quinta-feira, 30 de julho de 2015

“Se não houver menos pobreza, este século terá violência extrema”.
Philippe Douste-Blazy, secretário-geral adjunto da Organização das Nações Unidas para o Financiamento Inovador para o Desenvolvimento. Foto: Cortesia de Philippe Douste-Blazy.

Por Nora Happel, da IPS – 

Nações Unidas, 13/7/2015 – Às vésperas da terceira Conferência Internacional sobre Financiamento para o Desenvolvimento, os debates se centravam no estabelecimento de “mecanismos financeiros inovadores” como instrumentos estáveis e previsíveis para complementar a tradicional assistência oficial ao desenvolvimento. Uma discussão que integra as crescentes pressões orçamentárias na maioria dos países doadores.

A ideia, que será debatida na Conferência, que começa hoje e vai até o dia 16, na capital da Etiópia, Adis Abeba, sustenta o conceito de reunir de forma “invisível” importantes somas de dinheiro para corrigir os desequilíbrios e conseguir recursos para financiar as principais necessidades em matéria de desenvolvimento.

Em entrevista à IPS, Philippe Douste-Blazy, secretário-geral adjunto da Organização das Nações Unidas para o Financiamento Inovador para o Desenvolvimento, compartilhou sua visão do Imposto sobre Transações Financeiras (ITF).

Além disso, Douste-Blazy, também presidente e fundador da organização Unitaid e ex-ministro de Assuntos Exteriores e Desenvolvimento Internacional da França, analisou os mecanismos inovadores de financiamento que serão examinados na Etiópia, bem como a aprovação em setembro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

IPS: Que papel desempenham os mecanismos inovadores de financiamento no contexto das atuais negociações da Agenda de Desenvolvimento Pós-2015?

PHILIPPE DOUSTE-BLAZY: Este é um ano histórico porque serão realizadas três grandes conferências internacionais que são vitais para o futuro do mundo. A de Adis Abeba, sobre financiamento para o desenvolvimento, a Assembleia Geral da ONU, na qual a comunidade internacional aprovará os ODS, e a COP 21, a 21ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, que acontecerá em dezembro, em Paris. Nos três casos, o panorama será o mesmo: um acordo político magnífico, mas sem meios financeiros para apoiá-lo. Quero disparar o alarme! Se não conseguirmos encontrar mecanismos de financiamento inovadores agora, quando nunca houve tanto dinheiro no mundo, embora a brecha entre ricos e pobres aumente constantemente, o século 21 terminará em uma violência extrema.

IPS: São necessários consideráveis recursos econômicos para financiar o desenvolvimento. O ITF é um mecanismo apropriado para reunir fundos, em comparação com outras alternativas inovadoras?

PDB: O setor financeiro é atualmente um dos menos taxados. É surpreendente conhecer o terrível impacto que o setor teve no desenvolvimento internacional quando da crise econômica de 2008. A cobrança de um indolor imposto proporcional às transações financeiras poderia gerar centenas de milhares de milhões de dólares no mundo e, por fim, ter consequências decisivas e positivas na luta contra a pobreza extrema, as pandemias e a mudança climática. As atividades globalizadas e os intercâmbios devem contribuir para a solidariedade internacional. Isso tínhamos em mente com o presidente francês, Jacques Chirac, e o presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, quando implantamos o imposto solidário sobre as passagens de avião. As pessoas viajam cada vez mais, assim gravar uma pequena proporção do preço da passagem oferece a oportunidade de melhorar o acesso a tratamentos capazes de salvar vidas em todo o mundo. O ITF segue a mesma lógica. As necessidades econômicas são consideráveis e devemos tirar o dinheiro de onde existe. Os instrumentos de financiamento inovadores não devem situar-se como contrapostos, mas é preciso vê-los como complementares.

IPS: A Unitaid investe o dinheiro arrecadado por meio da solidariedade global na luta contra o HIV/aids, a tuberculose e a malária. Que resultado tem apresentado a luta contra essas doenças?

PDB: Primeiro, os investimentos da Unitaid ajudaram a criar um mercado para alguns tratamentos mais efetivos contra o HIV em 2007, reduzindo o custo de US$ 1,5 mil ao ano para menos de US$ 500. Segundo, com o apoio do Fundo Global e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância), a Unitaid contribuiu para a implantação de 437 milhões dos melhores tratamentos contra a malária, ajudando a comunidade internacional a reduzir as mortes em 47% desde 2000. Terceiro, negociou-se uma redução de 40% nos cartuchos de um importante exame para tuberculose (GeneXpert) em 145 países, junto com a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e a Fundação Bill e Melinda Gates. Isso permitiu à comunidade internacional economizar cerca de US$ 70 milhões em dois anos e contribuiu de forma significativa com o aumento de 30% ao ano dos casos detectados de tuberculose resistentes.

IPS: Que estrutura deverá ter o futuro ITF que será implantado nos 11 países europeus dispostos para que seja benéfico e efetivo? Que opinião merecem os exemplos de França e Itália?

PDB: Os ITF francês e italiano são muito desanimadores. Não atendem às expectativas, nem em termos de regulamentação, nem de renda. Parece que os governos de França e Itália só se preocuparam em defender seus setores financeiros. As exonerações impedem que a taxação atinja as transações mais especulativas. Derivados, criadores de mercados e negociação de alta frequência não podem ser gravadas em nenhum dos dois modelos, apesar de serem as mais perigosas. Além disso, é taxando esses instrumentos que o ITF conseguirá maiores recursos. Pela mesma razão, o ITF europeu, que não será aplicado às ações estrangeiras, será muito desanimador. Em lugar de se assustarem com a reação do setor financeiro, os 11 líderes políticos devem mostrar um ambição real e desenhar um ITF forte, com amplo alcance para evitar os vazios legais.

IPS: Como se pode garantir que certa proporção do dinheiro arrecadado pelo imposto será destinada ao desenvolvimento?

PDB: Do ITF francês, 17% já é destinado ao clima e às pandemias. O presidente François Hollande disse que destinaria parte do ITF europeu às mesmas causas. Esperamos que a proporção seja maior. O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, também se comprometeu a destinar parte da arrecadação à solidariedade internacional, mas até agora são as únicas declarações a respeito. 

Destinar a arrecadação do ITF aos fundos multilaterais, como Fundo Global, OMS e Fundo Verde para o Clima, seria a melhor forma de garantir que o dinheiro arrecadado sirva realmente ao desenvolvimento. E quando vejo essas dezenas de milhares de imigrantes que tentam cruzar o Mediterrâneo, que está se transformando no maior cemitério do mundo, quero destacar que a única solução para a imigração em massa dos países pobres para os mais ricos é oferecer o que chamamos de bens públicos mundiais (alimentos, água potável, medicamentos básicos, educação e saneamento) a todos e a cada um dos seres humanos.


Fonte: ENVOLVERDE
Política Nacional do Eterno Adiamento.
Os lixões deveriam ter sido fechados e substituídos por aterros sanitários em todo o território nacional desde agosto de 2014. Foto: Shutterstock.

Por Reinaldo Canto* 

Não são raros os casos de leis que demoram muitos anos para efetivamente entrarem em vigor, em geral são aquelas que mexem com interesses de setores ou que requerem ações mais efetivas e céleres do poder público, mesmo que a sociedade como um todo seja prejudicada em função desse atraso.

No caso da Política Nacional de Resíduos Sólidos a questão em destaque é o fim dos lixões em todos os municípios brasileiros. Quando a lei foi aprovada pelo Congresso Nacional em 2010 (Lei 12.305/2010), depois de tramitar por lá nada menos que 20 anos, as cidades que ainda não faziam seus descartes de resíduos em aterros sanitários, teriam quatro bons anos para se adequar a lei. Eis que ao final do prazo, agosto de 2014, o Congresso brasileiro decidiu pela prorrogação por mais um ano, ou seja, agosto de 2015.

Com a proximidade do fim do prazo e diante da falta de empenho dos municípios, não deve causar estranheza o fato de o Senado Federal propor um novo adiamento. Um projeto de lei (PLS 425/2015) aprovou a prorrogação, desta feita de maneira escalonada, para que os municípios se adaptem à PNRS no que se refere ao fim dos lixões. O PL dos digníssimos senadores representantes da Câmara Alta brasileira definiu que: capitais e municípios de regiões metropolitanas terão até 31 de julho de 2018 para acabar com os lixões; já os municípios de fronteira e os que contam com mais de 100 mil habitantes terão um ano a mais (31/07/2019)  para implementar os aterros sanitários; em relação as cidades que têm entre 50 e 100 mil habitantes terão prazo ainda maior, ou seja, até 31/07/2020; e os municípios com menos de 50 mil habitantes serão favorecidos com uma extensão de prazo até 31/07/2021, para cumprir o que determinava a lei. Agora o projeto seguirá para a Câmara dos Deputados para apreciação e, apesar de não ter bola de cristal, posso afirmar que os atuais deputados pelo que temos visto até agora, certamente não deverão alterar a proposta do Senado.

Os lixões, como já disse antes, deveriam ter sido fechados e substituídos por aterros sanitários em todo o território nacional desde agosto do ano passado, mas quase três mil municípios e o Distrito Federal ainda não conseguiram cumprir as determinações. Segundo afirmou o senador Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE), autor da emenda que estabelece prazos diferenciados para o fim dos lixões, em declaração a Agência Senado, “a prorrogação do prazo é importante para os municípios conseguirem se adaptar à lei”. O senador argumentou que, em 2013, havia 1.196 lixões contra apenas 652 aterros sanitários no país e que para a criação de aterros sanitários são necessária ações complementares como definição de áreas de transbordo, implementação de coleta seletiva e campanhas educativas. Caso essas ações não sejam implementadas, argumentou Bezerra, os aterros ficariam prejudicados.

Outra posição a favor do adiamento do fim dos lixões veio da senadora Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), ao afirmar à Agência Senado, que “a maior parte dos municípios, por falta de quadros técnicos e gerenciais qualificados e de insuficiência de recursos financeiros, não conseguiu cumprir a determinação legal”. Ela considerou que a lei não foi realista quanto à extensão do problema e que foi definido um prazo exíguo para o seu cumprimento.

Apesar de fazer sentido toda essa argumentação, ela só chegou nessa situação durante todo esse período de vigência da lei, por muito pouco ter sido feito para soluciona-lo. Nesses cinco anos, a discussão sobre o fim dos lixões, no mínimo, deveria ter estado no centro do debate tanto na esfera municipal, como também na estadual e federal. Não foi isso o que assistimos e, o problema só se agravou desde então.

Necessidade de altos investimentos

Segundo a Abrelpe – Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais, das cerca de 70 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos coletadas no Brasil anualmente, 42% ainda têm destino inadequado por serem descartados em lixões e aterros controlados. A entidade divulgou recentemente um estudo inédito que estima o valor dos investimentos necessários para universalizar os serviços de tratamento e destinação final adequada de resíduos no país, em R$ 11,6 bilhões até 2031. Além desse valor também deveriam ser destinados outros R$ 15,59 bilhões ao ano para custear a operação e manutenção das plantas a serem construídas.

Para a Abrelpe, a maneira como se destinam os resíduos é a mesma que se fazia desde a década de 70, ou seja, de modo linear e de mínimo aproveitamento dos materiais. “Para universalizar a destinação final adequada nos termos da PNRS, o desafio está na implementação de um sistema cíclico, que abrange o maior aproveitamento e recuperação dos materiais, através da coleta seletiva, compostagem, reciclagem, recuperação energética e disposição final em aterro sanitário”, afirma Carlos Silva Filho, diretor-presidente da ABRELPE. “Tendo em vista o ritmo de crescimento registrado nos últimos anos, se o setor não contar com os recursos adequados e necessários para viabilizar os avanços, a sociedade e o meio ambiente continuarão por muito tempo sofrendo com a mazela dos lixões e com o desperdício de materiais”, acrescenta.

Para nossas autoridades e representantes eleitos para atender aos maiores interesses da sociedade brasileira, talvez ainda falte entender a importância para todos de uma boa gestão de resíduos. Ao adiarem indefinidamente algo que, antes de qualquer coisa, tem a ver com saúde pública e qualidade de vida, eles também postergam a responsabilidade para a solução do problema fazendo com que se agrave mais a cada dia. Há um esgotamento crônico na maneira como descartamos nossos lixos, ou melhor, resíduos e a tendência é que essa conta fique cada vez mais alta.

Se ao menos nossas autoridades escutassem o apelo do Papa Francisco na recente encíclica Laudato Si em que exorta os seres humanos a cuidar do planeta e na qual afirmou com todas as letras: “A Terra, nossa casa, parece se transformar a cada dia em um imenso depósito de lixo”,  quem sabe no Brasil possamos construir uma história um pouco diferente. Então fica o pedido aos nossos deputados para que revisem ou mesmo rejeitem essa proposta do Senado e coloquem em debate um caminho mais construtivo que contemple da melhor maneira o interesse de todos os brasileiros. 

* Reinaldo Canto é jornalista especializado em Sustentabilidade e Consumo Consciente e pós-graduado em Inteligência Empresarial e Gestão do Conhecimento. Passou pelas principais emissoras de televisão e rádio do País. Foi diretor de comunicação do Greenpeace Brasil, coordenador de comunicação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente e colaborador do Instituto Ethos. Atualmente é colaborador e parceiro da Envolverde, colunista de Carta Capital e assessor de imprensa e consultor da ONG Iniciativa Verde.


Fonte: ENVOLVERDE
País mais novo do mundo tem 4,6 milhões em insegurança alimentar.
Crianças sul-sudanesas. Foto: ONU/JC McIlwaine.

Afirmação é do secretário-geral da ONU; Sudão do Sul completa quatro anos de independência nesta quinta-feira; segundo subsecretário-geral para Operações de Paz , país africano vive uma “tragédia”.

Por Leda Letra, da Rádio ONU

O Sudão do Sul completa quatro anos de independência neste 9 de julho, mas segundo o secretário-geral das Nações Unidas, 4,6 milhões sofrem com a insegurança alimentar grave.

Ainda de acordo com Ban Ki-moon, os sul-sudaneses sofrem altos “níveis de violência e de abuso sexual”, com 150 mil abrigados nas bases da Missão da ONU no país.

Apelo

O chefe da ONU lembrou que esteve na nação africana há quatro anos, quando “cidadãos orgulhosos viam a bandeira do país ser hasteada pela primeira vez”.

Ele fez um apelo aos líderes, em especial ao presidente Salva Kiir e ao ex-vice, Riek Machar, para que “provem sua liderança, invistam numa solução política e concluam o acordo de paz”.

O secretário-geral destacou que “paz, desenvolvimento e direitos humanos são direitos de nascimento do povo do Sudão do Sul” e a promessa de “celebrar uma nova nação precisa ser resgatada”.

Tristeza Imensa

O subsecretário-geral da ONU para Operações de Paz afirmou ser “motivo de tristeza imensa” saber que o Sudão do Sul passa por um conflito desde 2013.

Hervé Ladsous foi entrevistado pela Rádio ONU na tarde de quarta-feira, quando falou ao Conselho de Segurança sobre a situação no país.

Tragédia

O subsecretário-geral avalia que o Sudão do Sul vive uma “tragédia, com imenso sofrimento, dezenas de milhares de vítimas, refugiados e deslocados internos”, no que pode ser considerada uma “enorme crise humanitária”.

Ladsous ressaltou que uma solução política e um cessar-fogo necessitam de fato ocorrer porque segundo ele, “a guerra precisa acabar”.

O subsecretário-geral disse que os cidadãos sul-sudaneses precisam questionar o governo sobre o que foi feito com o dinheiro dos royalties do petróleo adquirido na época da independência.

* Apresentação: Laura Gelbert.


Fonte: Rádio ONU
Incompetência e ganância nas terras da Amazônia.
Vista aérea da Amazônia Brasileira. Foto: Shutterstock

Por Washington Novaes –

O caderno especial do Jornal O Estado de S. Paulo Favela Amazônia – um novo retrato da floresta (5/7), coordenado por Leonencio Nossa – é documento que precisa ser conhecido por todos. É, ao mesmo tempo, um retrato da devastação no bioma amazônico e um libelo sobre os formatos impiedosos da atuação humana naquela parte do nosso território – e suas consequências dramáticas internamente e para o inquietante drama do clima. Que se pode dizer quando se tem diante dos olhos os números – um terço da população das grandes e médias cidades vivendo em “territórios do tráfico”, condições mais desfavoráveis que a das favelas do Rio e de São Paulo, máfias controlando o programa Bolsa Família? Onde a biodiversidade – alto privilégio para o País – vai sendo perdida em alta velocidade?

A geografia política deu ao Brasil condição excepcional: território continental, sol o ano todo, quase 12% de toda a água superficial do planeta, pelo menos 15% da biodiversidade total, possibilidade de matriz energética limpa e renovável num mundo em crise por causa das emissões de poluentes. Mas vamos desperdiçando tudo, por incompetência e ganância.

Ainda há poucas semanas o Brasil prometeu (Estado, 1.º/7), em declaração conjunta com os Estados Unidos, restaurar e reflorestar 12 milhões de hectares de florestas e acabar com o desmatamento ilegal “até 2030”; da mesma forma, comprometeu-se a aumentar em 20% as fontes internas de energias renováveis, até 2030 – meta que o professor José Goldemberg achou “pouco ambiciosa”. O Observatório do Clima (1.º/7) considerou insuficientes os objetivos. Quando nada, porque a demanda de energia vai crescer 70% em 15 anos; e as emissões setoriais devem chegar a 800 milhões de toneladas de carbono equivalentes em 2030.

Várias instituições continuam a prever que os níveis de desmatamento em 2015 devem superar os do período anterior. Ainda assim, o governo federal cortou em 72% os recursos contra o desmatamento na Amazônia, de R$ 6,36 bilhões para R$ 1,78 bilhão (amazonia.org 1/4).

Quando se vai para o capítulo de projetos de hidrelétricas na Amazônia, a inquietação só pode crescer. Dossiê do Instituto SocioAmbiental (ISA) sobre o projeto da hidrelétrica de Belo Monte (29/6) traz uma síntese de erros e omissões que ali estão sendo cometidos; 24 especialistas condenam o que está acontecendo na área – inclusive desmatamento e exploração ilegais de madeira, destruição das atividades pesqueiras, perda do modo de vida tradicional nas comunidades removidas, perda da biodiversidade nas ilhas formadas no reservatório, ameaças a comunidades indígenas. A mortalidade infantil cresceu 127% entre 2010 e 2012.

Em Altamira já foi feita a demolição de 4 mil casas e barracos para abrir espaço para o lago; 7,8 mil famílias, com 27 mil pessoas, tiveram de ser reassentadas. Ainda assim, não se conseguiu ligar a primeira turbina em fevereiro, como estava previsto – “parece um cenário de guerra”, dizem os críticos.

A cidade, que em 2010 tinha 100 mil habitantes, passou para 150 mil com o projeto da hidrelétrica (Estado, 28/6), no valor de R$ 32 bilhões, que prometia saneamento básico para 10% da população – mas não saiu do papel; 2 mil processos estão em andamento na área, onde trabalham 24 mil pessoas (40 mil com os empregos indiretos).

Mais complicado ainda parece o destino de outro projeto, em Itaituba: o da usina São Luiz do Tapajós, no valor de R$ 30 bilhões, que já nem se sabe se se concretizará, dados o envolvimento na Operação Lava Jato e as conclusões de 20 mil páginas de estudos de técnicos ambientais sobre os prováveis impactos da planejada “usina plataforma” de 8 mil MW. A Eletrobrás nega haver falhas no projeto, mas o próprio presidente da Empresa de Pesquisa Energética, Maurício Tolmasquim, admite que “há riscos”, até porque surgiram problemas complicados com áreas indígenas – que ele espera resolver com consultas aos grupos que se acham prejudicados, como exige a Justiça (amazonia.org 18/6).

Segundo o Greenpeace (Eco 21, maio 2015), 19% da floresta amazônica foi removido em 19 anos – o que é extremamente grave, porque a Amazônia “transpira” diariamente para a atmosfera 20 bilhões de toneladas de vapor d’água e isso tem influência decisiva no clima e no regime hídrico de outras regiões, principalmente no Centro-Oeste e no Sudeste, por causa dos “rios voadores”.

Ainda assim, lembra o Instituto Centro de Vida do Cerrado (8/6) que 46% da área florestal explorada em Mato Grosso num período de ano ocorreu ilegalmente – 139 mil hectares ou 31% mais que no período anterior, afetando também áreas indígenas, para retirar 3 milhões de metros cúbicos de madeira.

E ainda é preciso lembrar que metade do carbono que as árvores amazônicas capturam da atmosfera é aprisionada por apenas 1% das espécies da floresta, segundo estudo da Universidade de Leeds, no Reino Unido (ambientebrasil, 15/5). A Amazônia tem 16 mil espécies de árvores, mas apenas 182 dominam o processo de captura de gases que afetam o efeito estufa. O bioma responde por 14% do carbono assimilado pela fotossíntese e abriga 17% de todo o carbono estocado em vegetação no planeta.

Não pode deixar de preocupar saber (amazonia.org, julho 2015) que pelo menos 70% das espécies selvagens nas 3.456 ilhas formadas pelo lago da hidrelétrica de Balbina (2,36 mil km2) “estão condenadas à extinção”, segundo estudo da bióloga Maíra Benchimol. E isso terá fortes repercussões.

É possível, então, reiterar as observações do pesquisador Antônio Donato Nobre, do Inpe e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Eco 21, dezembro de 2014): “O grande responsável por manter o clima ameno no coração do continente sul-americano é a floresta amazônica”. Mas “ela está sendo destruída”, com 726.979 km2 já removidos , chegando a 2.062.914 km2 com o acréscimo da degradação em outras áreas.

* Washington Novaes é jornalista.


Empresa que já nasceu com “prazo de validade” quer vender causas, em vez de coisas.
Um dos principais problemas dos nossos tempos, a mobilidade urbana deverá ser um dos temas trabalhados pelo grupo. Arte: Green Mobility.

Por Redação do EcoD – 

Enquanto você lê esse post, diversos projetos inspiradores têm sido realizados no Brasil. O problema é que, por uma série de razões, eles não conseguem chegar ao grande público. Para tentar diminuir essa lacuna, um grupo de publicitários e idealistas resolveu criar um projeto de comunicação voltado, exclusivamente, a iniciativas do terceiro setor.

O objetivo da joint venture (associação de empresas) “2020. Criar, antes que seja tarde”, lançada recentemente em São Paulo, é vender causas, em vez de coisas. Formada pelo quarteto Pedro Fonseca (publicitário, escritor e fotógrafo pernambucano), Pipo Calazans (ex-diretor de criação publicitária), Luana Lobo (sócia da produtora Maria Farinha) e Marcos Nisti (vice-presidente do Instituto Alana), a empresa já conta com clientes como a Fundação Lemann, o Instituto Unibanco e o Instituto Arapyaú, de Guilherme Leal, sócio da Natura.

“O terceiro setor faz trabalhos incríveis mas não sabe se comunicar. É um processo de exclusão, e isso justamente em um setor que pode provocar as mudanças mais profundas na sociedade”, afirmou Calazans ao Valor. Geralmente, institutos e organizações carecem de recursos suficientes para campanhas que exigem grande verba de mídia.

“Queremos usar nosso conhecimento em comunicação para trabalhar exclusivamente por causas que possam mudar o mundo”, reforça o publicitário.

A curiosidade é que a empresa já nasce com prazo de validade. “Temos até 31 de dezembro de 2020 para isso. Daí vem o nome da empresa, para que seja um lembrete. Criamos nosso próprio prazo para que todos os dias a gente acorde com a urgência da transformação”, justificou.

“Coisas do nosso tempo”

De acordo com o grupo, a ideia de fazer a 2020 nasceu dos anseios (ou angústias) em relação às “coisas do nosso tempo”: o consumo excessivo, a falta de propósito em um contexto de degradação ambiental e social do país. “Precisamos trabalhar propósitos e deixar um legado”, ressaltou Fonseca.

A 2020. não tem uma equipe própria para desenvolver produtos, ao contrário do que ocorre com uma agência publicitária convencional. Cada caso é tratado de forma específica – os projetos serão desenvolvidos por pessoas diferentes, a depender de afinidades e competências. Uma campanha para mobilidade urbana, por exemplo, envolverá profissionais diferentes de uma ação sobre saúde alimentar.

Segundo Calazans, é possível trabalhar com a capacidade de mobilização para as causas sem a necessidade de desembolsar quantias vultuosas. Ele exemplificou com a recente campanha do “balde de gelo na cabeça”, que se tornou viral na internet e angariou bilhões de dólares para pesquisas da esclerose lateral amiotrófica, que não tem cura.


Fonte: EcoD

terça-feira, 28 de julho de 2015

Educação financeira reduz fisco dos fazendeiros em Zâmbia.
O agricultor de Zâmbia Neva Hamalengo (direita) sabe o que significa perder a colheita em consequência do clima. Foto: Friday Phiri/IPS.

Por Friday Phiri, da IPS – 

Moyo, Zâmbia, 10/7/2015 – A instabilidade climática faz com que o trabalho dos pequenos agricultores que dependem da chuva em Zâmbia seja cada vez mais arriscado, mas a situação pode piorar se o aquecimento do planeta aumentar as frequências das secas e das inundações.

Neva Hamalengo, um agricultor de 40 anos natural de Moyo, sul de Zâmbia, sabe o que significa perder tudo em um piscar de olhos. Uma tempestade arrasou um hectare inteiro de seus tomates, no valor de US$ 2 mil, enquanto uma seca que durou um mês acabou com sua colheita de milho.

“O rendimento será medíocre nesta safra. Sofremos danos nos cultivos com tempestades e quando a plantação precisava de chuva para se recuperar tivemos uma seca severa”, contou Hamalengo. E, para piorar, ele não tinha seguro. O agricultor admite que “nada sabia sobre seguros”, e garante que gostaria que o ensino a respeito fosse incluído nos serviços de extensão agrícola.

Sua situação é semelhante à da maioria dos pequenos agricultores, geralmente excluídos dos serviços financeiros, e confirma o argumento dos especialistas que alertam para o risco de operar uma empresa que não está segurada ser muito maior quando o clima entra em jogo.

A inclusão financeira é considerada um fator fundamental para reduzir a pobreza, mas as estatísticas em Zâmbia não são nada animadoras. A pesquisa FinScope 2009 concluiu que 63% da população adulta de Zâmbia, ou 6,4 milhões de pessoas, estão excluídas dos serviços financeiros formais. Pouco mais da metade da população adulta nesse país, de quase 15 milhões de habitantes, se dedica à agricultura.

A maioria não “bancarizada” é integrada pela população pobre, e grande parte dela é de pequenos agricultores. A fim de ajudá-los a serem mais resistentes à variabilidade climática, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) colocou em marcha a Iniciativa Resiliência Rural R4. Trata-se de “um enfoque integrado de gestão de riscos, centrando-se no seguro agrícola indexado (transferência de risco), melhoria da gestão dos recursos naturais (redução do risco de desastres), crédito (tomada de riscos prudente), economia (reservas de risco) e redes de segurança produtivas”, explicou Allan Mulando, do PMA.

O R4 surge de uma aliança entre o PMA e a organização humanitária Oxfam Estados Unidos a fim de “melhorar a capacidade das famílias com insegurança alimentar para gerir os riscos de fenômenos climáticos severos”, explicou à IPS Mulando, diretor da Unidade de Avaliação e Mapeamento de Vulnerabilidades do PMA em Zâmbia.

Em colaboração com a Unidade Nacional de Gestão e Mitigação de Desastres, vários ministérios, o Departamento de Meteorologia, companhias de seguros nacionais e instituições de crédito e poupança, o projeto procura integrar as atividades com programas públicos sobre a resiliência que já estão vigentes.

Um deles, o programa Ampliação da Agricultura de Conservação (Casu), obra conjunta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) e o Ministério de Agricultura e Pecuária, com apoio financeiro da União Europeia, tem por objetivo reduzir a fome e melhorar a segurança alimentar, a nutrição e a renda, além de fomentar o uso sustentável dos recursos naturais.

A finalidade do “R4 é gerar um contexto para que o setor privado participe mediante o desenvolvimento do mercado para garantir a sustentabilidade, por meio de cobertura de seguro, provisão de crédito, programas de criação de ativos e redes de segurança, a economia das famílias e formas alternativas de redução da vulnerabilidade”, explicou Mulando.

O Ministério de Agricultura e Pecuária “incentiva tecnologias resistentes ao clima no contexto do Casu e a diversidade de cultivos, para os quais a inclusão financeira é um ingrediente crucial”, disse o funcionário Paul Nyambe.

Para o Ministério de Terras, Recursos Naturais e Proteção do Meio Ambiente, esse tipo de iniciativa é bem-vinda porque corresponde com o objetivo do governo de capacitar as comunidades locais para se adaptarem à mudança climática. “Nesse momento, o governo está no processo de mobilizar recursos para apoiar as comunidades afetadas por uma grave seca que causou a perda de colheitas”, explicou Richard Lungu, diretor de Gestão de Meio Ambiente do Ministério.

Segundo Lungu. o ponto focal de Zâmbia para a Convenção Marco das Nações Unidas sobre a Mudança Climática, é “a mudança climática, uma questão transversal de desenvolvimento, especialmente para Zâmbia, cuja economia depende dos recursos naturais”, e onde mais de 80% da população vive da agricultura.

Os fenômenos climáticos podem deixar os agricultores na pobreza, e esse risco também limita seus interesses por investir em medidas que poderiam aumentar sua produtividade e melhorar sua situação econômica. Por isso, a educação financeira é essencial. “Existe uma forte necessidade de educação financeira. Quando os agricultores de pequena escala tiverem cultura financeira, poderão guiar outros a adotar um produto financeiro em particular, como seguro ou crédito, e evitar tomar decisões erradas”, ressaltou Mulando à IPS.

O especialista financeiro George Siameja concorda com essa opinião, mas ressalta que o problema se encontra em dois níveis: na falta de educação financeira e em um contexto financeiro que inibe o crédito. “Mas a educação financeira deve ser o ponto de partida, porque os bancos consideram que é muito arriscado emprestar dinheiro a quem tem capacidade financeira insuficiente. Como a agricultura é uma função do clima, a educação financeira é fundamental.

Um agricultor que já se beneficiou com a educação financeira é Rodney Mudenda, 34 anos, da aldeia de Nabuzoka. “Desde que me formei em gestão financeira, no ano passado, minha estratégia agrícola mudou”, afirmou. “Agora estou disposto a assumir riscos calculados, como fiz nessa safra para reduzir o milho e plantar girassol, um cultivo tolerante à seca. E a aposta deu resultado. Espero ganhar US$ 1.500 a partir de um investimento de US$ 650”, disse à IPS.


Fonte: ENVOLVERDE
Desperdício de água no Brasil = seis Cantareiras.
O problema da poluição do Rio Tietê em Pirapora do Bom Jesus se arrasta há mais de 30 anos, no inverno a situação se agrava. Foto: Divulgação/Prefeitura de Pirapora do Bom Jesus/Rafael Pacheco.

Por Pedro Peduzzi, da Agência Brasil –

Além de despejar todo dia o equivalente a 5 mil piscinas de esgoto em seus rios, o Brasil desperdiça, por ano, um volume de água que corresponde a seis sistemas Cantareira. As comparações foram apresentadas, na quarta-feira (8), pelo presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, em audiência pública na Comissão de Infraestrutura do Senado. O instituto é uma organização da sociedade civil de interesse público (Oscip), formado por empresas com interesse nos avanços do saneamento básico e na proteção dos recursos hídricos do país.

“A situação do saneamento no Brasil não condiz com um país que é a sétima economia do mundo”, disse aos senadores. Édison Carlos acrescentou que o desperdício anual de água equivale a R$ 8 bilhões que deixam de retornar ao saneamento básico.

Ele ressaltou que, se esses prejuízos financeiros e naturais fossem evitados, seria possível reduzir os impostos cobrados ao setor de saneamento. O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, participou da audiência pública e disse que independentemente dos desperdícios e da crise hídrica “as empresas de saneamento viraram arrecadadoras de impostos”.

Para o governador, as campanhas de prevenção têm mostrado resultado no combate às perdas. Segundo Alckmin, em São Paulo, as campanhas foram responsáveis pela diminuição de gastos de água em 83% das unidades consumidoras (residências, empresas, indústrias, por exemplo).

Para estimular a economia de água, o governo do estado adotou a estratégia de dar bônus a quem passou a usá-la de forma racional e cobrar mais caro das unidades que mantiveram os gastos, afirmou o governador.

* Edição: Marcos Chagas.