segunda-feira, 31 de julho de 2017

Qual valor dos povos indígenas no planejamento energético brasileiro?
Autor Sucena Shkrada Resk - 24/07/2017
Como o componente indígena entra na agenda socioambiental de planejamento da matriz elétrica brasileira, em especial, com relação a grandes empreendimentos hidrelétricos? Esse foi um dos pontos destacados durante o diálogo entre representantes de organizações não governamentais, que integram o Grupo de Trabalho de Infraestrutura, com equipe técnica da Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE), no dia 17 de julho. O encontro ocorreu, na sede da empresa, no Rio de Janeiro. Esta é a segunda rodada de diálogo estabelecida desde 05 de maio (veja também Organizações socioambientais abrem espaço de diálogo com EPE para discutir planejamento da matriz elétrica) .

A EPE apresentou uma visão geral da metodologia do planejamento energético no país que no recorte socioambiental, segundo a empresa, tem quatro critérios: modicidade tarifária, segurança energética, áreas protegidas e mudanças climáticas. E é no chamado índice socioambiental, nos estudos de inventário hidrelétricos, que um dos aspectos socioambientais são as populações indígenas e tradicionais.

No mesmo momento, a 2.500 quilômetros de distância, na divisa do Pará e Mato Grosso, acontecia um caso real que demonstra a necessidade de maior empenho nesta agenda. Indígenas Munduruku ocupavam pacificamente canteiro de obras da Usina Hidrelétrica São Manoel (que aguarda aprovação de licença de operação do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – Ibama). O grupo com cerca de 140 pessoas, entre crianças, adultos e idosos, reivindicavam seus direitos no processo de implementação dos grandes empreendimentos hidrelétricos, desde a fase de consulta. A ocupação foi encerrada no dia 20, mas a mobilização continua (veja mais em Somos feitos do sagrado!).

Para a compreensão do contexto da mobilização, o GT Infraestrutura entregou aos representantes da EPE cópias das cartas de reinvindicações dos Munduruku e um dossiê produzido pelo Fórum Teles Pires (FTP), um coletivo de organizações da sociedade e movimentos sociais…., em que indígenas também das etnias Apiaká e Kayabi expõem os problemas enfrentados pelas comunidades.  O Ministério Público Federal atua neste caso e mediou reunião que ocorreu no dia 19/07, entre os indígenas, o presidente da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), Franklimberg de Freitas, e representantes das usinas. Na região, além da São Manoel, está em funcionamento a UHE Teles Pires, iniciada em 2010.

“Este caso leva a um ponto de reflexão: evitar que se repita esse atropelo também nos processos de planejamento das UHE de Castanheira e de Tabajara”, alertou Brent Millikan, da ONG International Rivers – Brasil. A primeira, prevista para ser construída no rio Arinos, na bacia do rio Juruena, no município de Juara, Mato Grosso. A outra usina planejada para ser construída no Rio Ji-Paraná, em Machadinho D’oeste, Rondônia. Ambas constam no Plano (PDE).

Sérgio Guimarães, um dos fundadores do Instituto Centro de Vida (ICV) e facilitador do GT Infraestrutura, propôs que o caso ‘munduruku’ seja analisado como aprendizado quanto ao componente indígena/socioambiental nos estudos de pesquisa energética/elétrica da EPE. “Propomos que a EPE convide representantes dos povos indígenas para envolvê-los em discussão interna a respeito desta pauta de como incluir e ouvir as comunidades indígenas potencialmente impactadas antes da tomada de decisão da construção de obras”, sugeriu.

“A questão socioambiental é pensada em todas etapas do planejamento… A ideia é cada vez mais incorporar o socioambiental. Muitas vezes é uma oportunidade e não um entrave”, disse Ricardo Gorini, diretor de Estudos Econômicos, Energéticos e Ambientais da EPE.

Aprofundamento na Convenção 169 da OIT

Hermane de Morais Vieira, da equipe da EPE, citou que atualmente é um bom momento para aprofundar os estudos socioambientais entre inventário e planejamento dos empreendimentos. “De estudar o meio biótico, de como colocar questões culturais de longo prazo para a hidrelétrica. A Convenção 169 da OIT, que determina consulta prévia, livre e informada, tem interferência direta em questões indígenas e é preciso saber como fazer compensação indígena com relação a recursos hídricos. Temos uma moratória para poder estudar estes temas e conhecimentos agora para permitir melhores decisões no futuro”, avaliou.

Segundo Izaura Ferreira Frega, superintendente de Meio Ambiente da EPE em entrevista ao ICV, foi criado um grupo interno de trabalho, sobre a Convenção 169 da OIT. “Estamos produzindo um material a ser discutido em outros fóruns, com experiências que identificamos pontos a avançar. Mas é bom colocar que esta é uma questão maior de governo, que envolve diferentes ministérios, desde Minas e Energia e Meio Ambiente à Justiça e Casa Civil”, disse.

A superintendente de Meio Ambiente expôs que a empresa contratou um estudo de impacto ambiental e de componente indígena para avaliação do licenciamento do empreendimento da UHE Castanheira. “Estamos em diálogo com as tribos, por meio da consultora, e apresentação dos estudos de viabilidade para a FUNAI para continuar o processo, buscando os pleitos das diferentes etnias”.

Consulta pública do PDE 2026 está prevista até o dia 6 de agosto

O GT Infraestrutura solicitou que a consulta pública do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2026 seja prorrogada para que o GT Infraestrutura possa fazer uma contribuição conjunta, dando oportunidade também a outros interessados. O prazo atual é até o dia 6 de agosto. Além dos pontos socioambientais destacados, as ONGs expuseram a necessidade de se aprofundar estudos de efeitos cumulativos dos empreendimentos, em especial na Bacia do Juruena, onde estão previstas 114 usinas de pequeno a grande porte, como também de impactos a pessoas que vivem à jusante, e de estudos migratórios dos peixes, entre outros.

O GT Infraestrutura, nesta reunião, teve a participação de representantes da Amigos da Terra,  do Instituto ClimaInfo, do Greenpeace, do Instituto Centro de Vida – ICV, do Instituto de Energia e Meio Ambiente – IEMA, do Instituto Escolhas, do Instituto Socioambiental (ISA), da International Rivers-Brasil, da Rede de Barragens Amazônicas (RBA), da TNC – Brasil e do WWF – Brasil, do WRI – Brasil, além de membros da Frente por uma Nova Política Energética, da Campanha Energia para a Vida, do Observatório do Clima e do Instituto Clima e Sociedade, e do consultor Tasso Azevedo.



Fonte: ICV
Desafio do atual Sistema Mato-Grossense de Cadastro Ambiental Rural (Simcar): garantir a regularização ambiental para agricultura familiar e povos e comunidades tradicionais.
Autor Sucena Shkrada Resk - 24/07/2017
O estado de Mato Grosso lançou, em maio, o Sistema Mato-Grossense de Cadastro Ambiental Rural (Simcar) e um dos desafios é garantir a inclusão de agricultores familiares e de povos e comunidades tradicionais, por meio de modelos de cadastros adequados às especificidades desses grupos. Essa é uma questão considerada prioritária pelo Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad), em evento realizado neste mês. O Instituto Centro de Vida (ICV), que integra este espaço de diálogo de movimentos e organizações socioambientais e de direitos humanos, deu início a um trabalho voltado a apoiar a efetivação do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que é uma exigência estabelecida no atual Código Florestal, de 2012.

Cinco anos se passaram e o estado ainda não conseguiu fazer este mapeamento ambiental dos imóveis rurais. Como diz a lei, a principal finalidade é de se estabelecer a formação de base de dados estratégica para o controle, monitoramento e combate ao desmatamento das florestas e demais formas de vegetação nativa do Brasil, além do planejamento ambiental e econômico desses imóveis.

Vinícius Silgueiro, engenheiro florestal que coordena o Núcleo de Geotecnologias do ICV, explica as frentes de atuação que estão sendo desenvolvidas pela equipe para apoiar a efetivação deste objetivo, que têm o apoio da Climate and Land Use Alliance (Clua). Segundo ele, uma das atividades é voltada à mobilização para a realização dos cadastros dos proprietários dos imóveis rurais, acompanhados de informação sobre este trâmite, e também por meio da capacitação de agentes técnicos dos municípios. A iniciativa ainda apóia municípios para a retificação dos cadastros (que estavam na base de dados do SICAR, federal) para que sejam regularizados nesta nova plataforma estadual.

De acordo com a Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), a decisão para a migração decorreu de problemas na implementação do SICAR em Mato Grosso. Em três anos nesta plataforma, só conseguiu analisar 2,5 mil CAR e ter menos de 100 aprovados, em uma base de 113,5 mil cadastros. 

Uma das modificações introduzidas para assegurar a confiabilidade das informações no sistema estadual (que é integrado ao nacional) é que qualquer pessoa pode se inscrever, desde que tenha cadastro no Sistema Integrado de Gestão Ambiental (SIGA) e possua uma certificação digital (e-CPF).

“Acompanhamos a secretarias estadual e municipais para a implementação do Simcar, ao produzir bases cartográficas de referência para contribuir no processo de retificação, análise e validação dos cadastros. Nosso papel também é apoiar  assentamentos e povos e comunidades tradicionais para obterem procedimentos que os possam contemplar”, explica Silgueiro.

O coordenador do Núcleo de Geotecnologias do ICV analisa que uma das principais ações a serem realizadas é a produção de uma base de dados espacial, que indique a localização e distribuição dos territórios e imóveis rurais ocupados por esses grupos sociais, que a SEMA não dispõe hoje. “O Instituto de Terras de Mato Grosso (Intermat) também precisa especializar os assentamentos sob sua responsabilidade, saber onde começam e terminam esses imóveis, quem os ocupam e ter atualizada a documentação dos mesmos. Para o CAR, isto é fundamental. Já com relação aos assentamentos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA), existe uma base de dados, que deve ser aproveitada”, alerta.

Em um segundo momento, Silgueiro expõe a importância de ser estruturado um processo de discussão para o desenho de soluções técnicas com o órgão. “Isso só será possível com o apoio e participação dos demais parceiros e das representações dos povos e comunidades tradicionais interessadas em construir esta resolução adequada”, diz.

No contexto dos desafios, no entanto, é importante frisar que existe um papel crucial tanto de competência do Estado, como da União, quanto a homologações de terras quilombolas e regularização de projetos de assentamentos. “Hoje há 72 terras quilombolas em Mato Grosso, mas somente três foram homologadas. E mais de 400 assentamentos estão à margem dos benefícios, que o Código Florestal trouxe para a agricultura familiar, por causa desses processos de regularização lentos”, constata.

Veja também:


Fonte: ICV

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Brasil deve dar prioridade ao combate às desigualdades regionais.
África 21 Digital, com Agência Brasil – 

 O Brasil precisa priorizar o combate às desigualdades regionais se quiser alcançar as metas dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Organização das Nações Unidas (ONU), ligados diretamente à criança e ao adolescente, indica estudo divulgado hoje (25) pela Fundação Abrinq, no Rio de Janeiro.

Dos 17 ODS, dez têm metas diretamente associadas à infância e adolescência. A pesquisa “A Criança e o Adolescente nos ODS – Marco zero dos principais indicadores brasileiros – ODS 1, 2, 3 e 5” visa complementar relatório voluntário entregue pelo governo à ONU, na semana passada. Nesse primeiro lançamento, foram selecionados quatro dos dez objetivos: erradicação da pobreza, fome zero, saúde e bem-estar e igualdade de gênero.

No balanço geral, o Brasil cumpriu sete dos oito Objetivos do Milênio, voltados para os países em desenvolvimento, com exceção da meta de redução da mortalidade materna.
A administradora executiva da Abrinq, Heloisa Oliveira, ressaltou que, apesar dos avanços na última década, há regiões do país e grupos sociais cujos dados apontam extrema desigualdade e que são camuflados pela média nacional. Para que os objetivos traçados para 2030 sejam cumpridos, disse ela, todos os grupos sociais e regiões do pais precisam estar incluídos nas metas.

“Nossas estatísticas são boas, mas muitos dados precisam ser desagregados. Vivemos em um país extremamente desigual. Olhando a média nacional dá para pensar que alguns indicadores estão bons, mas precisamos olhar para as diferentes realidades brasileiras para enxergar onde estão os desafios”, afirmou.

Avanços e discussão

“Precisamos implementar os ODS a nível local porque somente assim avançaremos. É preciso aprofundar e detalhar mais a discussão, elaborar um ponto de partida de todos os indicadores, investir em novas estatísticas para sabermos de onde estamos saindo e para onde vamos”, explicou.

A Abrinq é uma das oito organizações selecionadas, por meio de edital, para debater e implementar a chamada Agenda 2030 na Comissão Nacional para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.

De acordo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD-2015), 27% dos habitantes vivem com até meio salário mínimo por mês. Mas esse percentual sobe para 40,2% se for feito um recorte da população de 0 a 14 anos, ultrapassando a casa dos 60% de crianças e adolescentes em situação de pobreza em estados como Alagoas, Maranhão, Ceará, Bahia e Pernambuco.

“Não podemos falar de uma agenda para 2030 sem priorizar esse grupo que será a população economicamente ativa, adulta, e que vai de fato viver nesse mundo de 2030. Não podemos falar de futuro sem falar de criança e adolescente”, disse a representante da Abrinq.

Em relação à mortalidade infantil, apesar de uma progressiva melhora nos indicadores, em 2015, para mil nascidos vivos, 14,3 morreram, pouco mais da metade da taxa do ano 2000 (30,1 por mil nascidos vivos). Já os óbitos entre menores de um ano ficaram em 12,4, para mil nascidos vivos, no mesmo período (a taxa era de 26,1 por mil nascidos vivos em 2000).

Em 2015, a taxa de mortalidade materna era de 54,9 para cada 100 mil nascidos vivos. Heloísa ressaltou que, embora a média nacional não seja alta a nível nacional, no que diz respeito à morte materna, ela está muito acima da média em alguns estados, como Tocantins, Maranhão, Roraima, Piauí e Amapá. “São números de óbitos muito altos por causas evitáveis. Por isso, precisamos de estratégias específicas para tratar essas diferenças regionais”.

O Brasil conseguiu sair do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) em 2014. A pobreza na infância foi prioridade das ações governamentais com a criação do Programa Brasil Carinhoso e a mudança nos critérios do Programa Bolsa Família.

Objetivos da ONU

Em 2000, 191 países que integram as Nações Unidas assinaram compromisso de atingir os  Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM), cujo prazo final terminava em 2015. Aquele pacto global era voltado apenas a países pobres e em desenvolvimento.

Em 25 de setembro de 2015, 193 países das Nações Unidas adotaram a Resolução “Transformando Nosso Mundo: a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável”, com 17 objetivos e 169 metas que devem ser cumpridos por todas as nações – os chamados Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Fonte: ENVOLVERDE
“A reinvenção do The New York Times”.
Por Teresa Mioli/AM – 

 O Centro Knight publicou o novo livro eletrônico em espanhol “A reinvençao do The New York Times: Como a ‘dama cinza’ do jornalismo está se adaptando (com êxito) à era móvel”, do jornalista catalão Ismael Nafría.

A partir da análise da disrupção da indústria informativa após o surgimento da revolução digital,  Nafría examina a reinvenção do Times durante os últimos 20 anos. A meta: descobrir lições úteis para outros meios, “independente de seu tamanho ou localização”.

“A transformação vivida – e que no entanto continua a acontecer – pelo The New York Times é um dos processos de reinvenção mais proeminentes ocorridos na história da indústria jornalística. O produto jornalístico, o modelo de negócios, a relação com os leitores e anunciantes, a maneira de trabalhar, a configuração da equipe, tudo mudou”, escreveu Nafría. “Apenas uma coisa se manteve invariável durante todo esse tempo: a inequívoca vontade da empresa editora de apostar a todo momento no jornalismo e na informação da mais alta qualidade possível como base principal do seu negócio”.
O livro, dividido em quatro partes, começa com textos concisos e resumos visuais sobre a inovação e a transformação do Times, incluindo dez conclusões e lições sobre a reinvenção digital do jornal.

Na segunda parte, Nafría faz uma crônica das “duas décadas de reinvenção digital” no Times, desde o lançamento do @times no America Online em 1994 até 2017, quando as edições impressa e digital do Times acumularam mais de três milhões de assinantes.

Na terceira seção, Nafría foca em projetos digitais específicos desenvolvidos pelo Times nos últimos anos, incluindo o NYT Beta e as numerosas newsletters produzidas pela publicação. Finalmente, a quarta parte analisa as outras fontes de receita do The New York Times, entre elas a organização de eventos ao vivo e conferências, assim como as viagens educativas.

“Eu acredito que este livro pode interessar a diferentes públicos. Por um lado, qualquer pessoa relacionada ao negócio dos jornais: o caso do Times oferece lições que podem ajudar.  A primeira parte do livro foi especialmente desenvolvida para eles”, disse Nafría ao Centro Knight. “Por outro lado, aqueles que gostam, têm interesse ou sentem curiosidade em saber mais sobre o The New York Times encontrarão muita informação neste livro”.
Ismael Nafría (Foto de cortesia)

O autor acrescentou que o livro pode ser lido facilmente por partes, em função dos temas que mais interessam cada leitor.

“Espero –como aconteceu comigo- que os amantes do bom jornalismo descubram o grande trabalho que o Times realiza. O livro está repleto de links que permitem ampliar a informação ou consultar os trabalhos jornalísticos mencionados”, adicionou Nafría.

Consultor, editor e diretor de meios durante os últimos 30 anos, Nafría escreve do ponto de vista de um consumidor de notícias, um consultor da indústria, de um estudante permanente das inovações jornalísticas e de um .

O livro traz ainda visualizações de dados minuciosamente compilados por Nafría, depois de buscar entre montanhas de informação sobre o jornal referência dos Estados Unidos.

O autor disse que, durante este processo, uma das coisas que mais lhe chamou a atenção foi a profunda vontade de mudança, de transformação e de adaptação aos novos tempos que se pode notar em toda a organização”. Apesar dessa aceitação da mudanla, Nafría assinala que o jornal mantém a todo momento “um compromisso inquebrantável com o jornalismo de qualidade”.

“Fiquei surpreendido de maneira positiva pelo grau de transparência e vontade de se explicar que pode ser visto em algumas iniciativas do jornal, ainda que às vezes pode parecer o contrário”, disse Nafría. “Se você sabe como procurar e tem paciência, você pode descobrir muitas coisas sobre o Times, e creio que o livro é uma prova disto”.

O professor Rosental Alves, diretor do Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, destacou o otimismo do livro de Nafría sobre o futuro, tanto do Times quanto do jornalismo como um todo.

La reinvención de The New York Times serve para renovar nossa esperança de que as companhias jornalísticas tradicionais podem sobreviver e prosperar em um novo mundo que emerge da revolução digital. Mas também têm que compreender as enormes dimensões das mudanças que estão ocorrendo no mundo, para logo tratarem de se reinventar e se reposicionar”, escreveu Alves no prólogo do livro de Nafría. “O exemplo do que se passou com o The New York Times, analisado de forma sem precedentes neste livro, será de grande ajuda para quem se interessa em ajudar os jornais na difícil transição que eles têm que fazer”.

Nafría teve a ideia do livro em 2013, e trabalhou nele a fundo desde setembro de 2016, quando iniciou sua estância no Centro Knight para o Jornalismo nas Américas da Universidade do Texas em Austin como jornalista residente.

“Decidi escrever este livro porque me parecia ser muito útil para toda a indústria jornalística -que atravessa uma crise muito importante de modelo de negócio- entender realmente o esforço de transformação que oTimes estava realizando”, disse Nafría. “Eu tenho vivido estes problemas diretamente, dentro da indústria, e tenho tentado extrair lições do caso do NYT que possam ajudar outros meios”.
O autor no edificio do The New York Times em Manhattan (Foto de cortesia)

Nafría trabalhou previamente como diretor de inovação digital e diretor de conteúdos digitais do Grupo Godó, na Espanha, e como subdiretor de conteúdos da Prisacom. De 1999 a 2005 ele escrevia a coluna semanal “La Crónica” no La Vanguardia Digital, onde foi redator chefe durante dois anos.

Este é o quarto livro de Ismael Nafría. O autor já publicou “Internet es útil” (2008), “Web 2.0. El usuario, el nuevo rey de Internet” (2007) e “Sr. Director: Les millors cartes dels lectors de La Vanguardia”.

Durante o período na Universidade do Texas em Austin, como jornalista em residência, Nafría organizou palestras, participou de conferências e ajudou a organizar e editar uma série especial sobre inovação digital no jornalismo latinoamericano para o blog Jornalismo nas Américas do Centro Knight. Ele também mantém um blog sobre jornalismo digital.

“La reinvención de The New York Times: Cómo la ‘dama gris’ del periodismo se está adaptando (con éxito) a la era móvil” está disponível gratuitamente em formato digital no site do Centro Knight e na página de Nafría. Também se pode adquirir cópias impressas do livro na Amazon.

O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas publica livros eletrônicos gratuitos em espanhol, inglês e português desde 2007. Recentemente, o Centro publicou o livro do jornalista brasileiro Ricardo Gandour “A New Information Environment“. Outros títulos de sucesso incluem “Cómo escribir para la web”, de Guillermo Franco, e “Herramientas Digitales para Periodistas”, de Sandra Crucianelli.

Blog JORNALISMO NAS AMÉRICAS


Fonte: ENVOLVERDE
Precisamos de desenvolvimento?
Guilherme Carvalho¹ – 

A história não se repete, nem como farsa. Contudo, alguns dilemas parecem permanentes. A questão de como garantir o desenvolvimento econômico constante e ascendente é um deles, especialmente para os blocos de poder que se sucedem à frente do Estado brasileiro.

Na década de 1910, a economia da borracha na Amazônia vivenciou profunda crise por conta do plantio em larga escala promovido pelos ingleses na Ásia. O comércio e a incipiente indústria locais entraram em colapso. A borracha amazônica se tornou secundária e isto repercutiu pesadamente sobre as contas nacionais. Ao longo daquela década se instaurou um interessante debate sobre o futuro da economia e as alternativas para o desenvolvimento econômico da região. As elites se dividiam quanto ao que se deveria promover. Alguns defendiam que a crise era temporária e que o preço do produto voltaria a subir. Outros apostavam na pecuária, no café, na agricultura familiar, na mineração e por aí vai. Todavia, o governo paraense pouco podia fazer para reverter tal situação, sequer conseguia mobilizar forças policiais para combater os índios urubu que, a partir do Maranhão, avançavam sobre o território paraense, esta uma grande reivindicação das elites políticas àquela época. O desenvolvimento parecia ameaçado.

Passaram-se os anos e, apesar de seu pouco peso político nas estruturas de poder que realmente decidem o presente e o futuro desta região, a Amazônia continua a ser relevante para a balança comercial e a entrada de dólares, bem como para efetivar a tão sonhada integração econômica da América do Sul; em que pese manter-se entre os piores Indicadores de Desenvolvimento Humano (IDH) do país, ser palco de conflitos territoriais, que levam anualmente ao assassinato de indígenas, camponeses, agentes pastorais e outros ativistas sociais, e da expropriação em larga escala estimulada pelo Estado brasileiro em favor de transnacionais – aí incluídos bancos, empreiteiras, agronegócio etc – e de segmentos empresariais brasileiros associados a elas.

A história não se repete, nem como farsa. Contudo, alguns dilemas parecem permanentes. A questão de como garantir o desenvolvimento econômico constante e ascendente é um deles, especialmente para os blocos de poder que se sucedem à frente do Estado brasileiro. Todavia, parcela expressiva da esquerda e dos governos considerados progressistas também comunga de uma visão crescimentista da economia, fundada na exploração intensiva da natureza, tal como no Brasil de Lula e Dilma, na Venezuela de Chávez e Maduro, na Bolívia de Evo Morales ou no Equador de Correa.

Segundo o nosso grande mestre Celso Furtado, “progresso” e “desenvolvimento” se constituíram em poderosos instrumentos de justificação política e ideológica de todas as atrocidades cometidas pelos europeus quando da sua chegada na América². Ainda hoje ambos os termos são fartamente empregados pelas forças conservadoras para combater qualquer iniciativa que se oponha ao modelo hegemônico, assim como é parte constitutiva do discurso dominante em defesa do desmonte da legislação ambiental, da instalação de complexos logísticos de infraestrutura para incrementar a exportação de commodities, da redução do tamanho de áreas de preservação e do erguimento de obstáculos para a demarcação de novas áreas indígenas ou quilombolas (Brasil); da extração do petróleo existente em terras indígenas (Equador); da expansão do monocultivo de soja (Bolívia); da cessão de vastos territórios para as indústrias petroleira e madeireira (Peru); da construção de hidrelétricas e expansão de redes de distribuição de energia (Venezuela) etc. Nesse contexto, ser tachado de opor-se ao “progresso” e ao “desenvolvimento” é carregar uma pecha difícil de ser arrancada, é sofrer tentativas de desmoralização pública, é ser compulsoriamente colocado em confronto com desejos cotidianamente estimulados na sociedade: consumo, crescimento econômico, riqueza, controle sobre a natureza…
(Foto: José Cruz/ ABr)

O fato é que “desenvolvimento” se tornou, particularmente após a Segunda Guerra Mundial, uma poderosa ferramenta político-ideológica habilmente utilizada pelo imperialismo dos Estados Unidos para fazer valer seus interesses ao redor do mundo. Desde então o discurso do desenvolvimento vem sendo empregado de forma a evidenciar diferenças (reais e supostas) entre os países e no interior destes: avançados versus atrasados, desenvolvidos versus subdesenvolvidos, modernos versusarcaicos ou tradicionais, entre outras. Contudo, a própria guerra mostrou que não caminhamos necessariamente a um futuro promissor já que adquirimos até mesmo a capacidade de nos exterminar enquanto espécie, agora aprofundada por conta dos desequilíbrios climáticos promovidos pela ação humana.

Diferentemente do que foi apregoado por W. W. Rostow³, não há etapas a serem cumpridas que levarão a todos rumo ao desenvolvimento e à felicidade, basicamente por dois motivos: o planeta não suportará os níveis exorbitantes de consumo, de produção de dejetos e de degradação ambiental; e as condições históricas que permitiram Estados Unidos, França, Alemanha e as demais nações do G-7 chegarem onde chegaram não serão generalizadas aos demais, pois como bem disse Ha-Joon Chang a “escada foi chutada” [4]. Um ou outro país, como no caso da China, poderá aproximar-se, mas isto jamais abarcará o restante. A tendência é que apenas uma pequena fração das populações dos demais acumule riqueza suficiente para usufruir dos altos padrões europeu ou estadunidense, evidenciando as profundas desigualdades neles existentes.

E como pano de fundo disso tudo está o fato de nos encontrarmos em um momento denominado pelo historiador camaronês Achille Mbembe como o “fim da era do humanismo” [5]. Uma era em que, segundo podemos apreender de suas reflexões, a ameaça que se coloca para a humanidade é o confronto entre democracia e o capital cada vez mais financeirizado:

[…] Em qualquer caso, é um sintoma de mudanças estruturais, mudanças que se farão cada vez mais evidentes à medida que o novo século se desenrolar. O mundo como o conhecemos desde o final da Segunda Guerra Mundial, com os longos anos da descolonização, a Guerra Fria e a derrota do comunismo, esse mundo acabou. 

Outro longo e mortal jogo começou. O principal choque da primeira metade do século XXI não será entre religiões ou civilizações. Será entre a democracia liberal e o capitalismo neoliberal, entre o governo das finanças e o governo do povo, entre o humanismo e o niilismo.

O capitalismo e a democracia liberal triunfaram sobre o fascismo em 1945 e sobre o comunismo no começo dos anos 1990 com a queda da União Soviética. Com a dissolução da União Soviética e o advento da globalização, seus destinos foram desenredados. A crescente bifurcação entre a democracia e o capital é a nova ameaça para a civilização.

Apoiado pelo poder tecnológico e militar, o capital financeiro conseguiu sua hegemonia sobre o mundo mediante a anexação do núcleo dos desejos humanos e, no processo, transformando-se ele mesmo na primeira teologia secular global. Combinando os atributos de uma tecnologia e uma religião, ela se baseava em dogmas inquestionáveis que as formas modernas de capitalismo compartilharam relutantemente com a democracia desde o período do pós-guerra – a liberdade individual, a competição no mercado e a regra da mercadoria e da propriedade, o culto à ciência, à tecnologia e à razão.

É possível identificar “pontos de contato” entre o pensamento de Mbembe com as formulações de Dardot e Laval. Para estes o “neoliberalismo não é apenas uma ideologia, um tipo de política econômica. É um sistema normativo que ampliou sua influência ao mundo inteiro, estendendo a lógica do capital a todas as relações sociais e a todas as esferas da vida” [6]. Ao falarmos de neoliberalismo, normalmente ressaltamos as privatizações, as propostas de redução do tamanho do Estado ou a focalização das políticas governamentais. Contudo, talvez mais importante do que isso tudo é compreendermos que a característica fundamental do neoliberalismo é que ele se mostrou capaz de moldar nossas subjetividades – ou como afirma Mbembe, de anexar o núcleo dos nossos desejos, nos fazer parte do jogo a fim de garantir a reprodução do sistema, mesmo quando nos dispomos a destruí-lo [7]. O que está em jogo com o neoliberalismo é “nada mais nada menos que a forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar com os outros e com nós mesmos. O neoliberalismo define certa norma de vida nas sociedades ocidentais e, para além dela, em todas as sociedades que as seguem no caminho da ‘modernidade’”[8]. Por outro lado, o neoliberalismo busca livrar-se de todas as amarras, daí que a democracia e qualquer forma de controle social são encaradas como um estorvo, algo a ser superado. É o governo das corporações que se materializa de diferentes formas, seja como a troika na Europa ou através da completa rendição do Congresso Nacional aos ditames dos grandes grupos privados – Globo, Odebrecht, JBS, Vale, agronegócio etc – aliançados ao Judiciário e a outros segmentos promotores do golpe.

As reformas da previdência e trabalhista, a aprovação do Código Florestal, a revisão das áreas de preservação e a completa destruição dos direitos garantidos na Constituição de 1988, entre outros, evidenciam a crescente perda de qualquer noção de solidariedade e da conformação de um processo em larga escala de eliminação seletiva, e nos colocam diante da questão se de fato a era do humanismo terminou. E nesse contexto o Estado se constituiu num instrumento chave para a afirmação neoliberal. Portanto, acreditar que a eleição de Lula em 2018 ou diretamente ainda em 2017 será capaz de reverter esse quadro sem romper decididamente com esta estrutura estatal é bem mais do que simples ingenuidade. Todavia, é preciso buscar romper também com o sistema normativo que nos foi imposto, que nos relega aos estreitos limites do debate sobre desenvolvimento e crescimento econômico. Daí afirmarmos que estes não nos servem como parâmetros de análise das novas dinâmicas surgidas com a globalização e nem como estratégias políticas em vista da superação do capitalismo.
(Foto: Hebert Rondon/ Ibama)

Uma questão chama atenção no Brasil quando observamos as diversas iniciativas de resistência ao avassalador processo de expropriação territorial em andamento: os povos originários, camponeses, quilombolas, ribeirinhos, as comunidades de fundo de pasto e pesqueiras e outros mais não restringem suas críticas ao modelo hegemônico de desenvolvimento. Suas lutas, suas pautas, suas formulações e seus próprios modos de vida expressam uma contundente crítica civilizatória. Esta é, a meu ver, uma das diferenças qualitativas em relação a boa parte do movimento sindical operário, por exemplo; este majoritariamente preso às armadilhas do debate sobre desenvolvimento e/ou crescimento econômico. É bem verdade que mesmo nos segmentos citados anteriormente há diferenças nada desprezíveis, como no caso das contendas sobre a Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD) ou o mercado de carbono, mas mesmo isto não desqualifica suas críticas ao sistema-mundo capitalista, moderno, colonial, antropocêntrico, machista e racista, na feliz expressão do professor Carlos Walter Porto-Gonçalves.

É preciso olhar detidamente para esses segmentos. Eles têm muito a nos dizer. As manifestações de junho de 2013 foram importantes? Claro que sim! Mas porque a maioria das análises sobre a retomada das mobilizações sociais no país negligencia o fato de que em abril daquele mesmo ano os povos indígenas se puseram em confronto decisivo pelos seus direitos com os poderes constituídos? 

Os confrontos abertos ocorridos naquele período foram tão incisivos quanto os de junho. Qual o motivo desse não reconhecimento? A renitente resistência dos Munduruku da bacia do Tapajós forçou o governo federal e abandonar a ideia – ao menos até o momento – da construção de hidrelétricas em seus territórios. Eles conseguem aliar ação em rede, conformando um sistema de apoio e solidariedade desde o plano local até o internacional, com a aplicação de variadas estratégias de ação, lutando no marco da institucionalidade, como a exigência de que sejam consultados com base nos dispositivos da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mas não se rendendo exclusivamente a ela. Exemplo disso foram as iniciativas para realizarem a autodemarcação de suas terras ou quando da expulsão de seus territórios de pesquisadores envolvidos com o levantamento de informações para os Estudos de Impacto Ambiental (EIA).
(Foto: Welington Pedro de Oliveira)

Os modos de vida desses segmentos e o controle que exercem sobre muitos territórios os fizeram ser considerados inimigos a serem batidos pelo bloco de poder a frente do aparelho do Estado brasileiro. 

A nova etapa de acumulação ampliada do capital, baseada na financeirização e no controle sobre as próprias bases da reprodução da vida, seja através do patenteamento do conhecimento ou do mercado de carbono, os tornam atores sociais relevantes nas lutas por mudanças estruturais na sociedade. Daí que os debates sobre desindustrialização ou reprimarização da economia tendem a agregar muito pouco quando vinculadas à questão do desenvolvimento e do crescimento econômico. E, pior, quando desconsideram atores sociais que na atualidade executam a crítica mais contundente ao nosso modelo civilizatório.

[1] Artigo de Guilherme Carvalho, coordenador do programa da FASE na Amazônia e doutor em Planejamento do Desenvolvimento Socioambiental pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará (NAEA/UFPA), originalmente publicado no Le Monde Diplomatique Brasil.

[2] FURTADO, Celso. Introdução ao desenvolvimento: enfoque histórico-estrutural. 3.ed. São Paulo: Paz e Terra. 2000.

[3] ROSTOW, W. W. As etapas do desenvolvimento econômico. Zahar, 1974.

[4] CHANG, Ha-Joon. Chutando a escada: desenvolvimento em perspectiva histórica. Editora Unesp, 2004.

[5] MBEMBE, Achille. “A era do humanismo está terminando”.

[6] DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. Trad. Mariana Echalar. 1.ed. São Paulo: Boitempo, 2016, p.7.

[7] Dificilmente algum de nós coloca os filhos para estudar inglês pensando nas leituras de Shakespeare.

[8] Ibidem. p.16.


Fonte: ENVOLVERDE