quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Belo Monte: depois da Inundação.
Por Redação do Greenpeace Brasil –

Lançamento de documentário sobre uma das obras mais controversas do mundo conta com a presença de diversos povos indígenas ameaçados pela construção de hidrelétricas.
“Se Maomé não vai até a montanha, a montanha vai até Maomé. Então nós vamos levar Belo Monte para o conhecimento de todos”. Esse é Todd Southgate, diretor do documentário Belo Monte: Depois da Inundação, lançado ontem (5) em Brasília na presença de seus protagonistas: os povos indígenas do Rio Xingu, barrado pela infâme construção. Também participaram outros povos ameaçados pela produção de energia, que habitam os rios Madeira, Tapajós, Teles Pires e Juruena.

Antes do início do filme, que explora a história e consequência de uma das obras mais violentas e controversas do mundo, foi apresentado um estudo de impactos econômicos caso a Usina Hidrelétrica de São Luiz do Tapajós, no Rio Tapajós, fosse construída. No total, R$1,9 bilhão seriam perdidos em impactos não avaliados pelos estudos do governo, como perda de renda de subsistência, piora da qualidade d’água e aumento de gases de efeito estufa com a criação do reservatório.

Com a exibição do documentário, foi provado que nenhuma dessas perdas é novidade para aqueles que moram da região da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Muitos vieram às lágrimas vendo a triste realidade que se instalou ao redor de todo o Rio Xingu. “Eu não tinha noção da amplitude dessa tragédia. Todo brasileiro tem que saber disso”, disse, emocionada, a atriz e comediante Maria Paula Fidalgo. Saiba mais sobre o filme aqui, que será disponibilizado online em breve.

Seguiu-se então um debate com a presença de Antônia Melo e Raimunda Silva, do Movimento Xingu Vivo Para Sempre, cacique Gillard Juruna, do Xingu, cacique Juarez Munduruku, do Tapajós, Sônia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil, Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, Felício Pontes, procurador da República, Todd Southgate e Philip Fearnside, cientista.

“Esse é um projeto sem fins lucrativos, feito para não deixar Belo Monte cair no esquecimento. Não é entretenimento, é uma ferramenta de resistência para todos os impactados pela obra e também para quem vai ser impactado por outro projeto semelhante”, defendeu Southgate.
Convidados e organizadores posam para foto após a exibição de estreia do documentário. Foto: © Alan Azevedo / Greenpeace

Para Antônia Melo, Belo Monte é um crime, que além de tudo agora está atraindo a mineração para o local. “É muita falta de informação. E o filme ajuda com isso. Não há dinheiro que domine um povo consciente”.

Segundo Sônia Guajajara, a resistência contra Belo Monte não é apenas regional, mas nacional e também mundial. “Precisamos fortalecer ainda mais essa aliança que foi criada entre índios, ribeirinhos, organizações, advogados e cientistas”, disse ela.

Por sua vez, o cacique Gillard Juruna contou como perdeu seu irmão pescador recentemente por conta de equipamentos de péssima qualidade da Norte Energia e o cacique Juarez Munduruku chamou atenção para as recentes investidas do poder público: “o governo está vindo com tudo. [A usina de] Tapajós foi suspensa, mas pode voltar a qualquer momento. Eles não sabem que os Munduruku não têm divisão com a floresta, os animais ou o rio. Nós somos o Tapajós”.

O procurador da República, Felício Pontes, ressaltou: “Belo Monte tem que servir de exemplo do que não pode mais acontecer”.

Com produção da International Rivers, Amazon Watch e Todd Southgate, e narração de Marcos Palmeira, o documentário foi premiado como melhor filme no júri popular do Festival Cine Amazônia.

Seguindo a programação, hoje (6) um seminário sobre Hidrelétricas na Amazônia, Conflitos Socioambientais e Caminhos Alternativos está tendo lugar na Câmara dos Deputados, em Brasília. O evento, composto por três mesas de debate com diversos especialistas no tema, pode ser acompanhado por transmissão ao vivo.


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Os países mais ameaçados pelo aumento do nível do mar, artigo de José Eustáquio Diniz Alves.
O aquecimento global é o maior risco da sociedade contemporânea. Em artigo anterior, com base em um relatório divulgado no mês de maio de 2016 pela Christian Aid, mostrei como 20 grandes cidades serão afetadas pelo aquecimento global. Os últimos dados mostram que a temperatura nos primeiros 12 meses de setembro de 2015 a agosto de 2016 ficou 1º C acima da média do século XX.

Quanto mais a temperatura esquenta, maiores são as áreas de degelo da Groenlândia, da Antártica e dos glaciares. A água que derrete aumenta o nível do mar. Uma avaliação do Banco Mundial estima que se as temperaturas globais subirem 2° C até 2100, o aumento médio do nível do mar poderá ficar entre 80 cm e 1 metro até o final do século. Além disto, o aquecimento global deve provocar tempestades e furacões como o tufão Haiyan que devastou as Filipinas em 2013. Chuvas mais fortes e a elevação do nível do mar vão provocar grandes inundações nas áreas costeiras das grandes cidades dos países mais populosos.

O relatório da Christian Aid mostra que a população exposta ao risco, no total dos 25 países mais vulneráveis, era de 510 milhões no ano 2000, deve passar para 824 milhões em 2030 e atingir 1,3 bilhão de pessoas até 2060.

A China será o país mais afetado com 245 milhões de pessoas sob risco das mudanças climáticas em 2060. A Índia vem em segundo lugar com 216 milhões de pessoas. Bangladesh vem em seguida com 110 milhões de pessoas. Em quarto lugar aparece a Indonésia com 94 milhões e em quinto o Vietnã com 80,4 milhões de pessoas em risco. Dois países da África aparecem na ordem seguinte, sendo o Egito com 63,5 milhões e a Nigéria com 57,7 milhões de pessoas sob risco de inundações.

Os Estados Unidos aparecem em oitavo lugar com 43,9 milhões de pessoas sob risco. O Brasil aparece em 15º lugar, com 18,7 milhões de pessoas sob risco dos efeitos do aquecimento global e do aumento do nível do mar.

O Reino Unido aparece em 22º lugar, com uma população de 8,8 milhões de pessoas sob risco de inundações. Um aquecimento de dois graus pode colocar Londres debaixo d’água, como mostra a ilustração abaixo. As perdas seriam incalculáveis para toda a Grã-Bretanha.

Evidentemente, os prejuízos não ficarão restritos a estes 25 países. Todo o planeta será afetado. O relatório da Christian Aid conclui com a seguinte reflexão:

A mudança climática não é um conceito abstrato, mas sim uma realidade cada vez mais sentida por milhões de pessoas em todo o mundo. Para aquelas que vivem em regiões costeiras e têm suas vidas ameaçadas, este relatório mostra que esse impacto só vai ficar mais grave ao longo das décadas. As alterações climáticas desempenharão um papel cada vez maior nos desastres humanitários, especialmente ao longo do litoral. Por isso que é vital que tenhamos alguma reflexão conjunta e que a mitigação do clima e a adaptação se tornem uma parte essencial dos esforços nacionais e internacionais para fazer face às crises humanitárias. Ano passado houve o Acordo de Paris e a Cúpula Humanitária. Se quisermos garantir o padrão de vida das populações costeiras, com resiliência em face às ameaças humanitárias, é essencial que estas duas vertentes atuem conjuntamente com um objetivo único”.

Relatório do Banco Mundial (GFDRR, 2016) mostra que, em 2050, um montante de US$ 158 trilhões em ativos estarão em risco de inundação e o número de 1,3 bilhão de pessoas estarão em risco de se tornarem “refugiados” do clima. O relatório considera que os prejuízos causados por desastres já estão aumentando ao longo das últimas décadas e a tendência é piorar, impulsionado em grande parte pela mudança climática e a urbanização. Em relatório anterior (GFDRR, Bringing Resilience to Scale), divulgado na conferência de riscos, nas últimas duas décadas, os eventos climáticos extremos já afetaram mais de quatro bilhões de pessoas, matando mais de 600.000 e causando $ 1,9 trilhão em perdas econômicas.

Os crescentes prejuízos provocados pelas mudanças climáticas devem aumentar a probabilidade de a economia internacional entrar na fase conhecida como “estagnação secular”, com baixa produtividade e baixo crescimento econômico. Numa situação de aumento das desigualdades, o mundo pode ver o encontro do choque ambiental e o choque social.

O aquecimento global é um fenômeno típico da “Sociedade de Risco”, como definiu Ulrich Beck. Crescem as externalidades negativas. As mudanças climáticas, provocadas pela concentração de CO2 tal como descrito acima, não são fenômenos naturais, mas “incertezas fabricadas” que podem gerar uma grande catástrofe global. Segundo Beck, estas “incertezas fabricadas” caracterizam-se por três aspectos: “deslocalização” (suas causas e consequências não se limitam a um local ou espaço geográfico – são onipresentes); “incalculabilidade” (são incalculáveis); e “não-compensabilidade” (é o fim do sonho da segurança da modernidade em tornar os perigos cada vez mais controláveis). O desafio do aquecimento global é um fenômeno que se encaixa na definição de Beck sobre imperativos cosmopolitas: se não houver cooperação haverá fracasso!

Portanto, é urgente reverter a tendência de aumento das emissões de gases de efeito estufa e evitar as consequências nefastas do aumento da temperatura global. Caso contrário, toda a humanidade e a vida na Terra estarão em risco.

Referências:

Aquecimento Global – Canal do Pirula
https://www.youtube.com/watch?v=qAc5d_8MpTc


Earth Under Water in Next 20 Years – Full Documentary
https://www.youtube.com/watch?v=-twZDMe8tYI

Earth In 2050 – HD Documentary 2015
https://www.youtube.com/watch?v=BKbZxKZJM_4

Future Sea Level Rise: Top 10 Countries In Danger
https://www.youtube.com/watch?v=boKd_Pb2HUA

What the Earth would look like if all the ice melted
https://www.youtube.com/watch?v=VbiRNT_gWUQ

NASA’s Earth Minute: Sea Level Rise
https://www.youtube.com/watch?v=msnOHuPep9I

Ice Melt, Sea Level Rise and Superstorms Video Abstract James Hansen
https://www.youtube.com/watch?v=JP-cRqCQRc8

World Bank, GFDRR. The making of a riskier future: How our decisions are shaping future disaster risk, © 2016 Global Facility for Disaster Reduction and Recovery, Washington.
https://www.gfdrr.org/sites/default/files/publication/Riskier%20Future.pdf

World Bank, GFDRR. Bringing Resilience to Scale, © 2016 Global Facility for Disaster Reduction and Recovery, Washington. https://www.gfdrr.org/sites/default/files/publication/GFDRR_2015_AR_web.pdf

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br


Fonte: Eco Debate
Marcado Livre de Energia vai crescer muito até 2025.
Por Katherine Rivas, da Envolverde –

O desafio é diminuir o desperdício de energia, hoje equivalente a 67% da Itaipu.

Na contramão da crise brasileira um novo mercado está crescendo no Brasil. Conhecido como mercado livre, no qual o consumidor traça suas estratégias e negocia as condições de contratação da sua energia. Dados comprovam que o número de consumidores que migraram do mercado cativo para este novo modelo, em 2016, representa 125% de crescimento sob sua gestão. Até o fim de dezembro, 750 empresas estarão na carteira de clientes deste mercado gerando R$ 1,2 bilhão de economia na energia do país.

Os pioneiros desta mudança são empresas alimentícias, o setor de serviços, manufaturados, shoppings centers e plásticos. Entre os motivos principais que provocam a transição estão a previsibilidade do custo da conta de energia, sem alterações abruptas do mercado comum e independentemente do tempo de contrato, e a possibilidade de escolher a fonte de energia que desejam consumir.

Segundo Cristopher Vlavianos, presidente da Comerc Energia, a crise de 2015 impactou no crescimento do mercado livre pela diminuição do valor da tarifa cativa em 20%, no entanto, os próximos anos garantem um novo domínio das iniciativas livres e sustentáveis.  “Os desafios a serem superados envolvem o financiamento do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDS) que exige contratos de longo prazo e o legado às distribuidoras de contratos que não tem consumo existente”, diz. Para o ano 2017 a Comerc espera um crescimento de 20% no faturamento e 35% no número de clientes.

Um estudo da FGV indica que por cada 10% de incremento no valor da energia elétrica há um impacto de 0,6% na inflação do país. A expectativa para 2017 é que o PIB do mercado livre aumente em 1,6% com novas alternativas para investidores.

Eficiência Solar

Apesar do potencial energético do Brasil, especialistas consideram que ele é ineficiente nas suas instalações solares. Segundo as diretrizes do Acordo de Paris, até 2025 será necessário reduzir 35% o uso de energia, mas o Brasil desperdiça anualmente o equivalente a 67% da Itaipu comprometendo os objetivos climáticos.
O mercado livre gerou R$ 1,2 bilhão de economia no Brasil.
Foto: Arquivo

A transformação já iniciou nos sistemas de geração distribuída e usinas. No Brasil existem 6000 unidades instaladas e a previsão até final de ano é de 20 mil unidades.  Um estudo feito pela Bloomberg afirma que o custo da energia solar de 50 dólares por Megawatt-hora (MWh) diminuirá nos próximos anos. Até 2040 a energia solar será a energia renovável mais barata, gerando também emprego.

No ranking nacional de pequenos consumidores e residências as cidades de Belém com uma geração de 1658 (MWh/ano) e a cidade de Cuiabá com 1717 (MWh/ano) estão no topo. E no ranking de Comércio e Indístria os líderes são Cuiabá (1717 MwH/ano) e Aracajú (1809 Mwh/ano).  De acordo com dados da Comerc Solar, o investimento para uma residência de 4 quartos com consumo mensal de 350 kwh é de 22 mil reais e para um Shopping Center com consumo mensal de 200.000 kwh o custo é de 11 mil reais.

Marcel Haratz, diretor da Comerc Solar, defende que é preciso fazer esforços para que o BNDES melhore a linha de financiamento de eficiência energética, desta forma os clientes reduzirão o consumo e aumentarão sua rentabilidade. Haratz apoia a redução de custos por causa da crise brasileira permitindo um impacto favorável ao mercado.

Gás Natural

A realidade do gás no Brasil não é muito distante, mesmo com as diversas formas de extração o país precisa importar 40% da sua necessidade. Em 2016 o mercado experimentou a redução de suas tarifas impactando de forma positiva no mercado livre. É o caso da Comgas que teve uma redução de 30%, o que não acontecia há muitos anos.

Pedro Franklin, diretor da Comerc Gás, considera que 2017 será o ano de mudanças surpreendentes, entre estas a volta dos leilões de concessão para exploração do pré-sal e o aumento da oferta de óleo e gás no Brasil.  Ele qualifica o governo Temer como um governo pró-mercado que facilitará o crescimento de investidores livres.
A concessão da Petrobrás compartilhará infraestrutura com produtores nacionais.
Foto: Arquivo Petrobrás

Entre os objetivos a nível nacional estão: estabelecer uma parcela fixa para o transporte, fazendo com que produtores paguem um valor estável assim como consumidores.  O valor será dividido por regiões. Franklin afirma que a mudança será realizada de forma lenta para que o impacto não seja radical, porém significativo.

Entre as estratégias está também a concessão da Petrobras. A instituição compartilhará sua estrutura com outros produtores e cobrará um valor por isso. “O mercado livre de energia elétrica existe desde 1995 no Brasil e cresce a passos largos, com consumidores obtendo redução de custo significativa e previsibilidade de orçamento chegou a vez do gás natural”, explica o diretor.

A tendência é que o preço do gás não esteja mais atrelado ao petróleo, no regime tarifário atual os dois caminham juntos, mas a realidade vai mudar nos próximos anos. Mesmo com o aumento do petróleo o objetivo é que o gás permaneça intacto.


Fonte: ENVOLVERDE
Crise agrícola, mesmo com chuva.
Por Franz Chávez, da IPS – 

La Paz, Bolívia, 2/12/2016 – As chuvas finalmente chegaram à Bolívia, embora com grande atraso, rompendo a pior seca em 25 anos, que impactou a atividade agrícola, com milhares de pequenos produtores lamentando a morte de gado e vendo plantações murcharem, e com o governo organizando ações de emergência. “Hoje (29 de novembro) houve a primeira chuva forte que fez correr água pelos canais de irrigação”, contou à IPS, com voz esperançosa, Jaime Mendieta, prefeito do município de Pasorapa, um vale agrícola que fica a dois mil metros de altitude, no departamento de Cochabamba.

Quase simultaneamente, o produtor de frutas e hortaliças Nué Morón contou que as chuvas chegaram no dia 28 à sua região, Saipina, município dos vales no departamento de Santa Cruz, com elevações entre 928 e 2.540 metros de altitude. Tanto Mendieta como Morón são testemunhas de uma temporada agrícola que começou em novembro de 2015 com níveis de chuvas muito baixos e meses de escassa produção de alimentos e forragem para o gado, em uma seca que os especialistas atribuem ao fenômeno El Niño/Oscilação do Sul.

A perdas nas áreas produtoras de alimentos da Bolívia, que em sua totalidade foram afetadas pela seca, estão estimadas até agora em US$ 500 milhões, por causa dos efeitos da seca em cerca de 207 mil hectares de diversos cultivos e à morte de aproximadamente 277 mil cabeças de gado. Nesse país encravado no centro da América do Sul, com 10,9 milhões de habitantes, dos quais 33% vivem em áreas rurais, o setor agropecuário contribui com 10% do produto interno bruto, segundo dados oficiais do segundo semestre deste ano.
Camponesa mostra uma das plantas murchas em sua pequena estufa por falta de água para irrigação, em uma localidade próxima a Sucre, capital da Bolívia. Foto: Franz Chávez/IPS

A situação é “um tanto crítica”, reconheceu à IPS o responsável pela Unidade de Contingência do Ministério de Desenvolvimento Rural, Franklin Condori, ressaltando que cerca de 50 municípios da zona altiplana dos departamentos de Oruro, Potosí, Chuquisaca e La Paz solicitaram ajuda em forragem, produtos veterinários e bebedouros para animais.

“As chuvas se deslocaram para o Oceano Pacífico com padrões de circulação que não foram normais”, explicou à IPS a chefe da Unidade de Prognósticos do Serviço Nacional de Meteorologia e Hidrologia, Marisol Portugal. A análise indica que as regiões de altiplano dos departamentos de La Paz, Oruro e Potosí e parte do vale boliviano sofreram um grave déficit de precipitação pluvial.

Segundo Marisol, “eram esperadas chuvas no nível dos 46,3 milímetros (à razão de um milímetro de água para cada metro quadrado), mas choveu apenas 25,4 milímetros. Esperamos que em dezembro suba até 83 milímetros”. Em um ano impactado pelo El Niño, o responsável de Risco Agrícola, Sergio Alonso Campero, disse à IPS que nos últimos dois meses emitiu boletins de recomendação aos agricultores para que atrasassem a semeadura até os últimos dias de novembro e princípios de dezembro.

As altas temperaturas, incomuns em várias regiões, combinadas com o déficit de chuvas e a evaporação das águas, diminuíram o recurso hídrico para os cultivos e todos esses fatores derivaram na grave seca, explicou Marisol. A seca não açoitou apenas as zonas rurais, mas também provocou esgotamento das reservas de água nas represas que abastecem as principais cidades, entre elas La Paz, sede do governo, o que deixou parte da população sem fornecimento de água.

Em La Paz e na vizinha cidade de El Alto, foi preciso estabelecer um serviço de emergência de fornecimento de água com caminhões-pipa para atender um terço de seus habitantes. Manifestações de protesto pela crise de abastecimento de água aconteceram nessas duas cidades nos dias 23 e 28 de novembro, com o pedido de renúncia da ministra de Meio Ambiente e Água, Alexandra Moreira, e a exigência de construção de novas represas para atender uma demanda em crescimento.

A situação já havia obrigado o presidente do país, Evo Morales, a decretar situação de emergência nacional no dia 21 de novembro. Nesse contexto, ordenou a redistribuição de recursos financeiros nos nove departamentos do país e nos 339 municípios, além de declarar o fornecimento de água potável de interesse social. Outros dois decretos anteriores, dos dias 2 de agosto e 21 de setembro, haviam destinado cerca de US$ 7 milhões para assistência a pequenos produtores com forragem, alimento balanceado e sementes de batata, trigo e alfafa.
Líderes comunitárias e moradores da cidade de El Alto foram em passeata, no dia 23 de novembro, até a vizinha cidade de La Paz, sede do governo da Bolívia, para pedir água potável e protestar pela falta de atenção do governo ao deficitário armazenamento do recurso hídrico. Foto: Franz Chávez/IPS

O responsável pela distribuição da ajuda, Franklin Condori, previu que, entre dezembro e janeiro, se normalizará o ciclo agrícola e anunciou um período de chuvas nas zonas afetadas pela seca. Entretanto, o sudeste do departamento de Cochabamba, no município de Pasorapa, o prefeito Mendieta lamenta a perda de cultivos de milho, trigo, batata e cebola.

Mendieta estimou que alguns agricultores deixaram de receber aproximadamente US$ 7,2 bilhões porque não conseguiram produzir, em média, 32 mil quilos de milho em consequência da falta de água nos sistemas de irrigação. “Há esperança para a nova semeadura, a anterior, entre novembro de 2015 e abril de 2016, foi perdida”, acrescentou. A pecuária da região sofreu outro embate e os cálculos de Mendieta indicam que cerca de 1.200 cabeças de gado morreram entre aproximadamente 18 mil que ficaram agonizantes por falta de forragem e água.

Em Saipina, 240 quilômetros a leste da cidade central de Santa Cruz de la Sierra, 800 hectares de cultivos de melancia, tomate, batata, pimentão e cebola desapareceram. “É a maior perda em uma década, devido à mudança climática, e agora é necessária ajuda imediata com sementes, porque não temos dinheiro para comprar”, ressaltou Morón.

Em outro dado significativo do impacto da seca, a Associação de Produtores de Oleaginosas e Trigo, do departamento de Santa Cruz, confirmou queda na produção de soja, trigo, girassol, milho, sorgo e chia de 726.490 toneladas métricas, significando perda de US$ 205,5 milhões.

O Instituto Boliviano de Comércio Exterior informou à IPS que a falta de chuvas deste ano poderia dificultar a soberania alimentar da Bolívia, com tendência à importação de alimentos e risco de perda de mercados para os produtores nacionais.


Fonte: ENVOLVERDE
Brasil precisa repensar suas restrições ao mercado de carbono.
Por Virgílio Viana, da Fundação Amazonas Sustentável – 

O acordo feito em Paris e reafirmado pelos países em Marrakech pode reverter a tendência de alta da temperatura no planeta, mas as metas ainda não são suficientes para garantir um nível satisfatório de segurança climática
Virgilio Viana, Superintendente da Fundação Amazonas Sustentável.

Durante as falas sobre clima nas Nações Unidas semana passada, nós ouvimos uma clara mensagem da ciência: o aquecimento global está aumentando em uma escala alarmante, mais rápido do que o previsto. Os cenários são bastante preocupantes, com o derretimento de calotas polares, maior freqüência de super tempestades e outros eventos climáticos extremos. Eles tem sido responsáveis por grandes ondas migratórias humanas para cidades com pouca capacidade de absorvê-las, resultando em conflitos, guerras civis e até o colapso de sociedades inteiras como o que temos visto na Síria.

Os compromissos feitos pelos países participantes do Acordo de Paris, se totalmente implementados, podem reduzir as tendências atuais pela metade. Entretanto, isso não é suficiente. Precisamos multiplicar esses compromissos por dois. E isso requer novas abordagens e pensamentos inovadores agora mesmo.

Liderança do Brasil

O Brasil poderia se posicionar como líder em desenvolvimento de uma economia de baixo carbono. Reduzir o desmatamento é a chave para alcançar as enormes reduções em curto prazo que a ciência demanda. Ele pode ser reduzido rapidamente como o caso da Amazônia brasileira bem ilustra. O desmatamento reduziu de 27.000 km² para 6.000 km² no período de 2005 a 2015, resultando na redução de emissão de 5,6 bilhões de toneladas de CO2 – mais do que o alcançado pelo sistema de negociação de emissões da União Europeia (European Trade Scheme).

O problema é que reduzir o desmatamento custa dinheiro – não se trata de simplesmente reforçar a legislação. Mudar de uma era de expansão da agricultura como meio para o desenvolvimento econômico para uma onde florestas velem mais em pé do que cortadas é extremamente caro. Dezenas de bilhões de dólares são injetados na criação de gado e na agricultura todo ano. Enquanto isso, do lado da floresta, populações extremamente pobres precisam melhorar suas condições de vida, especialmente em termos de educação e saúde.
Precisamos agregar valor aos serviços ambientais oferecidos pelas florestas, como a sua habilidade de capturar e armazenar o carbono que está aquecendo nosso planeta. A Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação, além da conservação da floresta e da valorização dos estoques de carbono, é determinada no sistema ONU como REDD+. Os projetos de REDD+ previnem o que o desmatamento aconteça onde há tendência de limpeza de terras para agricultura.

Investir na proteção das florestas tem sido comprovadamente muito mais vantajoso para o planeta e para as pessoas do que outras abordagens. Os projetos REDD+, por exemplo, ajudam a manter os regimes de chuvas tropicais, conservar a diversidade biológica e gerar oportunidades de renda. REDD+ é, portanto, um condutor de desenvolvimento sustentável em áreas florestais.

Desafio para os indígenas

Trabalhamos com milhares de indígenas cujas vidas têm sido transformadas desde que foram treinados para conservar a floresta e ganhar dinheiro da agricultura sustentável. Além disso, a redução das emissões podem acontecer de forma muito mais rápida e a custos mais baixos do que qualquer outra alternativa.

O desafio é desbloquear o financiamento privado para atividade de REDD+. O maior fundo operacional para REDD+ é o Fundo Amazônia (US$1,8 bilhões), financiado majoritariamente pela Noruega, com suporte adicional da Alemanha e da Petrobras. O Fundo capturou cerca de 6% do total de emissões verificadas pelo Brasil. Mas é improvável que muitas outras “Noruegas” embarquem para preencher a lacuna de financiamento.

É por isso que não podemos ignorar o potencial que um regime de comércio de carbono bem elaborado pode ter para o financiamento desses projetos de conservação vitais na Amazônia, África Central e Sudeste Asiático. Nossos vizinhos com quem dividimos a floresta Amazônica reconhecem a importância desse mecanismo de financiamento. O Brasil não atingirá seus compromissos sem ele.

E é também por isso que a Fundação Amazonas Sustentável (FAS), o Estado do Amazonas e a BV Rio lançaram um novo registro online de projetos REDD+ para o Amazonas. A plataforma também inclui um sistema de negociação para reduções de carbono, que poderia gerar o financiamento que projetos de conservação da floresta precisam tão desesperadamente.

ONU e Brasil

Aproveitamos a oportunidade das falas na ONU para clamar ao governo brasileiro que mude sua posição e permita mecanismos de mercado mais amplos para REDD+. Isso foi feito em uma carta aberta, assinada por diversas organizações como a FAS, o Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazonia (IDESAM), Fundação SOS Mata Atlântica e o instituto de pesquisas Imazon.

Investir na mitigação de florestas por meio de REDD+ pode servir como principal contribuinte na lacuna entre compromissos nacionais para redução de emissões e os exigidos pela ciência. REDD+ deve ser visto como uma forma complementar de todos os setores para um avanço em direção a uma descarbonização profunda. Para garantir reduções efetivas, devem ser executados com rigor técnico e cientifico, evitando dupla contagem. Devem ser direcionados a setores específicos como aviação e ter salvaguardas tanto sociais quanto ambientais, para que os grandes benefícios alcancem adequadamente populações indígenas, as guardiãs da floresta.

Em contraste com outras opções, a REDD+ também oferece cobenefícios que são muito mais necessários para impulsionar a resiliência ecossistêmica e reduzir as desigualdades sociais globalmente. Tornar mais “verde” o setor energético não será o suficiente e leva tempo demais. 

Precisamos tomar atitudes corajosas e inovadoras agora enquanto ainda há tempo. E o Brasil deve liderar essa transição para economia verde, sendo um dos maiores e mais biodiversos países do mundo.


Fonte: ENVOLVERDE