AIEA para conseguir aplicar a técnica em seus territórios, contra mosquitos. A SIT foi tema de debates recentes envolvendo o diretor-geral da agência, Yukiya Amano, e nações da América Central. O dirigente enfatizou o potencial da tecnologia para o combate ao transmissor do zika. De acordo com a agência da ONU, a tecnologia é uma alternativa segura e sustentável a métodos tradicionais como o uso de inseticidas, aos quais os insetos estão cada vez mais resistentes.


Fonte: ONU Brasil
Suspensas as propostas que colocam em risco as listas de espécies ameaçadas.
Os projetos do senador poderiam deixar as espécies nativas vulneráveis. Foto: © Divulgação.

A semana pré-carnaval terminou com um certo alívio para o meio ambiente. O senador Ronaldo Caiado (DEM/GO) decidiu suspender temporariamente a tramitação de três projetos de decreto legislativo que colocavam em risco as listas de espécies brasileiras ameaçadas de extinção: a de animais, a de plantas e a de peixes e invertebrados aquáticos. Os projetos do senador poderiam deixar as espécies nativas vulneráveis.

Chamadas de “listas vermelhas”, essas publicações seguem rigorosos critérios científicos e são feitas com o apoio dos principais cientistas e pesquisadores do país. Elas relacionam quais são os seres da biodiversidade ameaçados de extinção e o grau de ameaça em que cada espécie se encontra. As listas são importantes, pois servem para orientar o governo sobre o que fazer para garantir a sobrevivência das espécies e traçar políticas públicas para proteger a fauna, a flora e os peixes nativos.

Os projetos suspensos – todos de autoria do senador Ronaldo Caiado – são:
PDS 184, suspende a Portaria MMA 444/ Fauna, autoria Ronaldo Caiado
PDS 158, para sustar MMA 443, Flora, autoria Ronaldo Caiado
PDS 183, para sustar MMA 445 Peixes e Invertebrados Aquáticos, autoria Ronaldo Caiado, Portaria MMA. MMA 445 suspensa pela Justiça Federal, Junho 2015.

No fundo, o senador da bancada ruralista argumenta que a existência das listas restringe ou pode inviabilizar atividades agrícolas. Criticado pelas propostas, Caiado optou por abrir a questão para discussão em audiências públicas, declarando-se “aberto ao diálogo”. O parlamentar argumentou que criou o projeto porque, segundo ele, algumas das espécies da lista de 2014 “podem colocar em risco a saúde da população e plantações inteiras”.

É preciso ressaltar, contudo, que as três portarias foram construídas por meio de um processo científico bastante complexo. No caso da Portaria 443, foram consultados 330 especialistas que avaliaram 4.617 espécies. Já para a Portaria 444, foram 963 especialistas e 6.840 espécies, ao passo que a Portaria 445 contou com uma análise de 5.416 espécies avaliadas por 360 especialistas.

Em razão desse processo, a diferença entre as Instruções anteriores é significativa: no caso da flora, 1755 novas espécies foram adicionadas e 89 retiradas. No caso da fauna, 395 e 88, respectivamente. Por último, no caso da Fauna Aquática, foram 325 novas espécies e 82 que saíram da lista.

O método de avaliação é feito com base em critérios internacionais – União Internacional para Conservação da Natureza (UICN). Caso os projetos fossem aprovados, haveria revogação das portarias mais recentes, fazendo com que as listas anteriores, consideravelmente menores, voltassem a ter validade.

Por essa razão, questiona-se mais o processo do que a própria composição das listas, o que parece ser um indicativo de que o projeto surgiu pelos motivos errados. Apesar da suspensão, os cientistas acreditam que o senador Caiado pode voltar à carga ao longo do ano legislativo.

Se você acha que a Lista de Espécies de Peixes e Invertebrados Aquáticos ameaçados de extinção (Portaria MMA 445/2014) é importante, dê sua opinião aqui.

Se você acha que o projeto de decreto legislativo que acaba com a Lista Nacional Oficial de Espécies da Fauna Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA 444/2014) é importante, dê sua opinião aqui.

Se você acha que o projeto de decreto legislativo que acaba com a Lista Nacional Oficial de Espécies da Flora Ameaçadas de Extinção (Portaria MMA 443/2014):é importante, dê sua opinião aqui.


Fonte:WWF Brasil
“Só com educação jovens podem atender necessidades da economia”.
Cyril Desponts: “Os jovens são o ativo mais importante do Brasil em um mundo que se movimenta rápido”. Foto: Shutterstock.

Para Cyril Desponts, designer do estudo global Youthonomics , Brasil precisa de uma reviravolta nas políticas públicas para que as perspectivas para os jovens melhorem.

Por Fernanda Nogueira, do Porvir –

A designer do estudo global Youthonomics, Cyril Desponts, é categórica ao falar sobre o que é preciso para melhorar a situação da juventude no Brasil: maiores investimentos em educação. Esse é o primeiro de uma lista de itens que inclui promoção de treinamento profissional, acesso a políticas de moradia, maior poder financeiro, controle das finanças públicas e aumento da participação política. “Desenvolver oportunidades educacionais é fundamental para assegurar que as competências adquiridas irão atender às necessidades da economia brasileira”, diz ela em entrevista ao Porvir.

O caminho é longo e muitas dificuldades terão de ser vencidas no país, de acordo com a designer, que se baseia nos dados usados para construir o ranking Youthonomics Global Index, criado pelo ex-presidente do Timor Leste e prêmio Nobel da Paz, José Ramos-Horta, e pelo ex-chefe de comunicações do International Herald Tribune, colunista e ativista Felix Marquardt.

O estudo avaliou dados de 64 países de acordo com o potencial de prosperidade de pessoas entre 15 e 29 anos em cada um deles. O Brasil ficou na 60a posição no índice geral, que leva em consideração 59 critérios, como taxas de desemprego entre os jovens, qualidade e custo da educação, capacidade de moradia, déficit público, acesso à tecnologia, liberdade religiosa e política.

O estudo tem como público-alvo eleitores, governos, e instituições internacionais, como o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e agências de risco. O objetivo é trazer os jovens de volta ao centro do debate político mundial. Para isso, a equipe do índex fará campanha nas Nações Unidas e no mundo para a adoção de um visto mundial, chamado Global Youth Visa, que permita que pessoas com menos de 25 anos possam trabalhar por até dois anos em qualquer país-membro.

Outro projeto é medir quanto as plataformas políticas de candidatos a governos pelo mundo têm os jovens como foco. O grupo quer ainda desenvolver um aplicativo para busca de empregos pelo mundo, além da criar uma base anual de dados sobre a juventude.

O desempenho ruim do Brasil foi parecido com o de outras grandes economias em desenvolvimento, como Rússia, Egito e África do Sul. O país ficou à frente apenas de Uganda, Mali, África do Sul e Costa do Marfim. O índice mostra uma clara divisão entre países desenvolvidos e nações em desenvolvimento. As grandes economias mundiais lideram, como mostra a lista, na ordem: Noruega, Suíça, Dinamarca, Suécia, Holanda, Austrália, Alemanha, Finlândia, Áustria e Canadá.

O índice traz subíndices, como o que mede a situação atual da juventude, o Youth Now, e o que mede perspectivas, chamado Youth Outlook. O Brasil figura na 54a posição no subíndice que fala sobre o presente. Os temas estudados foram educação básica, universidade e habilidades, acesso ao emprego, trabalho e condições de vida, bem-estar e saúde.

No subíndice sobre perspectivas, o país se sai pior, ficando em penúltimo lugar, na 63a posição, quando o assunto são finanças públicas, oportunidades econômicas e peso político. O ranking considera estes três temas para calcular a taxa de otimismo da juventude no país, o Youth Optimism.

O Brasil ficou na 32a colocação.

Isso não quer dizer, no entanto, que o país têm reais chances de melhorar a vida dos jovens, segundo Cyril. A posição significa apenas que há países em situação pior. “O Brasil não se classifica bem em otimismo. São outros países que se saem pior neste ranking, principalmente porque estão atualmente bem posicionados”, explica a designer.

Um país ideal, o Youthtopia, criado pelos pesquisadores para identificar boas práticas, teria características dos países líderes de cada um dos nove pilares do estudo, como a educação básica da Eslovênia, a universidade, as habilidades adquiridas e o acesso ao emprego da Suíça, as condições de trabalho e vida e as finanças públicas da Noruega, o bem-estar da Holanda, a saúde de Israel, as oportunidades da China, o peso político de Gana e o otimismo de Uganda.

Nos próximos meses, a equipe do Youthonomics pretende analisar as informações dos países de forma mais minuciosa e desagregada para divulgar novos relatórios com dados específicos de cada país. Para o Brasil, Cyril deixa um alerta. “Será preciso uma real reviravolta na política para que as perspectivas para os jovens melhorem”. Confira a entrevista com a designer:

Porvir – O que você acha da posição do Brasil no índice?

Cyril Desponts – A situação da juventude no Brasil é extremamente preocupante, já que acumula três categorias gerais de problemas. Primeiro, tem questões características de países em desenvolvimento: maus resultados em saúde, educação e universidades. Segundo, a atual geração jovem sofre com problemas econômicos conjunturais: alto índice de desemprego entre jovens e altas taxas de jovens sem emprego, sem educação e sem treinamento, assim como baixo crescimento atual e esperado. Terceiro e último, há problemas parecidos com os de economias avançadas: a situação das finanças públicas é preocupante – a dívida atual e o déficit são altos, mas, além disso e mais importante, gastos futuros em saúde e pensões irão pesar fortemente sobre a próxima geração de pessoas ativas, que terá de financiá-los: a juventude. O Brasil tem ainda o pior resultado da amostra em relação à vulnerabilidade financeira da juventude. Será preciso uma real reviravolta na política para que as perspectivas para os jovens melhorem.

Porvir – Qual sua opinião sobre as informações do Brasil relacionadas à educação?

Desponts – Quando falamos sobre educação pré-universitária, o que as informações disponíveis sobre o Brasil parecem sugerir é que as crianças vão à escola, mas a educação é de baixa qualidade. 

Após a educação secundária, as informações sugerem que poucos jovens brasileiros prosseguem por muito tempo nos estudos, enquanto que a qualidade desta educação não é das melhores. A educação profissional também não é muito difundida, e desenvolver estas oportunidades educacionais é fundamental para assegurar que as competências adquiridas irão atender às necessidades da economia brasileira. Embora tenham crescido na última década e meia, os gastos públicos com educação ainda são baixos quando comparados com a quantidade de jovens, e o maior investimento em educação é fundamental para aumentar a qualidade da educação. O Brasil tem poucas informações comparáveis sobre educação disponíveis. Coletar e publicar este tipo de dado poderia também ser um passo importante para uma melhor análise das necessidades do sistema educacional, e melhores políticas para os jovens.

Porvir – Que tipo de políticas para a juventude você vê como mais urgentes no Brasil?

Desponts – Até agora, o índice global Youthonomics, por meio de seus subcomponentes (pilares e subpilares), identificou áreas de vulnerabilidade, nas quais a análise será aprofundada gradualmente. 

Com comparações entre países, o Youthonomics irá identificar as melhores práticas em políticas para a juventude ao redor do mundo, que poderão ser reproduzidas por países como o Brasil. Elas podem incluir, mas não se limitam a apenas estes itens: maiores investimentos em educação; promoção de treinamento profissional, para adaptar melhor as habilidades dos jovens às necessidades do mercado de trabalho; acesso a políticas de moradia; maior poder financeiro, principalmente por meio de incentivos ao empreendedorismo; contabilidade geracional nas finanças públicas para garantir que passivos financeiros deixados para os jovens não constituam uma dificuldade maior do que eles serão capazes de suportar; políticas voltadas para o aumento da participação política dos jovens. 

Certamente, não há uma “pílula mágica”, já que a solução reside, em parte, no crescimento econômico, na criação de empregos e melhores condições de vida para o país como um todo, mas as políticas precisam assegurar que os jovens tenham e terão sua parte de forma justa.

Porvir – Nos últimos meses, tivemos no Brasil um movimento de ocupação de escolas públicas no estado de São Paulo, criado pelos próprios alunos. Eles decidiram protestar contra mudanças definidas pelo governo, como o fechamento de escolas e a mudança de estudantes para outros locais. Depois de muitos protestos, eles ganharam a batalha e o governador desistiu da mudança. Você acha que este tipo de movimento é capaz de melhorar a vida dos jovens?

Desponts – Este tipo de movimento surge porque os estudantes se sentem excluídos do processo decisório nacional. Nesses casos, é importante que eles tenham suas vozes ouvidas por meio deste tipo de movimento já que formas convencionais, como as urnas, deixaram de lhes fornecer uma representação adequada. O movimento fala em nome de uma geração que corre o risco de falhar por causa das elites políticas. Então eles precisam perceber quanta energia produzem, os jovens são o sangue vital da economia das nações, a base de seu potencial inovador, a chave para sua competitividade e para o futuro dos países. Eles são o ativo mais importante do Brasil em um mundo que se movimenta rápido. Maltratar a juventude não é só injusto e imoral. É uma visão perigosamente curta. Este tipo de movimento é capaz de ajudar a levar os jovens de volta ao centro do debate político.


Fonte: Porvir
Olimpíada? Não, obrigado.
Como uma campanha popular enfrentou um poderoso lobby de empresários e ajudou a derrubar a candidatura de Boston para sediar os Jogos Olímpicos de 2024.

Por Giulia Afiune, para a Agência Pública –

Faltando apenas seis meses para os Jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro chegou aos assuntos mais comentados no Twitter por causa da poluição na baía de Guanabara – ao mesmo tempo em que pesquisadores da Universidade de Nova York chegaram a pedir que a Olimpíada fosse adiada ou até mesmo cancelada por causa da epidemia de Zika.

Sediar uma Olimpíada pode ter sido uma grande glória no passado, mas tem se tornado um fardo político e econômico que cada vez menos cidades estão dispostas a carregar.

Há um ano, Boston, no estado de Massachusetts, costa leste dos Estados Unidos, contemplava a possibilidade de realizar os Jogos Olímpicos de 2024 em sua região metropolitana. Parecia uma boa ideia levar o megaevento para um local onde o amor pelos esportes é visível por todo lado: em bares lotados durante partidas de futebol americano dos New England Patriots, em outdoors que estampam o time de basquete Boston Celtics ou nos incontáveis bonés de beisebol dos Red Sox vistos no metrô na hora do rush.

No entanto, a perspectiva de uma Olimpíada em Boston teve vida curta. Em janeiro de 2015, o município foi escolhido pelo Comitê Olímpico Americano (United States Olympic Committee, o USOC) para representar os Estados Unidos no concurso global para a cidade-sede de 2024. Sete meses depois, o USOC mudou de ideia.

O índice de apoio entre os moradores da região havia caído de 51% em janeiro para 40% em julho. Já a rejeição tinha aumentado de 33% para 53%, segundo pesquisas de opinião.

A intensa discussão que ocorreu na cidade nesse período ficou cristalizada em um debate organizado no dia 23 de julho de 2015 pelo jornal Boston Globe e pela emissora de TV Fox25. De um lado, estavam representantes do Comitê Olímpico americano e do Boston 2024, grupo privado de influentes executivos que estava por trás da candidatura (confira aqui). Para eles, a Olimpíada significava uma chance de criar empregos, atrair investimentos privados e catalisar o desenvolvimento da cidade. Do outro lado, estava um jovem membro do No Boston Olympics, o mais influente grupo de oposição ao plano, e também um economista que estuda os meandros financeiros das Olimpíadas (veja aqui). Ambos argumentavam que não valia a pena sediar os jogos: os recursos públicos deveriam ser investidos em áreas mais importantes para a cidade.

Quatro dias depois, ficou claro quem venceu o debate. Era o fim da candidatura de Boston.

O plano do Boston 2024

A possibilidade de realizar a Olimpíada na cidade começou a ser explorada em 2012. O plano ganhou fôlego no fim de 2013, quando chegou às mãos do empresário John Fish, CEO da Suffolk Construction, a maior empreiteira de Boston e uma das maiores empresas privadas dos Estados Unidos. Sob a liderança de Fish, foi formado o Boston 2024, um grupo privado de altos executivos ligados à construção civil, ao mercado financeiro e ao mercado dos esportes, que elaborou e sustentou a proposta para a Olimpíada.
O Boston 2024 propôs um estadio olímpico temporário para os Jogos em Boston. O objetivo era reduzir custos do plano. Foto: Reprodução Boston 2024.

No começo, tinham apoio de figuras influentes como o ex-governador de Massachusetts e candidato republicano à presidência em 2012, Mitt Romney; a Massachusetts Competitive Partnership, que reúne CEOs de diversas empresas do estado; e Steve Pagliuca, um dos donos do time de basquete Boston Celtics – que mais tarde substituiu Fish como presidente do conselho do grupo.

Segundo o Boston 2024, a Olimpíada em Boston seria econômica, rentável e inteiramente financiada com recursos privados. O plano iria reduzir o número de obras necessárias aproveitando estruturas esportivas e alojamentos já existentes nas 35 universidades espalhadas pela cidade. Para evitar “elefantes brancos”, o estádio olímpico e a vila dos atletas seriam erguidos como estruturas temporárias e depois transformados em conjuntos habitacionais.

Para sediar os jogos, eram necessárias algumas melhorias em infraestrutura, como transporte público e obras viárias, mas o Boston 2024 dizia que estas já estavam planejadas e financiadas com recursos públicos.

Mudando a conversa

O que o Boston 2024 não antecipou foi o barulho causado pela oposição, formada por acadêmicos e dois principais grupos de ativistas: o No Boston 2024 e o No Boston Olympics, que se tornou mais influente.

O No Boston Olympics nasceu no fim de 2013, em uma conversa informal entre amigos na sala de um apartamento em um bairro nobre no centro de Boston. Chris Dempsey, Conor Yunits e Liam Kerr, o dono do apartamento, estavam incomodados com o discurso positivo que a mídia divulgava sobre a Olimpíada – e decidiram se organizar para oferecer um contraponto.
Logo do No Boston Olympics fazia referência aos anéis das Olimpíadas. Na foto, adesivos que a organização estava vendendo. Foto: Crédito: printprincipal.com.

“A gente precisava fornecer um ponto de vista alternativo, que não estávamos ouvindo de mais ninguém”, conta Kelley Gosset, de 35 anos, que se tornaria codiretora do No Boston Olympics. 

“Fomos tomar um café em uma manhã de domingo para discutir estratégias, o que nós poderíamos fazer para divulgar nossas ideias de forma mais efetiva e como argumentar de forma persuasiva.”

O pequeno grupo trabalhou sem parar pesquisando os efeitos dos Jogos Olímpicos em cidades-sede. “As pessoas não são necessariamente especialistas nas Olimpíadas – nós também não éramos. Eu mesma não sabia que não gostava das Olimpíadas”, conta Kelley. O principal objetivo do grupo era oferecer ao público informações e análises qualificadas sobre os jogos, para que tirasse as próprias conclusões. “As pessoas estavam sedentas por informações que nós estávamos felizes em fornecer”, resume.

Ela conta que ouvia muitas críticas no começo. “As pessoas diziam ‘Você não devia fazer isso’, ‘Essa é uma má ideia’, ‘Isso vai prejudicar sua carreira’”. No entanto, isso não a impediu de seguir em frente. “Eu sentia que era a coisa certa a se fazer.”

O No Boston Olympics era contra o evento principalmente por causa do alto custo pago pela população. “Todas as Olimpíadas nos últimos 60 anos custaram mais do que o previsto no orçamento. Esses são recursos públicos escassos e preciosos que poderiam ser mais bem utilizados em áreas mais importantes, como educação, habitação e transporte, em vez de em um evento de três semanas”, diz Kelley.

Cheque em branco

Ainda que o plano do Boston 2024 previsse só recursos privados, o Comitê Olímpico Internacional exige que as cidades-sede paguem pelos gastos acima do previsto – uma espécie de cheque em branco assinado pelos contribuintes. A exigência do COI está no contrato firmado com a cidade-sede e funciona como uma garantia de que a Olimpíada vai acontecer, mesmo que à custa da população.

O economista Andrew Zimbalist, autor do livro “Circus Maximus: O jogo econômico por trás das Olimpíadas e da Copa do Mundo”, estimou em um artigo publicado na revista da Universidade Harvard que cada Olimpíada custa, em média, 252% a mais do que o previsto. Os jogos de Londres de 2012, por exemplo, custaram US$ 18 bilhões, e a previsão inicial eram U$S 6 bilhões. Segundo ele, isso acontece porque as cidades-sede apresentam propostas com orçamentos baixos demais para ganhar o apoio do público – que irá pagar o excesso depois.

“O orçamento foi pensado assim para parecer que os jogos seriam acessíveis e que não haveria déficits para a população cobrir”, avalia ele, sobre a proposta de Boston. “[O Boston 2024] precisava de apoio político do governador e da atual legislatura e precisava que os cidadãos fossem a favor do plano. Para convencê-los, tentaram fazer parecer que o plano era economicamente viável, mas ele nunca foi”, analisa o economista em entrevista à Pública. Ele criticava, por exemplo, a proposta de construir estruturas esportivas temporárias. “Em teoria, a justificativa para sediar a Olimpíada é que você gasta muito dinheiro, mas depois você fica com coisas que você quer e precisa. Se elas são todas temporárias, não sobra nada”, resume.
O No Boston Olympics argumentava que o COI exigia um cheque em branco assinado pelos contribuintes. A imagem acima foi usada em campanhas da organização. Foto: Reprodução/Twiter No Boston Olympics.

Além dos US$ 4,7 bilhões de custos operacionais que viriam do Boston 2024, eram esperados US$ 3,4 bilhões da iniciativa privada para as obras, US$ 1 bilhão do governo federal para cobrir custos de segurança e US$ 5,2 bilhões que seriam direcionados para obras de infraestrutura que já estavam previstas no orçamento da cidade e do governo do estado. “Não dava para acreditar nos números. Na primeira versão do plano, eles diziam que US$ 5,2 bilhões seriam gastos em infraestrutura. Mas o líder do comitê de transportes da Câmara dos Deputados disse que seriam necessários cerca de US$ 13 bilhões”, acrescenta Zimbalist.

Robert Boland, professor de Administração em Esportes da Universidade de Ohio, acredita que o Boston 2024 não conseguiu deixar claros os potenciais benefícios de sediar a competição. “Um dos desafios para vencer o concurso e sediar um megaevento é identificar o bem público que isso trará. E também é preciso constatar as vantagens concretas que isso trará no longo prazo”, ele explica. No caso de Boston, diz, “claramente não havia um plano atraente para as pessoas”.

“Outro grande problema foi que, quando Boston foi escolhida pelo USOC, o plano para os Jogos Olímpicos não tinha sido divulgado. Então ninguém sabia o que eles iam fazer. Era só ‘acredite na nossa palavra, nós temos um bom plano que não vai custar dinheiro público’”, diz Zimbalist. Os documentos que detalhavam o plano foram divulgados pouco a pouco, graças à pressão da população, de políticos locais e da mídia, que fez vários pedidos por meio da lei de acesso à informação americana.

No Boston Olympics: ativismo online e presencial

Enquanto o Boston 2024 escondia seus documentos, a tática do No Boston Olympics era disponibilizar informações para jornalistas e para o público.
Apoiadores do No Boston Olympics pedem habitação e transporte, em vez de Olimpíadas. Foto: Reprodução/Twiter No Boston Olympics.


A conta no Twitter e a página no Facebook estavam sempre repletas de dados e análises. “As mídias sociais ajudaram a amplificar os argumentos que a oposição estava tentando trazer para um público maior”, observa Jules Boykoff, professor da Pacific University Oregon e estudioso dos movimentos sociais relacionados às Olimpíadas.

O grupo usou estratégias diversas para divulgar sua mensagem. “Nós ficamos associados com as mídias sociais, mas também escrevemos editoriais, fizemos comentários em rádio e em outros canais de comunicação, demos respostas para reportagens, demos informações para legisladores que tinham perguntas”, conta Gosset.

Boykoff diz que foi uma estratégia poderosa. “É impressionante como eles influenciaram a discussão nos círculos midiáticos tradicionais. Se você olhar a cobertura dos jornais Boston Herald, Boston Globe e outros, percebe pelo jeito que os jornalistas escreviam as matérias que eles estavam seguindo esses grupos no Twitter.” No entanto, essa estratégia foi combinada com táticas mais tradicionais, como reuniões com a população, prefeito, governador e até mesmo com o Boston 2024. “A mistura entre fazer ativismo online e comparecer a reuniões é parte do nosso momento contemporâneo”, diz Boykoff.

Walsh recua

A oposição vocalizada por ativistas, pelas redes sociais e pela mídia tradicional cresceu tanto que o Boston 2024 não podia mais ignorá-la. Em março de 2015, o grupo anunciou que faria um referendo sobre o tema. Mas não deu tempo. Em julho, mais da metade da população se dizia contra a realização da Olimpíada em Boston.

A falta de apoio deixou o prefeito Marty Walsh em uma situação desconfortável. Inicialmente defensor da Olimpíada, ele estava sendo pressionado para firmar o contrato de cidade-sede, o que selaria seu compromisso de que a população arcaria com todos os custos extras dos jogos.

Em 27 de julho, Walsh se recusou a assinar o contrato. “Eu não vou assinar um documento que arrisque nenhum dólar do dinheiro dos contribuintes para cobrir custos excedentes na Olimpíada”, disse à imprensa. Horas depois, o USOC e o Boston 2024 decidiram retirar a candidatura de Boston.

Ativismo anti-Olimpíadas no mundo

Depois do que aconteceu em Boston, o Comitê Olímpico Americano escolheu Los Angeles para representar os Estados Unidos no concurso para sediar os jogos de 2024. Também competiam Hamburgo, Roma, Budapeste e Paris.

No entanto, a oposição à Olimpíada está se espalhando e ganhando fôlego também nessas cidades. E o sucesso tornou o No Boston Olympics uma referência.
Moradores de Boston levantam cartazes contra as Olimpíadas de 2024 em reunião do No Boston Olympics. Índice de rejeição aos Jogos chegou a 53% da população. Foto: Reprodução/Twiter No Boston Olympics.

Em novembro do ano passado, Hamburgo decidiu que não iria mais ser a candidata alemã após um referendo mostrar que 52% da população era contra. O No Boston Olympics esteve lá em outubro de 2015, a convite dos ativistas alemães. “Foi maravilhoso. Nós discutimos a importância das mídias sociais, da pesquisa que nós criamos”, conta Kelley Gosset.

Já em Roma, o grupo de esquerda Radicali Italiani começou uma campanha no início deste ano para levar a questão para as urnas. Ativistas em Budapeste buscam o mesmo. “Eles entraram em contato com a gente”, revela a codiretora do No Boston Olympics. “Por enquanto, é uma conversa preliminar, e o interesse deles é no nosso trabalho, na nossa história e nas lições aprendidas. Essa conexão é importante porque dá continuidade a um mergulho nas análises sobre as Olimpíadas que permite um olhar crítico para os custos e benefícios para as cidades-sede.”

Para Jules Boykoff, a “atmosfera” que envolve os jogos tem mudado. “Esse é o legado da Olimpíada de inverno em Sochi, na Rússia, em 2014, quando o custo ultrapassou US$ 50 bilhões”, diz. “Há uma tendência clara de populações em potenciais cidades-sede de estarem mais conscientes dos possíveis lados negativos de sediar as Olimpíadas. As pessoas estão falando sobre isso. Mais pessoas estão tendo a chance de dizer: obrigado, mas não, obrigado.”


Nova lista do trabalho escravo traz 340 nomes.
Um trabalhador de uma plantação de mandioca em Pesqueira, Estado de Pernambuco, no Nordeste do Brasil, mostra suas mãos destruídas, que denunciam seu trabalho em regime de escravidão. Foto: Alejandro Arigón/IPS.

InPacto e Repórter Brasil publicam terceira edição da “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo”, que traz o nome de pessoas e empresas flagradas com uso de mão de obra análoga a de escravo.

Por Redação do Greenpeace Brasil – 

Acaba de ser publicada a terceira edição da “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo”, que traz dados atualizados sobre empregadores autuados por uso de trabalho análogo ao de escravo e que tiveram decisão administrativa final entre dezembro de 2013 e dezembro de 2015.

O documento traz o nome de 340 pessoas e empresas envolvidas com este tipo de crime. A lista, obtida através da Lei de Acesso à Informação, é a única ferramenta de consulta disponível atualmente para o bloqueio de fornecedores envolvidos com a escravidão contemporânea. Já que o Supremo Tribunal Federal mantém, desde dezembro de 2014, a controvérsia decisão de bloquear o documento publicado semestralmente pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

“O direito à informação é fundamental para que as empresas possam limpar suas cadeias produtivas deste crime e impedir que seus consumidores sejam cúmplices dessa violação de direitos humanos”, afirma Adriana Charoux, da Campanha Amazônia do Greenpeace.

O documento é essencial para que companhias comprometidas com o Desmatamento Zero, com a Moratória da Soja e com o Compromisso Público da Pecuária possam cumprir com os critérios mínimos de tais acordos, como é o caso da rejeição de fornecedores que usam trabalho escravo. Na maioria das vezes, a destruição das florestas e a violação de direitos humanos andam lado a lado.

As informações da “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo” foram compiladas pelas ONGs InPacto e Repórter Brasil a partir de dados fornecidos pelo Ministério do Trabalho e Previdência Social. Por conta da divulgação da “Lista de Transparência sobre Trabalho Escravo Contemporâneo no Brasil”, as duas ONGs chegaram sofrer processos judiciais, visando à censura do nome de empregadores envolvidos com trabalho análogo ao de escravo. Os processos foram arquivados, pois segundo entendimento da justiça “tratou-se, de fato, do exercício regular do direito de informar”.

No caso da pecuária, a ausência da lista suja é especialmente preocupante. Segundo dados do MTE, em 2014 a atividade pecuária era a atividade exercida por 40% de empregadores flagrados utilizando mão de obra escrava.

Em meio a tantos retrocessos em termos de transparência de dados que favorecem os direitos humanos e de conservação da floresta, é urgente que todas as empresas assumam de forma mais contundente a rejeição ao trabalho escravo. Por isso queremos que os maiores supermercados do Brasil criem políticas e práticas públicas em que se comprometam com o fim do desmatamento e trabalho escravo na Amazônia, informando seus consumidores sobre suas práticas e bloqueando fornecedores envolvidos com estes crimes. Saiba mais em carneaomolhomadeira.org.br.