sábado, 8 de dezembro de 2018


IBGE: Indicadores apontam aumento da pobreza entre 2016 e 2017.


A Síntese de Indicadores Sociais (SIS) analisou o tema pobreza utilizando diferentes medidas que mostram o aumento da pobreza entre 2016 e 2017. Segundo a linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial (rendimento de até US$ 5,5 por dia, ou R$ 406 por mês), a proporção de pessoas pobres no Brasil era de 25,7% da população em 2016 e subiu para 26,5%, em 2017. Em números absolutos, esse contingente variou de 52,8 milhões para 54,8 milhões de pessoas, no período. Nessa mesma análise, a proporção de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos que viviam rendimentos de até US$ 5,5 por dia passou de 42,9% para 43,4%, no mesmo período.

Já o contingente de pessoas com renda inferior a US$ 1,90 por dia (R$ 140 por mês), que estariam na extrema pobreza de acordo com a linha proposta pelo Banco Mundial, representava 6,6% da população do país em 2016, contra 7,4% em 2017. Em números absolutos, esse contingente aumentou de 13,5 milhões em 2016 para 15,2 milhões de pessoas em 2017.

Em 2017, o rendimento médio mensal domiciliar per capita no país foi de R$ 1.511. As menores médias foram no Nordeste (R$ 984) e Norte (R$ 1.011), regiões onde quase metade da população (respectivamente, 49,9% e 48,1%) tinha rendimento médio mensal domiciliar per capita de até meio salário mínimo. Estas são algumas informações da Síntese de Indicadores Sociais 2018, que analisou o mercado de trabalho, aspectos educacionais e a distribuição de renda da população brasileira, a partir dos dados da PNAD contínua do IBGE e de outras fontes.

A SIS 2018 mostrou que 27 milhões de pessoas (13,0% da população) viviam em domicílios com ao menos uma das quatro inadequações analisadas. O adensamento excessivo (domicílio com mais de três moradores por dormitório) foi a inadequação domiciliar que atingiu o maior número de pessoas: 12,2 milhões, ou 5,9% da população do país em 2017.

Na análise educacional, a SIS 2018 mostrou que a proporção de matrículas por cotas no ensino superior público triplicou nos últimos 7 anos: de 2009 a 2016, esse percentual subiu de 1,5% para 5,2%. Nas instituições privadas, no mesmo período, o percentual de matrículas com PROUNI subiu 28,1%, passando de 5,7% para 7,3%.

A taxa de ingresso ao ensino superior dos alunos oriundos da escola privada era 2,2 vezes a dos que estudaram na rede pública. Entre os que concluíram o nível médio na rede pública, 35,9% ingressaram no ensino superior, contra 79,2% dos que cursaram a rede privada.

Na análise do mercado de trabalho, a SIS 2018 mostrou que a taxa de desocupação era de 6,9% em 2014 e subiu para 12,5% em 2017. Isso equivale a 6,2 milhões de pessoas desocupadas a mais entre 2014 e 2017. Nesse período, a desocupação cresceu em todas as regiões e em todos os grupos etários.

Em 2017, o trabalho informal alcançou 37,3 milhões de pessoas, o que representava 40,8% da população ocupada, ou dois em cada cinco trabalhadores do país. Esse contingente aumentou em 1,2 milhão desde 2014, quando representava 39,1% da população ocupada.

Em 2017, os trabalhadores brancos (R$ 2.615) ganhavam, em média, 72,5% mais que os pretos ou pardos (R$ 1.516) e os homens (R$ 2.261) recebiam 29,7% a mais que as mulheres (R$ 1.743). O rendimento-hora dos brancos superava o dos pretos ou pardos em todos os níveis de escolaridade, e a maior diferença estava no nível superior: R$ 31,9 por hora para os brancos contra R$ 22,3 por hora para pretos ou pardos. O material de apoio da SIS 2018 está nesta página.
Proporção de pessoas na pobreza sobe de 25,7% para 26,5% de 2016 para 2017

Na ausência de uma linha oficial de pobreza no país, a Síntese de Indicadores Sociais analisou este tema utilizando diferentes medidas que, em sua maioria, mostram o crescimento da pobreza, entre 2016 e 2017.

Considerando-se a linha de pobreza proposta pelo Banco Mundial (rendimentos de até US$ 5,5 por dia, ou R$ 406 por mês), a proporção de pessoas pobres no Brasil subiu de 25,6% da população, em 2016, para 26,5%, em 2017. Em números absolutos, esse contingente era de 52,8 milhões, em 2016, e subiu para 54,8 milhões de pessoas, em 2017.

No Nordeste, 44,8% da população estava em situação de pobreza, o equivalente a 25,5 milhões de pessoas. Por outro lado, a Região Sul possuía cerca de 3,8 milhões de pessoas em situação de pobreza, o equivalente a 12,8% dos quase 30 milhões de habitantes. No Sudeste, o percentual de pessoas abaixo dessa linha subiu para 17,4% da população, abarcando 15,2 milhões de pessoas.

Porto Velho (RO) e Cuiabá (MT) também se destacam, pois foram as duas únicas capitais onde a proporção de pessoas abaixo da linha dos US$ 5,5 por dia superava a dos respectivos estados: em Porto Velho era 27,0%, contra 26,1% em Rondônia; em Cuiabá, 19,2%, contra 17,1% em Mato Grosso.

País tinha 15,2 milhões de pessoas na extrema pobreza em 2017

O contingente de pessoas com renda inferior a US$ 1,90 por dia (R$ 140 por mês), que estariam na extrema pobreza de acordo com a linha estabelecida pelo Banco Mundial, representava 6,6% da população do país, em 2016, participação que aumentou para 7,4% em 2017. A proporção de pessoas abaixo dessa linha aumentou em todas as regiões, com exceção do Norte, que ficou estável. Em números absolutos, esse contingente aumentou de 13,5 milhões em 2016 para 15,2 milhões de pessoas, em 2017.
Cresce a proporção de crianças e adolescentes abaixo da linha de pobreza

A proporção de crianças e adolescentes de 0 a 14 anos que viviam em domicílios com renda de até US$ 5,5 por dia (R$ 406 por mês) passou de 42,9% para 43,4%. A Síntese de Indicadores Sociais do IBGE também analisa a prevalência de pobreza considerando as características das pessoas de referência dos domicílios.

Do total de moradores em domicílios em que a pessoa de referência era uma mulher sem cônjuge e com filhos de até 14 anos, 56,9% estavam abaixo dessa linha. Se a responsável pelo domicílio era uma mulher preta ou parda (igualmente sem cônjuge e com filhos no mesmo grupo etário), essa incidência subia para 64,4%.

A intensidade da pobreza aumentou entre 2016 e 2017

O hiato da pobreza é um cálculo aproximado do montante necessário para erradicar a pobreza. Em 2017, foi estimado em R$ 10,2 bilhões mensais, perfeitamente alocados, para que as pessoas com rendimentos inferiores a US$ 5,5 por dia atingissem essa linha. A distância média do rendimento dos pobres em relação à linha aumentou, entre 2016 e 2017, de R$ 183 para R$ 187 reais.

O hiato da pobreza também pode ser calculado para outras linhas. Para a linha de extrema pobreza (R$ 140 por mês ou US$ 1,90 por dia), o montante necessário para que todos alcancem essa linha era de R$ 1,2 bilhão por mês.

Dado que a pobreza é um fenômeno dinâmico o hiato apenas traz um elemento de estimação do valor de sua erradicação no ano em que foi calculado.

Em 2017, o Distrito Federal era líder em desigualdade, segundo o Índice de Palma

Em 2017, os 10% das pessoas com os maiores rendimentos (de todas as fontes) do país acumulavam 43,1% da massa total desses rendimentos, enquanto os 40% com os menores rendimentos detinham apenas 12,3%. Esse estrato do topo concentrava 3,51 vezes mais rendimentos do que a base, razão conhecida como o Índice de Palma. Nessa mesma comparação, o Distrito Federal foi a unidade da federação mais desigual, onde os 40% das pessoas com os menores rendimentos acumularam 8,4% da massa e os 10% das pessoas com os maiores rendimentos detinham 46,5%. Em 2017, a razão entre esses dois valores chegou a 5,57 no DF, e superou as outras 26 unidades da federação.

Metade da população de Norte e Nordeste vive com até meio salário mínimo

Em 2017, o rendimento médio mensal per capita domiciliar no país foi de R$ 1.511. As menores médias foram no Nordeste (R$ 984) e Norte (R$ 1.011), regiões onde quase metade da população (respectivamente, 49,9% e 48,1%) tinha rendimento médio de até meio salário mínimo. Ainda nessas regiões, apenas 7,8% e 7,7% das pessoas possuíam rendimento mensal (de todas as fontes) superior a dois salários.

Pretos ou pardos continuam a predominar entre os mais pobres

Entre os pretos ou pardos, 13,6% estavam entre os 10% da população com os menores rendimentos. No outro extremo, porém, apenas 4,7% deles estavam entre os 10% com maiores rendimentos. Já entre os brancos, 5,5% integravam os 10% com menores rendimentos e 16,4% os 10% com maiores rendimentos.

Por faixa de renda, os pretos ou pardos representavam, em 2017, 75,2% das pessoas com os 10% menores rendimentos, contra 75,4% em 2016. Na classe dos 10% com os maiores rendimentos a participação de pretos ou pardos aumentou: de 24,7% em 2016, foram para 26,3% em 2017. Apesar dessa evolução, a desigualdade permanece alta.

Pretas ou pardas sem cônjuge e com filhos têm mais restrições a direitos e serviços

A análise por restrição de acesso a bens em múltiplas dimensões complementa a análise monetária e permite avaliar as restrições de acesso à educação, à proteção social, à moradia adequada, aos serviços de saneamento básico e à internet.

Nos domicílios cujos responsáveis são mulheres pretas ou pardas sem cônjuge e com filhos até 14 anos, 25,2% dos moradores tinham pelo menos três restrições às dimensões analisadas. Esse é também o grupo com mais restrições à proteção social (46,1%) e à moradia adequada (28,5%).

Acesso à internet aumenta para pessoas em situação de pobreza

A proporção da população com acesso à internet no domicílio passou de 67,9% em 2016 para 74,8% em 2017. Entre a população com renda domiciliar per capita inferior a R$ 406 por mês (US$ 5,5 por dia), a alta foi mais intensa, de 47,8% em 2016, para 58,3% em 2017.

A desigualdade de acesso entre o total da população e aqueles abaixo da linha da pobreza é mais marcante no acesso por computador, 40,7% contra 14,5%, do que no acesso por meio de outros equipamentos como tablets, celulares e televisores, 73,7% frente a 57,5%.
Moradia inadequada afeta 27 milhões de pessoas

A SIS mostrou que 27 milhões de pessoas (13,0% da população) viviam em domicílios com ao menos uma das quatro inadequações analisadas. O adensamento excessivo (residência com mais de três moradores por dormitório) foi a inadequação domiciliar que atingiu o maior número de pessoas, foram 12,2 milhões (5,9% da população) em 2017.

O ônus excessivo com aluguel (quando o aluguel supera 30% do rendimento domiciliar) afetou 10,1 milhões de pessoas (4,9%), num contexto em que 17,6% dos imóveis residenciais são alugados. Essa inadequação foi mais presente no Distrito Federal (9,1%) e São Paulo (7,1%), as duas unidades da federação com maior renda média.

Em 2017, 5,4 milhões de pessoas (2,6% da população) viviam em domicílios sem banheiro de uso exclusivo. Da população com renda inferior a R$ 406 por mês (US$ 5,5 por dia), 28,6% tinham pelo menos uma inadequação domiciliar (contra 13,0% da população em geral).

Ainda entre as pessoas abaixo dessa linha de pobreza, 57,6% tinham restrição a pelo menos um serviço de saneamento (contra 37,6% da população em geral).
Mais de um terço da população não tem acesso ao serviço de esgoto

Em 2017, mais de um terço (35,9%) da população tinha restrição de acesso ao serviço de esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial. O Piauí registrou a maior proporção da população com essa restrição, 91,7%.

Já a ausência de coleta direta ou indireta de lixo atingiu 10,0% da população e 15,1% do total de pessoas não era abastecida por rede geral de água. Uma proporção de 37,6% residia em domicílios onde faltava ao menos um desses três serviços de saneamento básico.

Em relação ao abastecimento de água por rede, a maior restrição foi em Rondônia (54,0%). A maior restrição à coleta de lixo foi no Maranhão (32,7%).

Ceará e Piauí têm maiores taxas de acesso à pré-escola

Entre 2016 e 2017, a proporção de crianças de 0 a 5 anos que estava frequentando escola ou creche passou de 50,7% a 52,9%. No grupo de crianças de 4 e 5 anos, para quem a frequência a escola ou creche é obrigatória, esse percentual passou de 90,2% para 91,7%, insuficiente para atingir a meta de universalização proposta pelo Plano Nacional de Educação (PNE). O PNE tinha como prazo, para o grupo de crianças de 4 e 5 anos, o ano de 2016.

Nenhuma das grandes regiões ou unidades da federação atingiu a meta da universalização. Nordeste (94,8%) e Sudeste (93,0%) alcançaram taxas acima da média nacional e o Norte (85,0%) teve o menor índice. Entre as UFs, as maiores proporções de crianças de 4 e 5 anos frequentando escola ou creche estavam no Ceará (97,8%) e Piauí (97,6%) e as menores, no Amapá (72,4%), Amazonas (77,8%) e Acre (79,5%).

A proporção de crianças com 4 anos de idade frequentando escola ou creche no Brasil era de 87,1%. 

Na comparação com países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil fica imediatamente abaixo da média de 88,0%, ocupando o 27º lugar entre 35 países, à frente de Chile, Finlândia e Estados Unidos, por exemplo.

Entre as crianças de 0 a 3 anos, 32,7% frequentavam escola ou creche em 2017. Para este grupo etário, a meta de frequência à escola ou creche é atingir os 50% até o ano de 2024. Em 2017, a Região Norte teve o menor percentual de frequência escolar nesse grupo etário, com 16,9%. As maiores taxas estavam no Sudeste (39,2%) e no Sul (40,0%). Amapá (6,2%), Amazonas (10,3%) e Acre (18,0%) tiveram os menores percentuais de frequência escolar. Os maiores foram apresentados por Santa Catarina (46,1%) e São Paulo (46,0%).

Acesso à escola ou creche é menor nas áreas rurais

A frequência escolar de crianças residentes em domicílios rurais era de 43,4%; a das residentes em domicílios urbanos era de 54,7%, em 2017. As disparidades em função do critério urbano/rural são ainda mais marcantes entre as crianças de 0 a 3 anos de idade: para domicílios urbanos a taxa foi de 35,4% e, para rurais, 18,3%, diferença de 17,1 p.p.

As crianças de 0 a 5 anos residentes em domicílios cujo nível de instrução do morador mais escolarizado era o fundamental incompleto ou equivalente foram as que menos frequentavam escola ou creche em 2017 (46,9%). Com a maior frequência escolar (62,2%) estavam as crianças em domicílios com, pelo menos, um morador com ensino superior completo.

Rede pública atende 74,1% da educação pré-escolar

Em 2017, 74,1% das crianças de 0 a 5 anos frequentavam escola ou creche da rede pública de ensino. 

Essa proporção aumenta à medida que cai a renda domiciliar per capita: o quinto com renda mais baixa concentra 92,9% de crianças na rede pública e o da mais alta, 25,1%.

A frequência à escola ou creche na rede privada prevaleceu entre as crianças de 0 a 5 anos residentes em domicílios com algum morador com ensino superior, com proporção de 62,9%. Entre os domicílios em que o morador mais escolarizado tem superior incompleto, 33,8% das crianças estão na rede privada. Quando a escolarização mais alta é o fundamental incompleto ou sem instrução, 96,2% estão na rede pública.
A proporção de matrículas por cotas triplicou nos últimos 7 anos

De 2009 a 2016 a proporção de matrículas por cotas no ensino superior público cresceu 3,5 vezes, passando de 1,5% para 5,2%. Nas instituições privadas, no mesmo período, a proporção de matrículas com PROUNI subiu 28,1%, passando de 5,7% para 7,3%. Logo, a rede pública foi a principal responsável pelo aumento de matrículas que adotaram critérios de democratização do acesso ao ensino superior previstos na meta 12 do Plano Nacional de Educação.

Em relação aos cursos de bacharelado (nível superior) presencial nas instituições públicas, houve aumento de 809 mil para 1,2 milhão no total de matrículas. Nas instituições privadas, no mesmo período, as matrículas nesses cursos subiram de 2,8 milhões para 3,9 milhões.

A proporção de alunos que frequentavam o bacharelado presencial nas instituições públicas por meio de cotas quadriplicou de 2009 a 2016, passando de 5,6% para 22,7%, atingindo 270,6 mil matrículas em 2017.

Do total de 2,84 milhões de matrículas no setor privado em cursos de bacharelado presenciais em 2009, 26,3% contavam com algum tipo de auxílio financeiro, seja por meio de financiamentos sem contração de dívida por parte do aluno, seja através de subsídios aos juros. Em 2016, mais da metade (52,0%) das 3,88 milhões de matrículas no setor privado nesses cursos se beneficiava de algum tipo de auxílio financeiro.

Taxa de ingresso no ensino superior da escola privada era 2,2 vezes a da pública

Em 2017, entre a população com ensino médio completo, apenas 43,2% entraram no ensino superior. 

Entre os que concluíram o nível médio na rede pública, 35,9% ingressaram no ensino superior, contra 79,2% dos que cursaram a rede privada. Assim, a taxa de ingresso no ensino superior dos alunos oriundos da escola privada era 2,2 vezes a dos que estudaram na rede pública.

A desigualdade de acesso ao ensino superior também se manifesta na análise por cor ou raça. Em 2017, 51,5% dos brancos com ensino médio completo foram para o ensino superior, enquanto 33,4% dos pretos e pardos nas mesmas condições tiveram acesso a esse nível. A taxa de ingresso dos brancos provenientes da rede pública foi de 42,7% e a dos pretos ou pardos dessa mesma rede, de 29,1%. A taxa de ingresso dos brancos provenientes do ensino médio privado foi de 81,9% e a dos pretos ou pardos, de 71,6%.

População ocupada diminui 1,1% nos últimos três anos

Entre 2012 e 2014, o número de trabalhadores no país aumentou 3,1%, para depois recuar 1,1% nos três anos seguintes. De 2012 a 2017, as quatro atividades que perderam trabalhadores foram Agropecuária (-15,9%), Administração pública (-12,14%), Indústria (-7,9%) e Construção (-6,4%). Já os Serviços domésticos (0,7%) percorreram uma trajetória inversa: redução de 2,9% até 2014 e elevação de 3,7% de 2014 a 2017.

De 2012 e a 2017, o rendimento médio habitual mensal da população ocupada cresceu 2,4%, em termos reais, passando de R$ 1.992 para R$ 2.039. Administração pública (14,6%), Agropecuária (11,9%) e Serviços domésticos (9,7%) foram as atividades que apresentaram maiores crescimentos. 

Por outro lado, Construção (-0,7%), Comércio e reparação (-7,1%) e Demais serviços (-3,8%) registraram quedas no rendimento médio.

Segundo a posição na ocupação, os Empregadores possuíam o rendimento médio mensal mais elevado (R$5.211) e o mais baixo, os Empregados sem carteira de trabalho assinada (R$1.158), que recebiam o equivalente a 56,8% do rendimento do Empregado com carteira (R$ 2.038).

Brancos ganhavam 72,5% mais que pretos ou pardos

Em 2017, os a população ocupada de cor branca (R$ 2.615) ganhava, em média, 72,5% mais que a preta ou parda (R$ 1.516) e os homens (R$ 2.261) recebiam 29,7% a mais que as mulheres (R$ 1.743).

O rendimento-hora dos brancos superava o dos pretos ou pardos em todos os níveis de escolaridade, e sendo a maior diferença no nível superior: R$ 31,9 por hora para os brancos contra R$ 22,3 por hora para pretos ou pardos.

Em 2017, os trabalhadores pretos ou pardos possuíam maior inserção em atividades com menores rendimentos médios: Agropecuárias (60,8%), Construção (63,0%) e Serviços domésticos (65,9%). Já os brancos tinham maior participação nas atividades de Educação, saúde e serviços sociais (51,7%).

Os rendimentos médios das pessoas ocupadas nas Regiões Norte e no Nordeste equivaliam, respectivamente, a 77,0% e 69,1% da média nacional. Os menores rendimentos médios eram do Maranhão (R$ 1.170), Piauí (R$ 1.233) e Alagoas (R$ 1.309), e os maiores, do Distrito Federal (R$ 3.805), São Paulo (R$ 2.609) e Santa Catarina (R$ 2.259).

Número de desocupados cresceu 6,2 milhões entre 2014 e 2017

A taxa de desocupação era de 6,9% em 2014 e subiu para 12,5% em 2017. Esse aumento equivale a 6,2 milhões de pessoas desocupadas a mais entre 2014 e 2017.

Nesse período, a taxa de desocupação cresceu em todas as regiões: no Norte, passou de 7,5% para 11,9%; no Nordeste, de 8,5% para 14,7%; no Sudeste, de 7,0% para 13,3%; no Sul, de 4,3% para 8,3% e no Centro-Oeste, de 6,0% para 10,5%.

A desocupação cresceu também em todos os grupos etários. Entre as pessoas com 14 a 29 anos de idade, a taxa era de 13,0% em 2014 e aumentou para 22,6% em 2017. Entre as pessoas com 60 anos ou mais de idade a taxa havia se mantido abaixo de 2,0% entre 2012 e 2014, mas ultrapassou pela primeira vez os 4,0% em 2017.

Ao longo de toda a série histórica, a taxa de desocupação da população preta ou parda foi maior do que a da população branca, tendo alcançado a maior diferença em 2017 (4,76 p.p.).

Mulheres são minoria entre os ocupados, mas predominam entre os subocupados

Em 2017, as mulheres representavam 43,4% da população ocupada, mas eram 53,6% da população subocupada por insuficiência de horas, ou seja, aqueles que trabalham menos de 40h semanais, e gostariam e estão disponíveis para trabalhar mais.

Outros grupos estavam em situação similar: os pretos ou pardos eram 53,2% dos ocupados, mas 65,4% dos subocupados; os trabalhadores de 14 a 29 anos eram 26,6% dos ocupados, mas 34,1% dos subocupados e os trabalhadores sem instrução ou com fundamental incompleto eram 27,6% dos ocupados e 37,7% dos subocupados.

Em 2017, dois em cada cinco trabalhadores do país eram informais

Em 2017, o trabalho informal alcançou 37,3 milhões de pessoas, o que representava 40,8% da população ocupada (ou dois em cada cinco trabalhadores). Esse contingente aumentou em 1,2 milhão desde 2014, quando representava 39,1% da população ocupada.

Entre 2015 e 2016, a proporção de trabalhadores informais permaneceu em torno de 39,0%. Já em 2017, o emprego formal continuou a cair e o número de postos informais aumentou. Assim, a proporção de informais subiu para 40,8%, com destaque para o crescimento das categorias dos empregados sem carteira assinada 13,0 milhões, em 2014, para 13,5 milhões, em 2017) e trabalhadores por conta própria não contribuintes (de 15,5 milhões, em 2014, para 16,1 milhões, em 2017).

Em 2017, a proporção de trabalhadores informais era de 59,5% na região Norte e 56,2% no Nordeste. Já no Sudeste e no Sul, as proporções eram de 33,8% e 29,1%, respectivamente.

Informalidade atinge mais de 2/3 dos Serviços domésticos e da Agropecuária

Em 2017, as atividades com as maiores proporções de trabalhadores informais eram os Serviços domésticos (70,1%) e a Agropecuária (68,5%), ou seja, mais de 2/3 do pessoal ocupado em cada atividade. Com exceção da Agropecuária, a proporção de trabalhadores informais cresceu em todas as outras atividades, de 2014 a 2017, com destaque para Construção (+4,7 p.p.), Indústria (+4,4 p.p.) e Demais serviços (+4,2 p.p.).

Em 2017, entre as mulheres, as taxas mais elevadas de informalidade eram nas atividades de Serviços domésticos (71,2%) e na Agropecuária (75,5%). Já o trabalho informal masculino predominava na Agropecuária (66,8%) e na Construção (63,7%).

A participação da população preta ou parda em trabalhos informais (46,9%) superava a dos trabalhadores brancos (33,7%). Entre os ocupados sem instrução ou com ensino fundamental incompleto, a participação dos informais era de 60,8%, contra 19,9% para aqueles com ensino superior completo.


Fonte: ENVOLVERDE

Redução de agrotóxicos avança e pode sair ainda este ano.


por Guilherme Zocchio, para a Carta Capital


A proposta de lei visa a substituição gradual de substâncias na agricultura em busca de modelo sem uso de venenos.


Em uma investida para diminuir a utilização de venenos na agricultura brasileira, a Câmara dos.

Deputados pode aprovar até o final deste ano a proposta que institui a Política Nacional de Redução de Uso Agrotóxicos (Pnara). Prevista no projeto de lei 6670/2016, a matéria está pronta para ser votada no Plenário da Casa, após sucessivas manobras da bancada ruralista para atrasar o encaminhamento do projeto.

A Pnara foi aprovada em votação na comissão especial sobre o projeto na terça-feira, 04 de dezembro — de lá, seguiu para o Plenário. Integrantes da Frente Parlamentar Agropecuária, em especial os deputados Adilton Sachetti (PRB-MT) e Valdir Colatto (MDB-SC,) fizeram de tudo para postergar o andamento. Pediram vistas mais de umas vez e teceram críticas, negando que se trata de uma proposição com objetivos no curto, médio e longo prazo, mas não conseguiram. Caso passe na Câmara, a proposta segue para o Senado.

No relatório da proposição, os deputados relatores Enio Tatto (PT-SP) e Pedro Uczai (PT-SC) deixam claro que a redução do consumo das substâncias é necessária para modernizar as práticas da agricultura no Brasil. Os dois falam na necessidade da “imediata transição para um outro padrão de agricultura, que concilie produtividade com sustentabilidade ambiental e responsabilidade social”.

O documento é resultado das discussões de sete seminários nos quais diferentes atores da sociedade civil foram convidados a colaborar e faz frente a outro projeto, também em tramitação na Casa, o PL 6.299/2002, apelidado de “Pacote do Veneno” que afrouxa as regras para liberar agrotóxicos no País.

A votação da Pnara ocorreria na última terça-feira, 13, mas foi adiada depois de pedido de vistas dos deputados Adilton Sachetti (PRB-MT), Aliel Machado (PSB-PR), Edmilson Rodrigues (PSOL-PA), João Daniel (PT-SE), Sarney Filho (PV-MA) e Valdir Colatto (MDB-SC). Caso seja aprovada, o que há grande chance de ocorrer, a Pnara vai ao Plenário da Câmara, onde será apreciada pelos parlamentares — de lá, segue para o Senado.

O projeto tem origem em um pedido da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), que sugeriu a proposta há dois anos, visando a diminuição do uso de agrotóxicos no Brasil, um dos maiores consumidores do mundo. A Abrasco diz que reduzir a utilização desses venenos é importante “para garantir o direito básico à alimentação saudável” e adequar o Brasil aos acordos internacionais que “tem sido cada vez mais restritivos”.

De fato, tanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) quanto a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) vêm alertando para os riscos decorrentes das substâncias. São ameaças que vêm não só do contato com os venenos como também da ingestão de alimentos contaminados ou da poluição do solo ou dos lençóis freáticos.

Cerca de 193 mil indivíduos no mundo perdem a vida todos os anos por exposição a substâncias químicas nocivas, de acordo com a OMS. A entidade publicou, em maio do ano passado, uma cartilha com o objetivo de minimizar o consumo de produtos do tipo,

A FAO, por sua vez, prevê no novo Código Internacional de Conduta em Gestão de Praguicidas, atualizado em 2017, a eliminação gradual de agrotóxicos perigosos e outros pesticidas.

A organização afirma que essas mudanças são importantes para garantir a sustentabilidade da produção agropecuária, que deverá aumentar em 60% até 2050 para conseguir alimentar a população mundial, em ritmo crescente.

Globalmente, isso representaria, segundo a FAO, um salto de 2,5 milhões para 3 milhões de toneladas anuais no cultivo de grãos e o acréscimo de mais 200 milhões de toneladas na produção de carnes. Para a organização, é fundamental que a produtividade cresça desvencilhada do uso de venenos.

O Brasil é, desde 2016, o terceiro maior consumidor de agrotóxicos do mundo, segundo levantamento em dados da FAO. Está apenas atrás da China e dos Estados Unidos. Por aqui, consome-se algo em torno de 4,1 milhões de toneladas anuais dos produtos, uma quantia que já foi menor. Entre 1990 e 2016, houve um salto de 659% no emprego das substâncias. O país é ainda o maior importador mundial, gastando anualmente algo em torno de 2,4 bilhões de dólares (cerca de R$ 9,13 bi) para comprar venenos.

Esses números foram corroborados pelo Censo Agropecuário, já noticiado no Joio e que também indicou a correlação deste cenário com o aumento da concentração fundiária. O fato contraditório é que os ganhos de produtividade na agricultura brasileira, cuja principal vitrine é o agronegócio —dito “pop”— não acompanharam.

De acordo com o relatório elaborado pela comissão especial da Pnara, a produtividade de grãos, que envolvem algumas das culturas que mais empregam agrotóxicos, cresceu 45.7% entre 2000 e 2016, enquanto a venda de venenos aumentou em 233,5% —cerca de cinco vezes mais— no mesmo período. O levantamento se baseia em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama).

No projeto, a Pnara chama a atenção para a necessidade de, pelo menos, igualar a quantia de substâncias empregadas no Brasil à de outros países.

Segundo a pesquisadora Karen Friedrich, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), ligada ao Ministério da Saúde, há pelo menos 60 ingredientes ativos dos venenos que são proibidos na Europa, entre os 450 princípios ativos autorizados por aqui. Para o levantamento, ela identificou as substâncias autorizadas conforme ditam as prescrições da Comissão Europeia.

Além disso, aceita-se, no Brasil, uma quantidade de resíduos muito maior do que as permitidas, por exemplo, no Velho Continente. No atlas “Geografia do Uso de Agrotóxicos no Brasil e Conexões com a União Europeia”, a professora do Departamento de Geografia da USP Larissa Bombardi faz a comparação dos níveis aceitáveis de alguns produtos em terras brasileiras e europeias.

Na água potável, tolera-se no País um limite 5 mil vezes maior de glifosato; 300 vezes superior de ácido diclorofenoxiacético; 20 vezes maior de atrazina. Tampouco há restrições às quantidade de acefato e malationa — na Europa, a tolerância é de 0,1 micrograma (o mesmo que um milionésimo de um grama) para cada um litro.

Nos alimentos, o limite de glifosato permitido na soja brasileira é 200 vezes maior do que além-mar; no feijão a quantia de malationa é 400 vezes maior e, na alface, 16 vezes superior.


Do dia para a noite


O relatório da Pnara reconhece, por um lado, que “não  é possível abandonar, do dia para a noite, um sistema produtivo tão dependente de insumos químicos, por razões de  segurança alimentar”. Não significa que basta o projeto ser aprovado e tudo vai mudar de uma hora para outra. Significa que, sim, é preciso admitir que, do modo que funciona hoje, a agricultura brasileira ainda precisa da aplicação ostensiva dos venenos.

Por outro lado, o projeto diz, porém, que “também  não é do interesse nacional seguir uma rota que comprometa a saúde da população e a integridade e a harmonia dos ambientes e dos recursos naturais”.

A transição até o uso de menos agrotóxicos, para ocorrer, demanda o fortalecimento de outras práticas de cultivo de alimentos. Uma das medidas previstas no projeto é a disseminação das técnicas de manejo integrado de pragas que lançam mão de diferentes ferramentas de controle, tais como agentes biológicos (predadores, fungos ou bactérias), plantas resistentes a pragas ou vegetais que servem de iscas para proteger o cultivo.

A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) afirma que é possível progressivamente substituir o uso de venenos por outras formas de manejo rural.

Segundo a companhia pública já existe, e ela detém a tecnologia, de uma série de modos de produção agropecuária sustentável “amplamente conhecidos que deveriam ser massificados para o enfrentamento das mudanças do clima, o que implicaria na redução substancial no uso dos agrotóxicos”. Há casos como os de manejo florestal ou então de adubação e controle biológico de pestes.

A Pnara prevê, além disso, medidas de caráter restritivo, como a remoção dos subsídios que hoje existem para a compra de venenos e de maior monitoramento sobre o uso. O projeto, caso entre em vigor, pretende instituir o Sistema Nacional de Informações sobre Agrotóxicos e Agentes de Controle Biológico (Sinag) e alterar o teto de outras regras, para que as políticas públicas funcionem em sintonia, sobre o mesmo tema.

A atenção à saúde pública denota outra das preocupações do projeto. Os principais órgãos de governo ligados ao desenvolvimento e aplicação de programas de saúde e meio ambiente no Brasil são enfáticos nos alertas que fazem a respeito dos venenos.

O Instituto Nacional do Câncer (Inca) diz: “dentre os efeitos sobre a saúde humana associados à exposição aos agrotóxicos, os mais preocupantes são as intoxicações crônicas, caracterizadas por infertilidade, impotência, abortos, malformações, neurotoxicidade, manifestada através de distúrbios cognitivos e comportamentais e quadros de neuropatia e desregulação hormonal.”

Em adolescentes, ainda existe, de acordo com o órgão, impacto negativo sobre o crescimento e desenvolvimento dentre outros desfechos durante essa fase da vida.

O Inca, além do Ibama e da Fiocruz, são unânimes em admitir que é necessário aumentar o controle sobre o uso das substâncias para melhorar a saúde no Brasil. A Fundação Oswaldo Cruz, aliás, lembra que, enquanto os deputados se concentram em aprovar o “Pacote do Veneno”, a Pnara deveria ser o foco das discussões no País.

Fonte: ENVOLVERDE

Washington Novaes: O clima esquenta, a agropecuária sofre.


por Washington Novaes*

Aquecimento global não é problema que possa ser enfrentado apenas sacudindo os ombros.

É uma notícia que certamente contrariará os chamados “céticos do clima”, que põem em dúvida informações – até de cientistas respeitados – sobre o avanço alarmante dos problemas climáticos no mundo e seus possíveis desdobramentos, fruto em grande parte do chamado efeito estufa, gerado por emissões de gases para a atmosfera (dióxido de carbono, óxido nitroso e metano) desde o início da era industrial. Segundo o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), já estamos muito perto de atingir na primeira metade deste século o limite de aumento de 1,5 grau Celsius, ou mesmo de 2 graus, na temperatura terrestre – considerado pelos cientistas um nível mais seguro para o planeta e para as espécies que o habitam. É um limite desejável consagrado pelo Acordo de Paris (2015), assinado por quase todas as nações. E terá repercussões graves se for ultrapassado. principalmente para o setor agropecuário, que responde por 70% das emissões brasileiras (com a fermentação entérica dos rebanhos, o uso de fertilizantes e novos desmatamentos) – esses gases respondem por 25% a 33% das emissões globais.

Segundo relatório da Embrapa divulgado em outubro, as emissões de gases estufa triplicaram nos últimos 50 anos, inclusive em escala mundial, por causa do aumento do consumo per capita, do crescimento da população (dobrou no período para mais de 7 bilhões hoje) e de seu padrão de vida e consumo. Para o Brasil a situação poderá ser muito difícil, ainda mais lembrando que o País na próxima década, segundo a FAO-ONU, terá a maior produção agrícola da mundo e será o maior exportador de alimentos e fibras – mas para isso ainda terá de resolver problemas complexos de desmatamento, perda da biodiversidade, eutrofização e acidificação de corpos d’água. São questões relacionadas com a necessidade de avanço para uma agricultura mais sustentável.

Já em 2009, na COP-15, em Copenhague, o Brasil se comprometeu a reduzir até 2020 entre 36,1% e 38,95% de seus gases – e para isso criou um Plano Setorial de Mitigação a Adaptação ao Clima. Na COP-21, de 2015, a proposta foi de 37% sobre os gases do efeito estufa emitidos em 2005 – proposta para vigorar até 2027 e subir para 43% daí até 2030. Hoje são 14 milhões de hectares no sistema que congrega lavouras, pecuária e florestas.

Mas uma análise do Institute of Atmospheric Physics já projeta, com novo método de análise, um aquecimento de 4 graus Celsius (comparado com níveis pré-industriais) até 2084. Na China há análises semelhantes. E muitos outros institutos preveem até o fim deste século esse mesmo aumento de 4 graus. Com efeitos como calor recorde, inundações pesadas, secas extremas, aquecimento de oceanos.

São previsões que exigem mudanças imediatas e sem precedentes na economia mundial, como se discutiu na recente Conferência de Incheon, com fortes reações de EUA e Emirados Árabes, que defenderam os combustíveis fósseis. Mas ao final houve acordo conciliador.

Membro do IPCC, o professor Paulo Artaxo, da USP, pensa que muitos efeitos do aquecimento já são percebidos e serão intensificados antes que o aumento da temperatura atinja 1,5 grau. Entre os que já discutem o aumento, são citados escassez de alimentos, redução da biodiversidade, enchentes, mortalidade em massa de recifes de corais, elevação do nível do mar, ondas de calor, ciclones tropicais, disseminação de doenças.

O que acontecer entre 2018 e 2030 será determinado pelas emissões de dióxido de carbono. Entre os fatores mais citados pelos cientistas nesse âmbito, surge com insistência a necessidade de banir os combustíveis fósseis, principais geradores de emissões. Mas enfrentam resistência muito forte de empresas que atuam na produção e no comércio nesse setor. Assim como do setor que trabalha com madeiras na Amazônia brasileira. Relatório especial do IPCC, preparado a pedido do Fórum Mundial dos Cientistas, recomenda reduzir à metade os crimes globais nessa área, até 2020. Porque florestas têm papel central no panorama, assim como savanas e outras formas de vegetação natural, para captura do dióxido de carbono já presente na atmosfera. Também é indispensável trabalhar na restauração de florestas.

A resistência, diz o relatório, está na agropecuária, que responde por 70% das emissões, incluindo a fermentação entérica, e essa é mais uma razão para acelerar a transição para uma matriz energética neutra em carbono. Essa é, porém, uma das notícias que costumam ser contestadas pelos que têm interesses particulares questionados. Trata-se, entretanto, de estudos que põem em xeque análises atuais sobre matrizes energéticas e suas relações como a economia global ou investimentos estatais e privados. Precisam ser considerados e induzir modificações.

Na atual campanha presidencial, o candidato Jair Bolsonaro, em entrevistas, disse que a permanecer no acordo o Brasil teria de pagar “um preço caro para atender às exigências” e que “a soberania do País está em jogo”; Fernando Haddad, em seu plano de governo, comenta “como instituir uma política de transição para uma economia de baixo carbono e que pretenda honrar o acordo” (naofracking Brasil, 9/10).

Seja como for, a questão terá de ser encarada frontalmente. Aquecimento global, atingindo todos os continentes, todos os países, todos os viventes, não é problema que possa ser enfrentado apenas sacudindo os ombros e seguindo em frente com um assovio. Os preços são altos. Por mais que os “céticos do clima” neguem os efeitos desastrosos, eles estão diante dos olhos de quem queira ver. E afetam o bolso dos produtores.

É urgente que em cada país afetado os governos competentes concebam e executem planos de emergência, seguidos de políticas de maior prazo. Capazes de tranquilizar os países importadores. E os produtores locais. Além de afastar em escala global os dramas que começam a atingir todos produtores, importadores, consumidores.


Fonte : ENVOLVERDE

Parar com o desmatamento no Brasil é uma questão de sobrevivência econômica.


Por Giulia Requejo* e Luchelle Furtado*, de Katowice

Webdocumentário “O amanhã é hoje”, lançado durante a COP24 pelo Greenpeace Brasil, aborda as perdas dos brasileiros com as mudanças climáticas.

Durante a Conferência do Clima da ONU, na Polônia, o coordenador de políticas públicas do Greenpeace Brasil, Márcio Astrini, afirmou que o desmatamento desenfreado pode afetar futuramente as reservas de água do país, já que muitas estão no Cerrado, região com altos índices de desmatamento. “A destruição dessa biosfera vai comprometer a questão hídrica brasileira, a biodiversidade e também causará alterações no clima e nas emissões de gás de efeito estufa”.

A preocupação do coordenador é justificada. De acordo com um artigo de pesquisadores do Instituto Internacional para a Sustentabilidade (ISS) e de outras instituições de pesquisa, divulgados no ano passado, mostram que o Cerrado perdeu 46% da vegetação nativa. Se esse índice de destruição for mantido, pode ocasionar a maior extinção de plantas da história e, consequentemente, agravar a seca em diversas regiões do país.

No entanto, a derrubada de árvores no Brasil não se restringe apenas à região Centro-Oeste. Segundo dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA) e pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a taxa de desmatamento na Amazônia atingiu seu maior nível nos últimos dez anos, com 7.900 km² de floresta desmatada. O alto índice de desmatamento acentua um acréscimo de quase 14% em relação aos anos de 2016 e 2017.

Combate ao desmatamento

O compromisso estabelecido no Acordo de Paris prevê que o Brasil deve eliminar o desmatamento ilegal na Amazônia e promover a recuperação de 12 milhões de hectares de florestas até 2030. Contudo, o documento não reflete a realidade, levando em conta os resultados obtidos até o momento.

O governo brasileiro reconhece a complexidade de levar adiante a redução das emissões e enfatiza a importância do diálogo, de forma que o consenso leve a soluções que possam ser aplicadas ao conjunto da economia.  Em 2016 e 2017, o país reduziu aproximadamente 2,6 bilhões de toneladas de CO² na atmosfera.

Segundo Astrini, a ação que o Brasil deve tomar ao combater o desmatamento não é fácil, porém não tão complexa se comparada com outros países. “Tem que zerar o desmatamento imediatamente, tanto na Amazônia como no Cerrado, porque nestes locais estão grande parte das nossas emissões”, diz. 

Segundo o coordenador do Greenpeace, manter a floresta intacta é mais fácil do que trocar a matriz energética, uma tarefa de outros grandes 10 emissores globais, nações que nem sempre têm alternativas na redução de emissões, como o Brasil.

Além do benefício ambiental, Astrini completa que é vantajoso parar com o desmatamento também do ponto de vista econômico. “Recuperar essas áreas é extremamente importante para a manutenção das espécies, dos serviços ambientais, dos aquíferos, rios e também para a agricultura, já que essa manutenção influencia a qualidade do solo e da produção agrícola.”

O amanhã é hoje

Durante um evento realizado hoje (06), no Espaço Brasil na COP24, representantes do Greenpeace Brasil lançaram o webdocumentário “O Amanhã é Hoje”, que retrata a vida de seis brasileiros em diferentes estados e regiões do país que tiveram as suas vidas impactadas pelas mudanças climáticas. 

O filme mostra como a preservação da floresta é importante para o futuro.

Fabiana Alves, coordenadora do Greenpeace Brasil em mudanças climáticas e porta-voz das sete organizações integrantes da produção, conta que a realização do webdocumentário surgiu porque as instituições viram a necessidade de mostrar para todos que as pessoas no Brasil já estão sendo afetadas com as mudanças climáticas. “Queremos mostrar a importância de preservar a Amazônia para que haja a redução das emissões de gases de efeito estufa no Brasil e manutenção das mudanças de clima”. Na opinião de Fabiana, o filme coloca que não é apenas o meio ambiente que está sendo afetado, mas também os direitos de cada pessoa.

O lançamento também contou com relatos de Nara Soares Martins, coordenadora geral da COIAB (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) e pertencente ao povo Baré, da Amazônia. Nara afirmou que os cientistas confirmam teorias que as comunidades tradicionais falam há anos, demonstrando que os conhecimentos de seu povo também contribuem para o equilíbrio do clima.

“Os nossos territórios são a amazônia, a caatinga, o cerrado, a mata atlântica. Muitos falam que os povos indígenas e as comunidades tradicionais são os guardiões da floresta e do clima. Mas nós não somos os guardiões de floresta, de água, de nada. Esses espaços são nosso lar”, declara.

Fabiana ressalta que o documentário tem como objetivo tirar o debate dos fóruns internacionais para pressionar os governos e conscientizar a todos de forma a contribuir para meio ambiente. “Queremos mostrar como os brasileiros estão sendo afetados pelas mudanças climáticas, tendo perdas econômicas e correndo riscos de vida por causo do aumento da temperatura global”.

*Luchelle da Silva Furtado, 19 anos, cursando jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. 

Atualmente faz estágio na Redação Multimídia da Universidade Metodista de São Paulo no portal do Rudge Ramos Online http://www.metodista.br/rronline/ e realiza produções de áudio, vídeo e texto. 

Participa como locutora do podcast A Chapelaria, que fala sobre histórias de futebol. Realiza uma Iniciação Científica na revista Comunicação & Sociedade, da Universidade Metodista, sobre os 40 anos de existência da publicação. Cobrindo a COP24, em Katowice, em uma missão acadêmica e profissional.


*Giulia Requejo Simões de Araujo, 19 anos. Estuda jornalismo na Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente faz estágio no Rudge Ramos Online http://www.metodista.br/rronline, a redação integrada na universidade. Escreve sobre esporte nacional e internacional para o portal online Desporto Clube e é assessora do time Embaixadores do Futsal, com sede em Santos. Cobrindo a COP24, na Polônia, para veículos como a revista Envolverde, Carta Capital e o portal BOL.


Fonte: ENVOLVERDE

terça-feira, 4 de dezembro de 2018


Pesquisa do Ipea revela que 23% dos jovens brasileiros não trabalham e nem estudam (jovens nem-nem).

Uma pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revela que 23% dos jovens brasileiros não trabalham e nem estudam (jovens nem-nem), na maioria mulheres e de baixa renda, um dos maiores percentuais de jovens nessa situação entre nove países da América Latina e Caribe. Enquanto isso, 49% se dedicam exclusivamente ao estudo ou capacitação, 13% só trabalham e 15% trabalham e estudam ao mesmo tempo.

ABr

As razões para esse cenário, de acordo com o estudo, são problemas com habilidades cognitivas e socioemocionais, falta de políticas públicas, obrigações familiares com parentes e filhos, entre outros. No mesmo grupo estão o México, com 25% de jovens que não estudam nem trabalham, e El Salvador, com 24%. No outro extremo está o Chile, onde apenas 14% dos jovens pesquisados estão nessa situação. A média para a região é de 21% dos jovens, o equivalente a 20 milhões de pessoas, que não estudam nem trabalham.

O estudo Millennials na América e no Caribe: trabalhar ou estudar? sobre jovens latino-americanos foi lançado hoje (3) durante um seminário no Ipea, em Brasília. Os dados envolvem mais de 15 mil jovens entre 15 e 24 anos de nove países: Brasil, Chile, Colômbia, El Salvador, Haiti, México, Paraguai, Peru e Uruguai.

Nem-nem

De acordo com a pesquisa, embora o termo nem-nem possa induzir à ideia de que os jovens são ociosos e improdutivos, 31% dos deles estão procurando trabalho, principalmente os homens, e mais da metade, 64%, dedicam-se a trabalhos de cuidado doméstico e familiar, principalmente as mulheres. “Ou seja, ao contrário das convenções estabelecidas, este estudo comprova que a maioria dos nem-nem não são jovens sem obrigações, e sim realizam outras atividades produtivas”, diz a pesquisa.

Apenas 3% deles não realizam nenhuma dessas tarefas nem têm uma deficiência que os impede de estudar ou trabalhar. No entanto, as taxas são mais altas no Brasil e no Chile, com aproximadamente
Candidatos aguardam abertura do portões do UniCEUB em Brasília, para o primeiro dia de provas do Enem 2018
Pesquisadora diz que os jovens que não trabalham nem estudam não são preguiçosos, mas jovens que têm acesso à uma educação de baixa qualidade – Arquivo/Agência Brasil
10% de jovens aparentemente inativos.

Para a pesquisadora do Ipea Joana Costa, os resultados são bastante otimistas, pois mostra que os jovens não são preguiçosos. “Mas são jovens que têm acesso à educação de baixa qualidade e que, por isso, encontram dificuldade no mercado de trabalhos. De fato, os gestores e as políticas públicas têm que olhar um pouco mais por eles”, alertou.

Políticas públicas

A melhora de serviços e os subsídios para o transporte e uma maior oferta de creches, para que as mulheres possam conciliar trabalho e estudo com os afazeres domésticos, são políticas que podem ser efetivadas até no curto prazo, segundo Joana.

Com base nas informações, os pesquisadores indicam ainda a necessidade de investimentos em treinamento e educação e sugerem ações políticas para ajudar os jovens a fazer uma transição bem-sucedida de seus estudos para o mercado de trabalho.

Considerando a incerteza e os níveis de desinformação sobre o mercado de trabalho, para eles [jovens] é essencial fortalecer os sistemas de orientação e informação sobre o trabalho e dar continuidade a políticas destinadas a reduzir as limitações à formação de jovens, com programas como o Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). “Os programas de transferências condicionadas e bolsas de estudo obtiveram sucesso nos resultados de cobertura”, diz o estudo.

De acordo com o Ipea, o setor privado também pode contribuir para melhorar as competências e a empregabilidade dos jovens, por meio da adesão a programas de jovens aprendizes e incentivo ao desenvolvimento das habilidades socioemocionais requeridas pelos empregadores, como autoconfiança, liderança e trabalho em equipe.

No Brasil, por exemplo, segundo dados apresentados pelo Ipea, há baixa adesão ao programa Jovem Aprendiz. De 2012 a 2015, o número de jovens participantes chegou a 1,3 milhão, entretanto esse é potencial anual de jovens aptos para o programa.

É preciso ainda redobrar os esforços para reduzir mais decisivamente a taxa de gravidez de adolescentes e outros comportamentos de risco fortemente relacionados com o abandono escolar entre as mulheres e uma inserção laboral muito precoce entre os homens.

Conhecimento e habilidades

As oportunidades de acesso à educação, os anos de escolaridade média, o nível socioeconômico e outros elementos, como a paternidade precoce ou o ambiente familiar, são alguns dos principais fatores que influenciam a decisão dos jovens sobre trabalho e estudo, de acordo com a pesquisa. Em todos os países, a prevalência de maternidade ou paternidade precoce é maior entre os jovens fora do sistema educacional e do mercado de trabalho.

A pesquisa traz variáveis menos convencionais, como as informações que os jovens têm sobre o funcionamento do mercado de trabalho, suas aspirações, expectativas e habilidades cognitivas e socioemocionais. Para os pesquisadores, os jovens não dispõem de informações suficientes sobre a remuneração que podem obter em cada nível de escolarização, o que poderia levá-los a tomar decisões erradas sobre o investimento em sua educação. No caso do Haiti e do México, essa fração de jovens com informações tendenciosas pode ultrapassar 40%.

A pesquisa aponta ainda que 40% dos jovens não são capazes de executar cálculos matemáticos muito simples e úteis para o seu dia a dia e muitos carecem de habilidades técnicas para o novo mercado do trabalho. Mas há também resultados animadores. Os jovens analisados, com exceção dos haitianos, têm muita facilidade de lidar com dispositivos tecnológicos, como também têm altas habilidades socioemocionais. Os jovens da região apresentam altos níveis de autoestima, de autoeficácia, que é a capacidade de se organizar para atingir seus próprios objetivos, e de perseverança.

De acordo com a pesquisa, os atrasos nas habilidades cognitivas são importantes e podem limitar o desempenho profissional dos jovens, assim como a carências de outras características socioemocionais relevantes, como liderança, trabalho em equipe e responsabilidade. Soma-se a isso, o fato de que 70% dos jovens que trabalham são empregados em atividades informais. Entre aqueles que estão dentro do mercado formal há uma alta rotatividade de mão de obra, o que desmotiva o investimento do empregador em capacitação.

Realidade brasileira

No Brasil há cerca de 33 milhões de jovens com idade entre 15 e 24 anos, o que corresponde a mais de 17% da população. Segundo a pesquisadora do Ipea Enid Rocha, o país vive um momento de bônus demográfico, quando a população ativa é maior que a população dependente, que são crianças e idosos, além de estar em uma onda jovem, que é o ápice da população jovem.

“É um momento em que os países aproveitam para investir na sua juventude. Devemos voltar a falar das políticas para a juventude, que já foram mais amplas, para não produzir mais desigualdade e para que nosso bônus demográfico não se transforme em um ônus”, disse.

Além das indicações constantes no estudo, Enid também destaca a importância de políticas de saúde específica para jovens com problemas de saúde mental, traumas e depressão.

A pesquisa foi realizada em parceria do Ipea com a Fundación Espacio Público, do Chile, o Centro de Pesquisa para o Desenvolvimento Internacional (IRDC), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), com apoio do Centro Internacional de Políticas para o Crescimento Inclusivo (IPC-IG).

A pesquisa completa, em espanhol, está disponível na página do BID. Acesse aqui o sumário executivo da pesquisa, em português.



Estudo internacional alerta para impactos das mudanças climáticas na saúde.

As mudanças climáticas são a maior preocupação na área de saúde do século 21.


Por Julia Dias (Agência Fiocruz de Notícias).
O aumento da temperatura global já é sentido nas atuais ondas de calor, nas doenças transmitidas por vetores e na segurança alimentar de populações de todas as regiões do mundo. Para monitorar essa questão, 27 instituições acadêmicas de todos os continentes, entre elas a Fiocruz, acabam de publicar o relatório Lancet Countdown [Contagem regressiva para a saúde e mudanças climáticas].

O relatório, que existe desde 2016 e reúne um total de 41 indicadores, é um alerta para o risco que os sistemas de saúde de todo mundo correm se os governos e a sociedade não agirem rápido para frear o aquecimento global.

“Até pouco tempo os impactos na saúde eram pouco estudados nesse campo, mas tudo recai sobre a saúde”, explica Sandra Hacon, pesquisadora da Escola Nacional da Saúde Pública Sérgio Arouca (Ensp/Fiocruz) que participou do estudo.

Pequenas mudanças de temperatura e chuvas podem ter grande impacto na transmissão de doenças transmitidas por vetores e pela água. Segundo o relatório, em 2016, a capacidade vetorial global para a transmissão do vírus da dengue foi a mais alta já registrada, subindo em 9,1% para o Aedes aegypti e 11,1% para o Aedes albopictus, a partir da linha de base de 1950. A cólera e a malária também registraram aumentos associados a mudanças climáticas. Em 2016, a região costeira do Báltico teve um aumento de 24% na capacidade de transmissão de Vibrio cholerae, em comparação a 1980, e os planaltos da África subsaariana registraram um aumento de 27% capacidade de transmissão da malária, em comparação com 1950.

A vulnerabilidade a extremos de calor também tem aumentado constantemente desde 1990 em todas as regiões. Em 2017,157 milhões de pessoas a mais do que em 2000 foram expostas a eventos de onda de calor, um aumento de 18 milhões de pessoas em relação a 2016. Estas ondas estão associadas ao aumento das taxas de estresse por calor, insolação, insuficiência cardíaca e lesão renal aguda por desidratação. Idosos e pessoas que trabalham ao ar livre, como agricultores e trabalhadores da construção civil, são especialmente vulneráveis a essas condições.

“As tendências nos impactos, exposições e vulnerabilidades da mudança climática mostram um nível inaceitavelmente alto de risco para a saúde atual e futura das populações em todo o mundo”, alerta o documento, que foi publicado pela mais importante revista europeia de medicina, a Lancet, no dia 28 de novembro e contou com a participação do Banco Mundial e da Organização Mundial da Saúde (OMS).

“O Lancet Countdown é um parceiro essencial para progresso na consecução dos objetivos do Acordo de Paris, o mais importante tratado de saúde do século”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus.

Os impactos das mudanças climáticas também são sentidos nas economias nacionais e orçamentos familiares. De acordo com a publicação, 153 bilhões de horas de trabalho foram perdidas em 2017 por causa do calor, um aumento de mais de 62 bilhões de horas desde 2000. Em 2017, um total de 712 eventos climáticos extremos resultaram em US $ 326 bilhões em perdas econômicas, quase o triplo das perdas totais de 2016.

A segurança alimentar é outra área atingida pelas mudanças climáticas, com a diminuição do rendimento das colheitas em todas as regiões do mundo.

“Não podemos esperar para agir, temos que ser proativos. Os prejuízos econômicos e na saúde são muito altos se esperarmos os desastres acontecerem”, considera a pesquisadora da Fiocruz. Globalmente, os gastos para a adaptação às mudanças climáticas permanecem bem abaixo do compromisso de US$ 100 bilhões por ano feito sob o Acordo de Paris.“

O mundo ainda precisa reduzir efetivamente suas emissões de gases. A velocidade da mudança climática ameaça nossa vida e a vida de nossas crianças. Seguindo as tendências atuais, esgotamos a provisão de carbono necessária para manter o aquecimento abaixo de dois graus até 2032. Os impactos das alterações climáticas sobre a saúde acima deste nível ameaçam sobrecarregar nossos serviços de emergência e de saúde”, afirma o co-presidente do Lancet Countdown e ex-diretor da OMS, Anthony Costello.

Recomendações para Brasil

Em conjunto com o relatório global, foram lançadas recomendações específicas para alguns países, entre eles o Brasil. Além da Fiocruz, participaram da colaboração brasileira o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e a Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade (SBMFC).

Enquanto as ondas de calor são a maior preocupação na Europa, onde o envelhecimento da população a torna mais vulnerável a esses eventos, a América do Sul e o sudeste asiático tendem a ser mais afetada por enchentes e secas. As frequências anuais de inundações e eventos extremos de temperatura aumentaram desde 1990. A alteração dos fluxos pode causar mudanças nos ecossistemas e gerar o aparecimento de novas doenças, além de alterar a incidência de doenças vetoriais já conhecidas.

Para Sandra, os riscos, no entanto, também abrem possibilidades, como o progresso científico. Ela destaca o papel que os cientistas e instituições brasileiros têm nessa área. “O Brasil lidera os estudos sobre mudanças climáticas, estamos à frente da América Latina nessa área tanto em saúde, como em recursos hídricos e agricultura. Temos a Amazônia, que é um laboratório natural. A Amazônia é um destaque não só para o Brasil, mas para o mundo”.

As experiências de economia de baixo carbono na Amazônia e o no Cerrado demonstram que o desenvolvimento sustentável é uma oportunidade para resolver também a questão da pobreza. “Infelizmente, não poderemos mostrar essas experiências para o mundo. É lamentável a decisão do Brasil de deixar de receber a COP 25, que seria um espaço para o país reafirmar sua liderança neste campo”, afirma Sandra.

Embora o Lancet Countdown não inclua um indicador sobre os efeitos do desmatamento na saúde, o documento para o Brasil inclui um estudo de caso sobre a região amazônica que ilustra a interrelação entre mudanças globais e alterações em microclimas. As estimativas sugerem que a Amazônia será mais afetada pelo aumento da temperatura que outras regiões do Brasil.

Além disso, as queimadas e o desflorestamento já são uma das principais causas de adoecimento na região. A época das queimadas está associada ao nascimento de crianças com baixo peso e ao aumento das internações hospitalares e das doenças respiratórias, principalmente em crianças e idosos.

O desflorestamento da Amazônia está atualmente na faixa de 15 a 17%, próximo ao ponto de inflexão de 20 a 25%, apontado por alguns autores como irreversível na savanização da maior parte da floresta. Esse dado não apenas aumenta as emissões de gases do país, como prejudica que novas descobertas científicas sejam feitas, com a destruição da biodiversidade única da floresta.


Fonte: EcoDebate

Cientistas revelam perda substancial de água nas bacias sem acesso ao mar (Bacias Endorréicas).

Juntamente com o aquecimento do clima e a intensificação das atividades humanas, o recente armazenamento de água nas bacias sem acesso ao mar (Bacias Endorréicas) do mundo sofreu um declínio generalizado.


Um novo estudo revela que esse declínio agravou o estresse hídrico local e causou potencial aumento do nível do mar.


Kansas State University*

O estudo, “Recent Global Decline in Endorheic Basin Water Storage“, foi realizado por uma equipe de cientistas de seis países e aparece na edição atual da Nature Geoscience.

“Os recursos hídricos são extremamente limitados no interior do continente, onde a vazão não chega ao oceano. Cientificamente, essas regiões são chamadas de bacias endorréicas”, disse Jida Wang , geógrafa da Universidade Estadual do Kansas e principal autora do estudo.

“Nas últimas décadas, temos visto evidências crescentes de perturbações no balanço hídrico endorréico”, disse Wang, professor assistente de geografia. “Isso inclui, por exemplo, o mar Aral, o aquífero árabe empobrecido e as geleiras eurasianas em recuo. Essa evidência nos motivou a perguntar: o armazenamento total de água no sistema endorréico global, cerca de um quinto da superfície continental, está sendo um declínio líquido?

Usando observações de gravidade dos satélites GRACE, da NASA / German Aerospace Center, Wang e seus colegas quantificaram uma perda líquida de água em bacias endorréicas globais de aproximadamente 100 bilhões de toneladas de água por ano desde o início do atual milênio. Isso significa que uma massa de água equivalente a cinco Grandes Lagos Salgados ou três Lago Meads se foi todo ano nas áridas regiões endorreicas.

Surpreendentemente, essa quantidade de perda endorréica de água é o dobro da taxa de mudanças simultâneas de água em toda a massa terrestre restante, exceto Groelândia e Antártida, disse Wang. Ao contrário das bacias endorréicas, as regiões restantes são exoréicas, o que significa que a vazão proveniente dessas bacias drena para o oceano. As bacias exoréicas são responsáveis ??pela maior parte da superfície continental e abrigam muitos dos maiores rios do mundo, como o Nilo, o Amazonas, o Yangtze e o Mississippi.

Wang observou que a assinatura de mudanças no armazenamento de água em bacias exoréicas se assemelha a algumas oscilações proeminentes do sistema climático, como El Niño e La Niña, em ciclos de vários anos. No entanto, a perda de água nas bacias endorreicas parece menos responsiva a essa variabilidade natural a curto prazo. Esse contraste pode sugerir um profundo impacto das condições climáticas de longo prazo e da gestão direta da água humana, como desvio de rios, represamento e retirada de água subterrânea, no balanço hídrico no interior seco.

Essa perda de água endorréica tem ramificações duplas, de acordo com os pesquisadores. Não apenas agrava o estresse hídrico nas regiões áridas endorreicas, mas também pode contribuir para um fator significativo de preocupação ambiental global: aumento do nível do mar. O aumento do nível do mar é o resultado de duas causas principais: a expansão térmica da água do mar como resultado do aumento da temperatura global e a massa adicional de água para o oceano.

“A hidrosfera é conservada em massa”, disse Chunqiao Song., pesquisador do Instituto de Geografia e Limnologia de Nanjing, da Academia Chinesa de Ciências e co-autor do estudo. “Quando o armazenamento de água nas bacias endorreicas está em défice, a massa de água reduzida não desaparece. Foi realocada principalmente através do fluxo de vapor para o sistema exorético. Uma vez que esta água já não está encravada no mar, tem o potencial de afetar o orçamento do nível do mar. ”

Apesar de um período de observação de 14 anos, a perda de água endorréica equivale a uma elevação adicional do nível do mar de 4 milímetros, descobriu o estudo. Os pesquisadores disseram que esse impacto não é trivial. É responsável por aproximadamente 10% do aumento do nível do mar observado durante o mesmo período; compara-se a quase metade da perda simultânea em geleiras de montanha, excluindo a Groenlândia e a Antártida; e corresponde a toda a contribuição do consumo global de água subterrânea.

“Não estamos dizendo que a recente perda de água endorreica acabou completamente no oceano”, disse Yoshihide Wada., vice-diretor do programa de água do Instituto Internacional de Análise de Sistemas Aplicados na Áustria e co-autor do estudo. “Em vez disso, estamos mostrando uma perspectiva de quão substancial foi a recente perda endorréica de água. Se ela persistir, além da escala temporal decadal, o excedente de água adicionado ao sistema exoréico pode significar uma importante fonte de aumento do nível do mar.”

Ao sinergizar observações de satélites multi-missão e modelagem hidrológica, Wang e seus colegas atribuíram essa perda de água endorréica global a contribuições comparáveis da superfície – como lagos, reservatórios e glaciares – bem como a umidade do solo e aquíferos.

“Tais perdas comparáveis são, no entanto, uma agregação de variações regionais distintas”, disse Wang. “Na Eurásia Central endorreica, por exemplo, cerca de metade da perda de água veio da superfície, particularmente grandes lagos terminais, como o Mar de Aral, o Mar Cáspio e o Lago Urmia, e as geleiras recuando na Alta Montanha da Ásia.”

Embora o recuo dos glaciares tenha sido uma resposta ao aquecimento da temperatura, as perdas de água nos lagos terminais foram um resultado combinado de secas meteorológicas e desvios de água a longo prazo dos rios de alimentação.

A perda líquida de água no Saara endorreico e na Arábia, por outro lado, foi dominada pela retirada insustentável das águas subterrâneas, de acordo com os pesquisadores. Na América do Norte endorreica, incluindo a Grande Bacia dos EUA, uma perda de umidade do solo induzida pela seca provavelmente foi responsável pela maior parte da perda de água na região. Apesar de um menor grau, a perda de água superficial no Grande Lago Salgado e no Mar Salton foi de uma taxa substancial de 300 milhões de toneladas por ano, que foi parcialmente induzida pela mineração mineral e irrigação baseada em desvio.

“As perdas de água das bacias endorréicas do mundo são outro exemplo de como as mudanças climáticas estão secando ainda mais as regiões áridas e semi-áridas do globo já secas. Enquanto isso, atividades humanas como a depleção de água subterrânea estão acelerando significativamente essa secagem “, disseJay Famiglietti , diretor do Instituto Global de Segurança da Água, Canadá 150 cadeira de pesquisa em hidrologia e sensoriamento remoto na Universidade de Saskatchewan, Canadá e co-autor do estudo.

Wang disse que a equipe quer transmitir três mensagens de suas pesquisas.

“Primeiro, o armazenamento de água no sistema endorreico, embora limitado em massa total, pode dominar a tendência de armazenamento de água em toda a superfície terrestre durante pelo menos os prazos decadais”, disse Wang. Segundo, a recente perda de água endorreica é menos sensível à variabilidade natural do sistema climático, sugerindo uma possível resposta às condições climáticas de longo prazo e à gestão hídrica humana.

“Em terceiro lugar, essa perda de água no sistema endorréico tem ramificações duplas, tanto para a sustentabilidade regional da água quanto para a elevação global do nível do mar”, disse ele. “Essas mensagens destacam a importância subestimada das bacias endorreicas no ciclo da água e a necessidade de uma melhor compreensão das mudanças no armazenamento de água no interior do mundo.”


Esta ilustração mostra as mudanças no armazenamento de água terrestre nas bacias endorreicas globais das observações do satélite GRACE, abril de 2002 a março de 2016. Na imagem superior, as tendências de armazenamento de água terrestre – em milímetros de espessura de água equivalente por ano – para cada unidade endorreica são destacadas, seguido por anomalias animadas mensais de armazenamento de água terrestre, também em milímetros. A imagem de baixo mostra anomalias líquidas mensais de armazenamento de água terrestre em gigatoneladas, em sistemas endorréicos e exoréicos globais – excluindo Groenlândia, Antártica e os oceanos – e ligação ao El Niño-Oscilação Sul, eixo direito. As anomalias de armazenamento de água terrestre são relativas à linha de base média de tempo em cada unidade ou sistema, com remoção da sazonalidade. Para comparação, 360 gigatoneladas de armazenamento de água terrestre equivalem a 1 milímetro de equivalente do nível do mar.


Referência
Recent global decline in endorheic basin water storages
Jida Wang, Chunqiao Song, John T. Reager, Fangfang Yao, James S. Famiglietti, Yongwei Sheng, Glen M. MacDonald, Fanny Brun, Hannes Müller Schmied, Richard A. Marston & Yoshihide Wada
Nature Geosciencevolume 11, pages926–932 (2018)
DOI https://doi.org/10.1038/s41561-018-0265-7


Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.

Fonte: EcoDebate

O abacate, a fruta do momento na China, está causando danos ao meio ambiente.


Por Alejandra Cuéllar

“No Chile você toma café da manhã, almoça, dorme e sonha com abacate, só que vivendo na China não estava fácil encontrá-lo”, conta Camila Kemeny, uma professora chilena que ensina inglês na cidade chinesa de Hefei. “Ultimamente vejo mais, o que me deixa satisfeita, porque estou sempre atrás deles como uma doida”, afirmou.

Efetivamente, nos últimos anos a importação de abacates ou paltas – a “fruta manteiga”, como é conhecida na China- explodiu e quase toda chega da América Latina. Em 2017, a China importou mais de 32 mil toneladas de abacate, uma quantidade 122 % maior que a do ano anterior.

Exatamente a metade vem do Chile, enquanto 8.754 do México e as outras 6.667 toneladas do Peru, segundo estatísticas de Comtrade das Nações Unidas.

Os três países têm vantagens no mercado chinês: Chile e Peru possuem acordos de livre comércio com a China e não pagam nenhum tributo para exportar seus abacates, ao passo que o México, que exporta 49% (a metade) do abacate em nível mundial, é beneficiado por estar a uma distância três vezes menor que a de seus concorrentes.
A moda do abacate: uma campanha de marketing bem sucedida.

A maior demanda é dos consumidores das grandes cidades, como Xangai, Pequim e Guangzhou, explica Ramón Paz, porta-voz da Associação de Produtores e Empacotadores Exportadores de Abacate do México (Apeam).

Paz, junto a outros especialistas, atribui o êxito da fruta aos chineses que viajam ao exterior e aos turistas que estão levando um novo hábito culinário, considerado saudável e que está na moda. A fruta do ouro verde está no auge no mundo inteiro: com os novos restaurantes que oferecem hambúrgueres envolvidos em abacate, no lugar do pão, mais os benefícios à saúde expostos diariamente, o abacate parece ser uma nova celebridade global.

Só que esta demanda não surgiu de maneira espontânea na China. O abacate era praticamente desconhecido há dez anos e os chineses, que conservam uma tradição culinária com orgulho, não aceitaram a nova fruta de modo natural.

A China Global TV Network realizou um especial sobre a importação do abacate: “A loucura da China pelos abacates: uma historia de sucesso de marketing de um superalimento”, argumentando que a introdução desta fruta foi impulsionada por campanhas promocionais que exaltam os benefícios para a saúde e aproveitam o ‘sex appeal’ de uma fruta que está em alta no ocidente.

Empresários latino-americanos criaram grupos de abacate, como são o Comitê de Palta Hass no Chile, ou a APEAM mexicana, que fizeram campanhas de promoção na China. O consulado do México patrocinou um festival de comida mexicana em Guangzhou e em Sanya (na ilha de Hainan) em 2015, para incentivar os ingredientes da comida e o turismo.

“A China é um mercado enorme e à medida que as pessoas conhecem as frutas que exportamos e as introduzimos em sua dieta, o consumo aumentará. Foi o que aconteceu recentemente com o abacate”, disse Roxana Quirarte Murguia, consultora para o mercado chinês da empresa Mexico FoodConnection ao jornal China Daily.

Além disso, foram firmados acordos entre importantes instituições para promover a distribuição em grande escala. Mission Produce, a maior companhia de abacates dos Estados Unidos, Lantao, o principal importador de abacates da China e Pagoda, uma distribuidora de frutas, assinaram protocolos de cooperação segundo o Produce Report. Mr. Avocado, a nova marca criada por esta fusão, está distribuindo em grandes supermercados caixas de abacates que explicam como cortar a fruta e como prepará-la com receitas para o ano novo chinês.

Aliando-se aos esforços de promoção, no ano passado a cadeia de fast food Kentucky Fried Chicken fez uma campanha para promover seu sanduíche de frango frito e tacos recheados de abacate, tendo inclusive utilizado a imagem do charmoso cantor chinês Joker Xue desfilando com um fino bigode verde de abacate.

Os desafios sociais e ambientais

Apesar do aumento das importações fomentar as economias latino-americanas e gerar empregos, as consequências ambientais são preocupantes. O alto consumo de água exigido para obter sua textura sedosa e a grande quantidade de terreno necessária para atender às demandas causam estragos na terra.
No Chile, o problema mais grave atualmente é da água. Na província de Petorca, uma zona de produção de abacate, os rios secaram. São usados 2.000 litros de água para produzir um quilo de abacate, quatro vezes a quantidade usada para a produção de um quilo de laranjas, de acordo com o Instituto Nacional de Pesquisa Florestal, Agricultura e Pesca do México.

O ativista Rodrigo Mundaca, representante do Modatima (Movimento de Defesa do Acesso à Água, à Terra e Proteção do Meio Ambiente) acusa diretamente a agroindústria pela escassez de água nas comunidades circunvizinhas.

Em uma pesquisa realizada pelo The Guardian, os camponeses da região afirmam que as pessoas estão adoecendo por causa da seca e que se veem obrigadas a escolher entre cozinhar ou tomar banho, fazer suas necessidades em fossas ou sacolas plásticas, enquanto o poderoso agronegócio lucra cada vez mais.

“Além de tudo, tem chovido menos nos últimos dez anos e os problemas de irrigação são grandes”, declarou Alex Martín, um agricultor que há mais de 20 anos exporta abacate do Chile. As mudanças climáticas, combinadas com as altas demandas de produção, estão acabando com a água de Petorca, gerando indignação nas comunidades e organizações sociais.

Em Michoacán, o estado que mais produz abacates no México, o cultivo cresceu de maneira desmedida e é um vetor de desmatamento. Com a ausência de uma normatização efetiva para delimitar as áreas de conservação florestal e com a falta de alternativas reais e competitivas para o manejo responsável desses recursos, as florestas estão desaparecendo, segundo denúncia do Greenpeace.

A superfície destinada à produção de abacate passou de 31 mil hectares em 1980 para mais de 106 mil hectares em 2009, conforme a Secretaria de Agricultura, Pecuária, Desenvolvimento Rural, Pesca e Alimentação (Sagarpa) do governo.

Entre 1976 e 2005, aproximadamente 20 mil hectares de matas foram perdidos nos municípios de Charapan, Cherán, Los Reyes, Nahuatzen, Novo San Juan Parangaricutiro, Paracho, Peribán, Tancítaro, Tingambato, Uruapan e Ziracuaretiro. Principalmente de 2000 a 2005, esta perda acelerou e chegou a um ritmo de 509 hectares por ano.

Há esforços para neutralizar esses impactos negativos e, de acordo com a APEAM, foram reflorestados 425 hectares em Michoacán. Além dos problemas ambientais, o abacate se tornou um foco para o crime organizado em Michoacán, onde cartéis controlam grande parte do negócio e promovem as plantações ilegais. Se a demanda continua crescendo a passos largos sem regulamentações eficazes, as atividades ilegais vão perdurar causando um maior impacto sobre o meio ambiente.

Nesse meio tempo, países como a Colômbia buscam associar-se à exportação para a China. No momento, o abacate colombiano ainda não tem licença de entrada no mercado chinês, mas o crescimento vertiginoso do consumo transformou-o em uma das prioridades do país. De fato, esse foi um dos assuntos centrais na agenda do então Ministro de Agricultura, Juan Guillermo Zuluaga, quevisitou Pequim em maio passado e se reuniu com seu homólogo Han Changfu para tratar da questão.

“A Colômbia agora depende em parte do mercado europeu e necessitamos diversificar o mercado”, sustentou Ricardo Uribe, um empresário que trabalha há mais de 19 anos com abacates. “O mercado chinês tem uma importância que não se compara com Europa e a Colômbia tem acesso ao oceano Pacífico para chegar ao mercado asiático, o que poderia ser muito bom para o país”, ressaltou, e esclareceu que considera que os mesmos problemas ambientais não ocorreriam no seu país.

O Ministério de Comércio Exterior colombiano expressou entusiasmo pela exportação de abacate para a China, dizendo que se traduziria em projetos produtivos para regiões que foram muito afetadas durante os anos de violência das guerrilhas e outros grupos armados ilegais. A produção de abacate em Antioquia, Caldas, Cauca, Quindío, Risaralda, Tolima e Valle do Cauca está aumentando e poderia representar uma mudança nas condições de vida de milhares de pessoas, que estão se abrindo a novas oportunidades no pós-guerra, depois da assinatura do acordo de paz em 2016.

Que a produção de abacate seja um bem para a economia, o meio ambiente e a sociedade, através de uma demanda que cresce exponencialmente e que dependerá em grande parte da gestão estatal e da supervisão de organizações sociais e ambientais que atuam na América Latina.
Gráficos feitos por Catalina González


Fonte: ENVOLVERDE

Cigarro ganha do plástico e é o maior responsável por poluição dos oceanos.


Por ROUTE Brasil

Além de ser extremamente tóxico ao corpo humano, o cigarro é uma ameaça real aos oceanos. De acordo com a Ocean Conservancy, que patrocina anualmente a limpeza de praias, em 32 anos foram colhidas mais de 60 milhões de bitucas nos mares.

O fato coloca o resto desprezado do cigarro como o responsável principal pela poluição dos oceanos, ultrapassando inclusive o plástico. As bitucas representam um terço das porcarias retiradas do fundo do mar.

Para piorar, resíduos de cigarro foram detectados em cerca de 70% e 30% das aves e tartarugas marinhas, respectivamente. O plástico também faz participação especial no cenário catastrófico, já que as guimbas possuem o produto nos filtros, que não são biodegradáveis.
As bitucas de cigarro estão poluindo os oceanos mundo afora.

No mundo, são produzidos cerca de 5,5 trilhões de cigarros todos os anos e a grande maioria deles leva filtros de acetato de celulose, levando mais de 10 anos para se decompor totalmente. Somado ao descarte irregular, os oceanos se transformam no abrigo do poluente.

Os dados foram revelados por Thomas Novontny, fundador do Projeto de Poluição por Bitucas de Cigarro. Falando à NBC News, o professor da Universidade Federal de San Diego conta que os filtros são apenas uma instrumento de marketing adotado pelas empresas.

Fonte: Hypeness