sábado, 23 de março de 2019


Quem vai salvar a floresta? Entrevista de Sonia Guajajara ao New York Times.


Por Carol Giacomo, traduzido da publicação original do New York Times / Mídia Ninja.

Quem vai salvar a Floresta Amazônica?

A batalha das lideranças indígenas para salvar suas terras e suas vidas.
Povos indígenas da Floresta Amazônica são as tropas da linha de frente na luta contra a mudança climática. “Nós somos os primeiros a ser afetados”, diz Sônia Guajajara, uma das mais conhecidas lideranças indígenas do Brasil.

“Nós estamos vendo inundações que duram mais, estamos vendo secas mais longas, estamos vendo a diminuição dos peixes com a seca”, disse ela recentemente ao conselho editorial do The Times. “E isso afeta nossa segurança alimentar. Isso também afeta nossa cultura ”.

A floresta amazônica, um tesouro ambiental de mais de dois milhões de metros quadrados em todo o Brasil e outros oito países, é às vezes chamada de “pulmões do planeta” porque as árvores liberam tanto oxigênio e absorvem tanto dióxido de carbono, amaciando os efeitos das Alterações Climáticas. É também o lar de uma diversidade incomparável de espécies animais e vegetais, bem como cerca de um milhão de indígenas só no Brasil.

Embora há muito tempo em perigo, a floresta está sob maior ameaça agora sob a presidência de Jair Bolsonaro, um líder populista polarizador nos moldes do presidente Trump que assumiu o cargo em janeiro e se encontrará com Trump na Casa Branca hoje.

Bolsonaro agiu rapidamente para minar as proteções ao meio ambiente, aos direitos indígenas à terra, às organizações não-governamentais e basicamente a qualquer um que discordasse dele.

“Ainda nos primeiros 50 dias do governo Bolsonaro houve uma reversão de 30 anos de progresso”, disse Guajajara. “Tudo o que estamos tentando construir, tentando construir desde então, estamos tentando continuar em pé.”

Seu trabalho com a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil concentra-se em garantir seus direitos, incluindo reivindicações de terras de florestas tropicais ancestrais. O Brasil perdeu quase 10% de sua cobertura florestal entre 2000 e 2017, segundo o World Resources Institute. Agora, Bolsonaro está aumentando ainda mais a ameaça com um pedido de investimento econômico para explorar as florestas, os minerais e outros recursos naturais do país.

Desde sua posse, Bolsonaro enfraqueceu ou desvinculou agências governamentais que supervisionam as proteções para a Amazônia e os povos indígenas e atribuiu essas responsabilidades ao ministério da agricultura pró-agricultura, pró-mineração e pró-madeira.

O resultado é que os povos indígenas, que garantiram proteção do governo para cerca de 13% do território brasileiro, temem que não haja mais terras demarcadas, disse Guajajara.

Terras que são formalmente reconhecidas como “terras coletivas” são de propriedade do governo, mas garantidas pela Constituição para o uso exclusivo de grupos indígenas. Bolsonaro diz que quer que essas terras sejam “mais produtivas”.

Guajajara, que concorreu sem sucesso a vice presidência nas últimas eleições, como candidata do partido de esquerda Partido Socialismo e Liberdade, disse que isso significaria o começo do fim das culturas indígenas. “E para mim, isso é tipo de etnocídio”, disse ela. “Etnocídio é quando você mata a cultura. O genocídio é quando você mata as pessoas.

Líderes mais sábios do que Bolsonaro procuraram formas de expandir o desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo respeitando os povos indígenas e reconhecendo as contribuições insubstituíveis da Amazônia para deter as mudanças climáticas. Pesquisas mostram que as comunidades indígenas são os melhores administradores da terra.

O Brasil tem uma história de conflito sobre desenvolvimento e conservação. Isso está ocorrendo em um processo civil que acusa o estado de genocídio, quando centenas, talvez milhares, de índios da etnia Waimiri-Atroari morreram entre 1968 e 1977, quando uma estrada foi construída à força pela Amazônia, informou a Associated Press.

Em uma audiência em uma reserva remota da Amazônia no mês passado, seis anciãos indígenas disseram a um juiz como a ditadura militar tentou erradicá-los com armas, bombas e produtos químicos.

Agora, décadas após esse período, de acordo com a Sra. Guajajara, Bolsonaro está afirmando que “não existe um povo indígena” e insistindo que ele quer “unificar todos nós em uma cultura”. Isso é ofensivo e irrealista, dado que O Brasil abrange mais de 300 grupos étnicos, incluindo talvez 100 que não têm contato com a sociedade e cerca de 274 idiomas.

Pelo menos, a eleição de Bolsonaro parece estar deixando claro o que poderia ser perdido para suas políticas e estar persuadindo grupos marginalizados – os pobres, mulheres, crianças, povos indígenas – a se unirem em uma causa comum.

A eleição de Bolsonaro também chama atenção e questiona a boa fé da proposta de uma coalizão internacional de grupos indígenas da Amazônia para a Conferência das Nações Unidas sobre Biodiversidade no ano passado para criar um santuário de floresta tropical do tamanho do México.

Se há esperança para a Floresta Amazônica e para países onde as autoridades ameaçam a democracia e as agendas progressistas, ela vive na determinação e poder de ativistas da sociedade civil como Sônia Guajajara.

Foto destaque: Pablo Alvarenga


Fonte: ENVOLVERDE

Desastres naturais: é isso mesmo?


por Fabio Feldmann

Mudanças radicais estão associadas ao aquecimento global.

Os últimos meses têm submetido os brasileiros a intenso calor e chuvas torrenciais, a exemplo do que aconteceu em São Paulo recentemente. No que tange ao calor excessivo, o uso de ar-condicionado não tem sido suficiente para atenuar as altas temperaturas e representa uma enorme demanda de energia, sem que haja certeza da capacidade da nossa infraestrutura em garantir o respectivo aumento da demanda.

As chuvas torrenciais provocam mortes por soterramento e algumas pessoas desaparecem afogadas por força das águas. Nesse cenário sinistro constata-se um relevante sentimento de impotência diante desses “desastres naturais” e, com o fim do período das chuvas, tudo volta ao normal como se fossem meras “chuvas de verão”.

As reportagens televisivas, por sua vez, repetem um novo jargão: “choveu hoje o equivalente a todo o mês de março”. Quer dizer que estamos diante, inequivocamente, de uma mudança radical do ciclo hidrológico, de modo que chuvas intensas, em tempo curto, passaram a ser parte de nosso cotidiano. 

Porém, torna-se necessário apontar que estas mudanças radicais estão associadas ao aquecimento global e às mudanças ambientais locais e regionais. O IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), há muitos anos, cuida, com rigor científico, dos impactos adversos da mudança do clima, notadamente no ciclo hidrológico e no aumento dos denominados eventos climáticos extremos.

Estas preocupações se traduziram em legislações específicas que definem obrigações na mitigação (redução dos gases efeito estufa) e também na adaptação, reconhecendo que a mudança do clima, do ponto de vista legal, exige que o poder público assuma suas responsabilidades em termos muito concretos. Há uma percepção equivocada de que a redução de GEE (gases do efeito estufa) dependeria, fundamentalmente, de compromissos internacionais, a exemplo do Acordo de Paris, firmado em 2015. Trata-se de um erro grosseiro imaginar que antes de agir poderíamos nos dar ao luxo de aguardar que os outros fizessem a sua parte.

As tragédias recentes demonstram que estamos, criminosamente, deixando de nos preparar para os grandes impactos em curso do aquecimento global, em que pese a existência de planos de adaptação, que servem, unicamente, para “inglês ver”. Associa-se a isso o deliberado descaso com o meio ambiente de maneira geral, permitindo-se, demagogicamente, a ocupação de encostas e margens de rios, deixando as cidades desprovidas de infraestrutura mínima para enfrentar os ditos “desastres naturais”. Ao contrário, continuamos a impermeabilizar, em grandes extensões, o solo, suprimimos fragmentos florestais que estabilizam as encostas e impedem o agravamento das enchentes e inundações e “autorizamos” a ocupação de áreas de mananciais em todo o Brasil pelo crime organizado.

Temos que encarar a mudança do clima e a degradação ambiental como itens obrigatórios da agenda brasileira, com o poder público passando a levar a sério suas obrigações constitucionais e a sociedade, por sua vez, deixando de considerar as tragédias como meros e inevitáveis desastres naturais.

Passou a época em que o aquecimento global era considerado preocupação do futuro e desprendida do cotidiano dos brasileiros. De um lado, cuidar dos prejuízos e perdas das tragédias e, de outro, fazer o que é preciso para que, no próximo verão, não tenhamos uma reprise em preto e branco, absolutamente previsível, do que tem ocorrido no Brasil e no mundo.

Fabio Feldmann – Ex-deputado constituinte, deputado federal por três mandatos (1986-1998) e ex-secretário de Meio Ambiente do Estado de São Paulo (1995-1998, governo Covas).


Fonte: ENVOLVERDE

A responsabilidade socioambiental empresarial existe mesmo na prática?


por Marcus Nakagawa

O ano letivo nas escolas e faculdade está começando e tenho certeza que esta pergunta virá por meio dos alunos e alunas ou pelos meus colegas professores.

Neste momento muito delicado em que muitas vidas humanas foram retiradas e um sistema ecológico todo entrou e está entrando em colapso, fica muito evidente a enorme preocupação com o controle, a legislação e a gestão do impacto das ações empresariais no Brasil e no mundo.

Fiquei tentado em escrever ou comentar como muita gente fez no começo deste triste momento de Brumadinho (MG). Mas acabei acompanhando e escutando muitas versões e argumentos, e vi muita gente que da noite para o dia virou especialista em gestão ambiental, conhecedor de relacionamento com a comunidade, mineração, geografia e topografia etc.

Não que o conhecimento deva ficar na alçada de somente um profissional, mas temos que escutar, estudar e entender os especialistas para emitir opiniões e circular informações nas redes sociais que, ainda, muitas vezes, podem ser falsas. O aprendizado é muito importante, mas não podemos transformar as informações em verdades universais ou em hinos de torcida de time de futebol.

Já trabalhei em departamentos de responsabilidade socioambiental e sustentabilidade de grandes empresas das áreas de alimento e eletrônico, anteriormente, e fico muito preocupado em ser questionado se estes departamentos são realmente sérios ou se servem somente como marketing.

Um exemplo é que, dentro destas mesmas empresas, muitos dos meus colegas colocavam como o departamento que abraçava árvores e cuidava de crianças e adolescentes, com um tom muito pejorativo.

Realmente, para trabalhar nestes departamentos precisa ter muita resiliência para poder atender às várias demandas dos públicos impactados pela empresa, sabendo que dentro desses públicos estão também a comunidade e o ambiente.

Os interesses são muitos, partindo pelos acionistas e as entregas de resultados; os clientes e os consumidores, por serviços e produtos de qualidade; os fornecedores, por pagamento em dia e entrega; os funcionários, pelas suas demandas diárias no trabalho, além de ter que prestar atenção ao processo produtivo para que não se perca nada.

E ainda existe a gestão da comunidade do entorno e do ambiente em que está inserido. É um olhar holístico que os gestores e os acionistas precisam ter cada dia mais. O olhar linear e a análise do real impacto de cada ação das corporações precisam ser revistos urgentemente.

A mentalidade dos novos gestores e acionistas precisa passar pela efetiva ação e pensamento diário do tripé da sustentabilidade: ambiental, social e financeiro. Este termo foi cunhado por John Elkington, que publicou em junho de 2018 na Harvard Business Review estar fazendo um recall deste termo.

Neste ano de 2019, o conceito faz 25 anos e Elkington diz que precisa fazer uma afinação ou uma melhoria como as montadoras fazem com os carros ou geladeiras quando vêm com problemas.

O visionário diz que daqui a 25 anos poderemos olhar para trás e apontar que neste momento começamos colocar efetivamente a tríplice hélice na criação de valor e no código genético do capitalismo, estimulando a regeneração de nossas economias, sociedades e biosfera.

Se somarmos a esta visão com os anseios desta sociedade indignada com a falta de foco das empresas, com as questões ambientais e as sociais, poderemos quem sabe transformar mais esta realidade.

Além disso, tem muita gente trabalhando para fortalecer e engrandecer outros movimentos, como o do capitalismo consciente, empresas B, negócios de impacto social, finanças sociais, empreendedorismo social, entre outros.

Movimentos estes que estão tentando agregar nas empresas o real valor das questões ambientais e sociais, sem esquecer-se do lucro. Mas não levando o lucro dos acionistas acima de tudo, de vidas, da biosfera e de questões éticas.

Não podemos ser ingênuos e achar que empresas que buscam seus materiais na natureza têm que ser extintas de uma hora para outra. Ainda, para este tipo de sociedade, precisamos buscar a base dos nossos produtos e serviços na natureza. Mas, não é possível que temos tanta tecnologia, inteligência, pesquisa e tudo mais para fazer isso sem “machucar” ou impactar tanto a biosfera e as pessoas.

Temos nanotecnologia, inteligência artificial, carros e drones andando sozinhos, exoesqueletos, robôs, biotecnologia, vamos para Marte e para Lua, e não fazemos o básico de gestão, arriscando vidas e a biosfera por um lucro grande e rápido.

Temos que repensar neste tipo de sociedade que queremos. Temos que gerenciar não só no lucro, mas também nas outras duas partes da hélice: social e ambiental. Temos que não esquecer de tudo isso que aconteceu com estas famílias e pessoas que foram expostas e compartilhadas nas redes sociais por milhares de pessoas.

Não podemos esquecer os rios e as milhares de plantas e animais que estão morrendo, e tomar uma atitude no nosso dia a dia.

Sim, as suas decisões diárias podem afetar tudo! Seja numa decisão na empresa que você trabalha, na escola que você estuda, ou dentro da sua casa com a sua família.

E não, a responsabilidade socioambiental não morreu, ela se fortaleceu, pois agora o público em geral também começa a entender o que uma empresa precisa cuidar além do seu lucro! A responsabilidade socioambiental tem que estar na teoria e, principalmente, na prática do dia dia!

Marcus Nakagawa – Professor da ESPM e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (Ceds), é idealizador e diretor da Abraps e palestrante sobre sustentabilidade, empreendedorismo e estilo de vida.

Fonte: ENVOLVERDE

Projetos protegem 3,9 milhões de hectares de florestas em Mato Grosso, Rondônia e Amazonas.


Iniciativas apoiadas pelo Programa Petrobras Socioambiental também já recuperaram 1.700 hectares de áreas degradadas.

No dia Internacional das Florestas, cinco projetos apoiados pelo Programa Petrobras Socioambiental na Amazônia comemoram a proteção de mais de 3,9 milhões de hectares de florestas e a recuperação de 1.700 hectares de áreas degradadas. As iniciativas acontecem em terras indígenas, reservas extrativistas e propriedades de agricultura familiar no Amazonas, Mato Grosso e em Rondônia.

Os projetos envolvem atividades de assistência técnica para indígenas, extrativistas, pequenos produtores rurais, produção de mudas, educação ambiental e acesso a mercados. Com o trabalho, mais de 6,5 mil pessoas são beneficiadas pelos projetos, cujo apoio vai desde a oferta de cursos de formação até a compra de equipamentos e construção de infraestrutura de apoio à produção.


Em Mato Grosso, a Associação Pacto das Águas ajuda extrativistas da Reserva Guariba Roosevelt e indígenas Rikbaktsa das terras Escondido e Japuíra com a melhora na qualidade da produção de castanha e borracha e com apoio no acesso a mercado. São mais de 800 pessoas envolvidas diretamente e 485 mil hectares de florestas que são protegidas gerando renda para as comunidades.

Só no ano passado, a comercialização de 80 toneladas de castanha e 11 toneladas de borracha nativa de alta qualidade gerou um faturamento de R$ 50 mil para as três comunidades. “Isso é um resultado incrível para as comunidades. Antes do projeto, a maioria dos extrativistas nem recebia pela venda dos produtos, acabava trocando por mercadorias. Com o projeto, as comunidades ganham mais autonomia”, comemora Emerson de Oliveira, coordenador do projeto que leva o mesmo nome, Pacto das Águas.

Na mesma região, o projeto Poço de Carbono Juruena, desenvolvido pela Associação de Desenvolvimento Rural de Juruena – Aderjur, oferece alternativas sustentáveis de renda aos agricultores familiares e povos indígenas, incentivando o extrativismo de castanha-do-brasil e babaçu, além do uso de sistemas agroflorestais.
No Poço de Carbono, os agricultores têm diversas opções de cultivos e uma renda garantida e melhor distribuída ao longo do ano. Além do benefício econômico, os sistemas agroflorestais “imitam” o comportamento da floresta, armazenando carbono e ajudando a mitigar os efeitos das mudanças climáticas.
“Nós temos uma forte experiência com a castanha-do-brasil, em que 300 famílias de agricultores e indígenas produziram, somente na última safra, 200 toneladas de castanha e produtos derivados e geraram uma renda de 2,5 milhões de reais”, explica Paulo Nunes, coordenador do projeto. Isso representa apoio a proteção de quase 1,6 milhão de hectares. Além disso, outros 100 hectares de áreas degradadas estão sendo recuperados pelo projeto.

Em Rondônia, dois projetos incentivam a recuperação de áreas degradadas. Desenvolvido pela CES Rioterra desde 2010, o projeto Semeando Sustentabilidade já recuperou 350 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP), atendendo a mais de mil agricultores familiares em 17 municípios. 

Além disso, o projeto também distribuiu mais de 1 milhão de mudas de diversas espécies, o suficiente para recuperar mais de 900 hectares de áreas degradadas. Pelos cálculos do CES Rioterra, o plantio dessas árvores resulta em mais de 52,3 milhões de toneladas de gases de efeito estufa como o dióxido de carbono (CO2) removido da atmosfera. “Com todo o nosso trabalho de educação e esclarecimento os agricultores já começam a perceber o retorno dos serviços ambientais que melhoram a sua produção, ou seja, agora ele entende a importância de se adequar para além da legislação, mas principalmente quanto ao meio ambiente por meio da regeneração do solo e da floresta”, reforça Fabiana Barbosa, gerente Geotecnologia e Pesquisa da CES Rioterra.

Outros 350 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP’s) e Sistemas Produtivos Sustentáveis em oito municípios da zona da mata rondoniense e centro sul do estado de Rondônia, foram e estão sendo recuperados pelo projeto Viveiro Cidadão, realizado pela Ecoporé, desde 2013. A iniciativa atua com mais de 600 proprietários rurais, entre agricultores familiares, mulheres do campo e jovens agricultores, onde já distribuiu de mais de 1 milhão de mudas de diversas espécies frutíferas e florestais.

As mudas e apoio técnico do projeto têm mudado a vida das comunidades. “Eu tenho duas áreas que quero utilizar com apoio do projeto, uma em que eu vou plantar agrofloresta e outra que quero recuperar utilizando espécies apícolas. Se não fosse o Viveiro Cidadão e os técnicos me incentivando nada disso poderia se tornar realidade”, conta a jovem Ana Lúcia Cardoso Martins, de 18 anos, filha de agricultores familiares de Pimenta Bueno.
No Amazonas, o projeto Raízes do Purus apoia quatro povos indígenas de seis terras indígenas na bacia hidrográfica dos Médios rio Purus e Juruá. Juntos, estes territórios protegem uma área de 2,3 milhões de hectares de floresta, da qual cerca de duas mil pessoas tiram seu sustento sem desmatamento, associando o trabalho com as cadeias de valor da sociobiodiversidade a ações de vigilância e proteção territorial. As atividades são coordenadas pela Operação Amazônia Nativa (Opan) e incluem apoio ao manejo sustentável do pirarucu e dos sistemas agroflorestais.

O povo Paumari, por exemplo, tem o manejo de pirarucu como sua principal atividade econômica. 

Em 2018, com apoio do projeto, conseguiram comercializar 30 toneladas do peixe. Já o povo Deni realizou sua segunda pesca manejada de pirarucu e conseguiu comercializar 70 peixes em parceria com as comunidades extrativistas da região. “Não gabando a gente mesmo, mas o nosso peixe é da melhor qualidade”, diz o coordenador do manejo Francisco Paumari.

Agroflorestas também fazem parte das atividades incentivadas com os recursos da Petrobras. É o caso do povo Apurinã, que está ampliando suas unidades de sistemas agroflorestais na Terra Indígena Caititu. O quarto povo apoiado pelo projeto da Opan, o Jamamadi, vem trabalhando pela melhoria da qualidade da farinha de mandioca. O foco é produção para consumo próprio, mas eles trabalham com a com possibilidade de comercialização do excedente.

Fatos e dados

Geral

  • 2,7 milhões de hectares de floresta protegidos em três estados
  • Mais de 4 mil pessoas envolvidas
  • 600 hectares de áreas degradadas em recuperação
  • 2 milhões de mudas plantadas
Mato Grosso
  • 2mil hectares de floresta protegidos
  • Povo indígena beneficiado: Rikbaktsas das Terras Indígenas Escondido e Japuíra
  • Extrativistas da Reserva Extrativista Estadual Guariba Roosevelt
  • Municípios abrangidos: Aripuanã, Colniza, Cotriguaçu, Juara, Juruena e Rondolândia
Rondônia
  • 600 hectares recuperados
  • 2 milhões de mudas plantadas
  • 25 Municípios abrangidos: (CES Rioterra + Ecoporé)
Amazonas
  • 2,3 milhões hectares de floresta protegidos
  • Povos indígenas envolvidos: Deni, Jamamadi, Paumari e Apurinã
  • Terras Indígenas: TI Paumari do Lago Cuniuá, TI Paumari do Lago Paricá, TI Paumari do Lago Manissuã, TI Jarawara/Jamamadi/Kanamanti, TI Caititu e TI Deni.
  • Municípios abrangidos: Carauari, Itamarati, Lábrea, Tapauá.

Fonte: ENVOLVERDE


Água: os custos econômicos e sociais do desperdício.


por Dal Marcondes, especial para a Envolverde

Quando a colônia brasileira começou a ser ocupada em 1500, e os europeus começaram a fundar cidades, pequenas fontes de água bastavam para abastecer uns poucos cidadãos e animais. Ficar perto de grandes rios não era parte dos planos de José de Anchieta e Manoel da Nóbrega. O Colégio dos Jesuí-tas fincou pé num outeiro, lugar apropriado para se defender dos possíveis ataques de índios, mas com muito pouca água. Contudo, dessa vila nasceu São Paulo, metrópole de quase 20 milhões de habitantes que precisam de cerca de 80 litros de água tratada por pessoa, ao dia, para suas necessidades domésticas. Um volume que já não consegue mais ser atendido pelos mananciais próximos, que, pelos critérios da ONU, têm sete vezes menos a capacidade necessária à população que atendem. É preciso ir buscar o líquido cada vez mais longe e tratar águas cada vez mais poluídas, a fim de torná-las próprias para o consumo.

Um levantamento recém-divulgado pela Agência Nacional de Água (ANA) aponta que o problema do abastecimento é generalizado pelo País. Dos 5.565 municípios brasileiros, mais da metade terão problemas de abastecimento até 2015. E para tentar adiar o problema por ao menos uma década será preciso desembolsar 22 bilhões de reais em obras de infraestrutura, construção de sistemas de distribuição, novas estações de tratamento e manutenção de redes muito antigas, que perdem mais de 30% da água tratada antes de chegar à casa dos clientes. E nesse valor não estão incluídos os recursos necessários para resolver o problema do saneamento básico, com a construção de sistemas de coleta de esgoto e estações de tratamento, de forma a proteger os mananciais onde se faz a captação para consumo humano. Para isso, segundo a ANA, serão necessários outros 47,8 bilhões de reais.

Os investimentos não são necessários apenas porque 13% dos brasileiros não têm um banheiro em casa, ou porque mais de 700 mil pessoas entopem os serviços de saúde a cada ano em virtude de doenças provocadas pelo contato com água contaminada por esgotos, ou ainda porque sete crianças morrem por dia vítimas de diarreia, engrossando a estatística de mortes por problemas gastrointestinais (em 2009, elas somaram 2.101 casos). Acredita-se que mais da metade poderiam ter retornado com saúde para suas famílias, ou mesmo nem ter ficado doentes, caso o Brasil estivesse entre as nações que oferecem saneamento básico universal à população.

Para tornar a situação ainda mais dramática, um pesquisador da Universidade do México, Christopher Eppig, concluiu: crianças que enfrentam doenças, principalmente ligadas a diarreia e desidratação, podem ser afetadas em seu desenvolvimento intelectual. Segundo ele, a explicação é simples. Alguns parasitas alimentam-se de partes do corpo humano e a reposição desse dano tem alto custo energético. 

“Em um recém-nascido, 87% das calorias absorvidas na alimentação vão para o cérebro, porcentagem que cai para 23% na fase adulta. Daí a preocupação em se saber se doenças que “roubam” energia das crianças podem afetar seu desenvolvimento intelectual.”

Especialistas apontam que a questão da água, ao menos no caso brasileiro, está mais ligada a problemas relacionados à gestão do que à escassez propriamente dita. Com 12% da água doce superficial do planeta, grande parte dela na Bacia Amazônica, o País deveria estar tranquilo em relação ao futuro do abastecimento. Mas a distribuição da água pelo território é desigual, principalmente quando comparada à concentração da população. A Região Norte tem 68% da água e apenas 7% da população. O Nordeste e o Sudeste concentram 72% dos habitantes e menos de 10% da água. O cientista José Galizia Tundisi, autor do livro “Água no Século XXI” e especialista nas dinâmicas de rios, lagos e outros mananciais, acredita que uma das primeiras providências a serem tomadas para melhorar a gestão dos recursos hídricos é “realizar a avaliação econômica dos serviços prestados pelos recursos dos ecossistemas aquáticos”. Para ele, instituir um valor para esses serviços é a base para uma governança adequada, essencial para o controle de clima, o abastecimento e a produção de energia e alimentos, entre outras atividades humanas.

Muitas empresas compreenderam o desafio e estão adiantadas na gestão dos usos de água em seus processos produtivos. A indústria de celulose, por exemplo, reduziu em quase 50% suas necessidades de água por tonelada de produto desde a década de 1970. Segundo a associação do setor, a média era de 100 metros cúbicos de água por tonelada de celulose e caiu para apenas 47 metros cúbicos atualmente. Outros setores seguiram a mesma linha, não apenas ao reduzir a quantidade de água necessária por unidade de produto, mas ao implantar sistemas de tratamento de águas industriais que permitem fechar o ciclo entre o uso e o reúso, como é o caso da germânica Basf em suas unidades do ABC Paulista e Guaratinguetá. Nos últimos dez anos, a companhia conseguiu reduzir em 78% o consumo de água por tonelada produzida e em 62% a geração de efluentes de seus processos industriais. São exemplos que poderiam ser difundidos por diferentes setores, pois a água é um insumo fundamental à agricultura e à indústria. Sua gestão não tem relação apenas com o bem-estar da população, mas com a saúde da economia.
Quase tudo que é produzido no País tem sua cota de água embutida. Os especialistas denominam de “água virtual”. Como exemplo, para se produzir 1 quilo de arroz são necessários 3 mil litros de água, e 1 quilo de carne bovina precisa de 15,5 mil litros. Uma simples xícara de café não gasta menos do que 140 litros de água. Não é que essa água desapareça depois de servido o cafezinho, mas para se chegar aos produtos tão necessários nas mesas das pessoas é preciso que ela esteja não apenas disponível, mas limpa, isenta de contaminações por esgotos ou produtos químicos. E há mais. Para um automóvel chegar à garagem dos brasileiros, o consumo de recursos hídricos chega a 150 mil litros. Ou seja, a economia precisa, e muito, de água de boa qualidade. Isso sem mencionar o fato de que 18% das faltas de trabalhadores ao serviço poderiam ser evitadas com uma gestão mais eficaz dos recursos hídricos.

O estudo lançado pela ANA é um primeiro passo para um importante debate sobre como o estresse hídrico dos mananciais afeta o abastecimento das principais regiões metropolitanas e piora a situação da água em todos os municípios brasileiros. Para ela, é necessário encarar o fato de que a segurança no abastecimento de água é estratégica e que o recurso é escasso. “Precisamos investir na infraestrutura, mas também mudar a forma de usar esse recurso e coibir os desperdícios”, disse na terça-feira 22, escolhido para ser o Dia Mundial da Água. Segundo a ministra, os investimentos necessários para minimizar os problemas com água, estimados pela ANA em 22 bilhões de reais, já estão sendo feitos em diversas esferas de governo, nas obras do PAC, do governo federal, e por estados e municípios. Ela lembra, porém, que existem fatores que dependem de mudanças de comportamento da sociedade.

A questão da gestão dos recursos hídricos passou por uma grande transformação no Brasil no fim do século passado, quando as empresas estaduais de água e saneamento perderam o monopólio do mercado. Muitas foram municipalizadas e outras privatizadas, além de terem continuado a existir companhias estaduais, como o caso da Sabesp, em São Paulo, uma referência para o setor. A Sabesp é a única empresa de saneamento a fazer parte do Índice Dow Jones Sustainability, e do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) da BM&F-Bovespa, a Bolsa de Valores de São Paulo. Mas o período de mudanças no País não foi tranquilo nem a gestão privada se mostrou um bom negócio em todos os casos. A cidade de Manaus, por exemplo, foi a primeira capital a privatizar os serviços. O abastecimento não deveria, aliás, ser problema para um município que tem quase 10% da água doce do planeta a escorrer à sua porta pelos rios Negro, Solimões e Amazonas. Mas não é bem assim. Em 2000, a gestão foi transferida para a francesa Suez, a mesma que, por sua administração desastrada, quase provocou um golpe de Estado na Bolívia.
Para os franceses, parecia fácil. Havia muita água disponível e uma população de quase 2 milhões de habitantes que deveria pagar por ela. Tradicionalmente, o serviço público de água da cidade era muito ruim, portanto, “bastaria oferecer um bom serviço” para a conta fechar. Ledo engano. Como o serviço público nunca funcionou, a elite urbana da cidade nunca dependeu dele. A maior parte das casas e condomínios abastados tem seu abastecimento garantido por poços artesianos, um serviço que, depois de implementado, é de graça, sem conta mensal. A empresa francesa ficou apenas com a gestão do consumo da população pobre e com a obrigação de recolher o esgoto da cidade, pelo qual também não se pagava, uma vez que a taxa de esgoto está embutida na conta de água. Em 2007, a Suez saiu da sociedade com o grupo brasileiro Solvi e a Águas do Amazonas continua privatizada, mas agora sob a gestão de um grupo nacional que teve de renegociar as condições do contrato de concessão com a prefeitura.

O esgoto não tratado tem impacto sobre outro setor estratégico da economia, o turismo. 

Principalmente no Nordeste, a presença de “línguas negras” a cruzar praias que deveriam ser refúgios ambientais assusta os operadores turísticos e preocupa o setor hoteleiro. Mas mesmo regiões do “Sul Maravilha”, como Santa Catarina, muito buscada por turistas sul-americanos, padece da falta de infraestrutura. Florianópolis tem apenas 67% de acesso à rede de esgotos, enquanto o badalado município de Canavieiras tem pouco mais de 40% do esgoto coletado. As duas cidades têm as melhores redes estaduais. A quinta colocada não chega a tratar 3% dos dejetos.

Um dos indicadores fundamentais de desenvolvimento é o acesso à água de boa qualidade e a coleta e tratamento universal de esgotos, setores em que o País ainda tem muito a caminhar. Dados de 2007 do IBGE mostravam que 90% dos domicílios têm acesso a redes de água tratada. Na área rural, o número não passa de 50%, enquanto no caso da coleta e tratamento de esgotos os dados são completamente díspares. Vão de 40% a 77% de esgotos coletados. Mas apenas 36% passam efetivamente por uma estação de tratamento antes de serem devolvidos aos cursos d”água.

Colaborou Naná Prado

Dal Marcondes é jornalista, diretor da Envolverde, recebeu por duas vezes o Prêmio Ethos de Jornalismo e é reconhecido como um “Jornalista Amigo da Infância” pela agência ANDI.

Fonte: ENVOLVERDE

segunda-feira, 18 de março de 2019


Mobilidade urbana em transformação.


Por Leno Silva

Passei ao lado de um ponto de taxi, aqueles lugares reservados aos profissionais que se dedicam ao serviço de levar e trazer pessoas, e que nos anos 1990/2000 pagavam ao poder público para ter direito às vagas marcadas e limitadas, as quais, normalmente, ficavam em frente a edifícios comerciais, ou em ruas de grande fluxo.

Havia apenas um taxista no ponto, e ele aproveitava a inexistência de passageiros para cochilar. Imediatamente pensei quantos motoristas de aplicativos estavam circulando pela cidade no mesmo instante. Embora a transformação desse segmento seja realidade, muitos aguardam tranquilamente, parados, a chegada dos clientes.

Ainda não sabemos quais mudanças enfrentaremos nos próximos anos no que diz respeito às formas de locomoção nas cidades. Hoje, além dos transportes públicos conhecidos: ônibus, Metrô, Trem, VLT; os privados táxis, bicicletas, automóveis e motos privadas; aplicativos para carros, bikes e patins, e os sistemas de locação de veículos por diária e por hora, outras novidades surgirão para democratizar mais as escolhas de mobilidade, sem deixar de considerar que entre distâncias curtas e médias, andar a pé torna-se cada vez mais comum.

Nesse festival de alternativas, todos ganham. Na maior cidade do país embora, no início da novidade alguns conflitos ocorreram, a convivência entre os taxistas e os motoristas de aplicativos está pacificada porque existem clientes para todos, e os equipamentos oferecidos nas malhas administradas pela prefeitura e pelo governo do Estado, exceto nos horários de pico, atendem razoavelmente bem as demandas dos usuários.

Entre os prestadores de serviços dos pontos fixos de táxis demarcados no asfalto e os milhares de motoristas de aplicativos prontos para atender aos clientes no mais variados bairros da cidade, os paulistanos estão aprendendo a circular mais pela cidade, e a fazer usos mesclados das distintas opções de mobilidade, ou não, dependendo da pressa, da importância do compromisso, do recurso disponível e das condições metereológicas.

No verão, por exemplo, quando São Pedro resolve mandar calor, chuva e vento ao mesmo tempo, o sistema inteiro de mobilidade entra em pânico e o caos se instala na metrópole. Aí, o jeito é ter paciência e sabedoria para lidar com as imprevisíveis forças da natureza e as suas consequências passageiras mas, às vezes, inesquecíveis. Por aqui, fico. Até a próxima.

Fonte: ENVOLVERDE

Nema monitora a vegetação da Caatinga nas áreas de influência do Projeto de Integração do Rio São Francisco.


Acompanhar possíveis impactos na diversidade da flora da Caatinga em áreas influenciadas pelas obras do Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional (Pisf). Esta é uma das ações realizadas pelo Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (Nema) da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Conforme as pesquisas realizadas, houve variação moderada na vegetação das áreas diretamente afetadas pelo projeto.

Ao longo da instalação da obra não houve variação significativa da riqueza, no entanto o número de indivíduos de cada espécie variou. Apesar disso, não houve mudança significativa na estrutura da comunidade e na composição de espécies. Com relação às espécies herbáceas, foram identificadas duas espécies exóticas, sem registros nos bancos de dados nacionais até 2007 nas áreas próximas à obra e que alteram a biodiversidade, a Eragrostis ciliaris e a Oxalis corniculata.
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Arquivo NEMA

De acordo com a gerente de estudos e projetos do Nema, Christiane Corrêa, “para avaliação mais precisa do impacto do PISF é fundamental manter o acompanhamento da diversidade vegetal, já que a extinção local de uma espécie é um processo lento e que depende de alterações importantes nas características ambientais”, explica. A gerente ainda ressalta que as avaliações de impacto ambiental associados à obra também devem considerar aspectos climáticos particulares da região, que é marcada por períodos de secas prolongadas.

Com a operação da obra a natureza dos impactos ambientais deve mudar. Haverá um aumento de disponibilidade da água, que deve oferecer suporte para o enfrentamento dos períodos de secas prolongadas. Com isso espera-se que haja um estímulo ao desenvolvimento de atividades agropecuárias e aumento da população na zona rural. Dessa forma, o monitoramento dos impactos ambientais nessa nova etapa da obra é muito importante para avaliar as possíveis modificações da biodiversidade.

Monitoramento da Diversidade Vegetal do Pisf

Realizado pelo Nema desde 2011, o objetivo desse monitoramento é analisar as possíveis mudanças na comunidade de espécies lenhosas herbáceas nas áreas influenciadas pelo projeto. Essa é umas das ações do Subprograma de Monitoramento das Modificações da Cobertura, Composição e Diversidade Vegetal, que integra o Programa de Conservação de Fauna e Flora (PBA 23) do Projeto de Integração do Rio São Francisco com as Bacias do Nordeste Setentrional (PISF), coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR).


Fonte: ENVOLVERDE

Extração e uso de recursos naturais aumenta mais do que crescimento populacional, alerta novo relatório da ONU.


A extração de recursos mais do que triplicou desde 1970, incluindo um aumento de cinco vezes no uso de minerais não metálicos e um aumento de 45% no uso de combustíveis fósseis.
  • Até 2060, o uso global de materiais poderia dobrar e chegar a 190 bilhões de toneladas (na comparação com os atuais 92 bilhões de toneladas), enquanto as emissões de gases do efeito estufa poderiam aumentar em 43%.
  • A extração e o processamento de materiais, combustíveis e alimentos contribuem com metade do total global de emissões de gases do efeito estufa e com mais de 90% da perda de biodiversidade e estresse hídrico.
O rápido crescimento da extração de materiais é o principal culpado pelas mudanças climáticas e pela perda de biodiversidade — um desafio que só vai piorar, a não ser que o mundo realize urgentemente uma reforma sistemática do uso de recursos, de acordo com novo relatório lançado hoje (12) na Assembleia da ONU para o Meio Ambiente.

O Panorama Global sobre Recursos de 2019, preparado pelo Painel Internacional sobre Recursos, examina as tendências em recursos naturais e os seus padrões correspondentes de consumo desde os anos 1970, com o intuito de apoiar formuladores de políticas em tomadas estratégicas de decisão e na transição para uma economia sustentável.

Ao longo das últimas cinco décadas, a população dobrou e o Produto Interno Bruto (PIB) global aumentou quatro vezes. O relatório mostra que, no mesmo período, a extração global anual de materiais passou de 27 bilhões de toneladas para 92 bilhões de toneladas (até 2017). Com as atuais tendências, esse volume deve dobrar de novo até 2060.

De acordo com o relatório, “a extração e o processamento de materiais, combustíveis e alimentos respondem por cerca de metade do total global de emissões de gases do efeito estufa e por mais de 90% da perda de biodiversidade e estresse hídrico”. Até 2010, mudanças no uso da terra haviam causado uma perda global de espécies estimada em 11%.

O Panorama Global sobre Recursos mostra que estamos avançando sobre os recursos finitos do planeta como se não houvesse amanhã, causando mudanças climáticas e perda de biodiversidade ao longo do caminho”, afirmou Joyce Msuya, diretora-executiva interina da ONU Meio Ambiente. 

“Francamente, não haverá amanhã para muitas pessoas se não pararmos”, complementou.

Desde 2000, o crescimento nas taxas de extração acelerou para 3,2% por ano, o que foi impulsionado principalmente por grandes investimentos em infraestrutura e por padrões materiais de vida mais elevados em países em desenvolvimento e em economia de transição, especialmente na Ásia. 

Contudo, os países mais ricos ainda demandaram 9,8 toneladas de materiais por pessoa em 2017, um volume mobilizado de outras partes do mundo, o que também está impulsionando essa tendência.

Numa perspectiva mais específica, o uso de minérios de metal aumentou 2,7% por ano e os impactos associados na saúde humana e nas mudanças climáticas dobraram durante 2000-2015. Já o uso de combustíveis fósseis passou de 6 bilhões de toneladas em 1970 para 15 bilhões de toneladas em 2017. 

A biomassa aumentou de 9 bilhões de toneladas para 24 bilhões de toneladas — a maior parte está associada a alimentação, matérias-primas e energia.

Usando dados de tendências históricas, o relatório faz projeções para 2060. De 2015 até lá, espera-se que o uso de recursos naturais cresça 110%, levando a uma redução de mais de 10% das florestas e a uma redução de outros habitats, como as pradarias, em torno de 20%. As implicações para as mudanças climáticas são severas, uma vez que haveria um aumento de 43% nas emissões de gases do efeito estufa.

O relatório diz que, se o crescimento da economia e do consumo continuar nas taxas atuais, esforços bem maiores serão necessários para garantir que um crescimento econômico positivo não cause impactos ambientais negativos.

O relatório defende que a eficiência em recursos é essencial, mas não é suficiente por si só. “O que é necessário é um movimento de fluxos lineares para fluxos circulares, por meio de uma combinação de ciclos de vida mais longos para os produtos, design inteligente de produtos e padronização e reuso, reciclagem e remanufatura”, afirma.

Se as medidas recomendadas forem implementadas, isso poderia acelerar o crescimento econômico, superando os custos econômicos imediatos de mudar para modelos econômicos que sejam consistentes com a limitação do aquecimento global a 1,5º C nesse século.

A modelagem realizada pelo Painel Internacional sobre Recursos mostra que, com a eficiência certa em recursos e a implementação de políticas sustentáveis de consumo e produção, o crescimento do uso global de recursos pode desacelerar em 25% até 2060, o produto interno bruto global poderia crescer 8% — especialmente nas nações de renda média e baixa — e as emissões de gases do efeito estufa poderiam ter queda de 90%, na comparação com projeções que seguem as tendências históricas”, afirmaram os copresidentes do Painel, Izabella Teixeira e Janez Potočnik, no prefácio do relatório.

Download do relatório Panorama Global sobre Recursos 2019: Recursos Naturais para o Futuro que Queremos clique aqui.


Fonte: ENVOLVERDE

‘Poluição do Ar’ é tema do Dia Mundial do Meio Ambiente, que terá China como país-sede.


Hoje. o vice-ministro de Ecologia e Meio Ambiente da China, Zhao Yingmin, e Joyce Msuya, diretora executiva interina da ONU Meio Ambiente, anunciaram que a China sediará as comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente, em 5 de junho de 2019, com o tema “poluição do ar”.

Aproximadamente 7 milhões de pessoas morrem prematuramente a cada ano devido à poluição do ar, sendo 4 milhões das mortes somente na região da Ásia e do Pacífico. O Dia Mundial do Meio Ambiente deste ano incitará governos, indústria, comunidades e indivíduos a se unirem para explorar a energia renovável e as tecnologias verdes, bem como melhorar a qualidade do ar em cidades e regiões de todo o mundo.

A cidade sede do evento será Hangzhou, na província de Zhejiang. Porém, o governo chinês também se comprometeu a organizar as celebrações em várias partes do país.

O anúncio foi feito enquanto ministros do meio ambiente de todo o mundo participam do fórum ambiental global de mais alto nível, a Quarta Assembleia da ONU para o Meio Ambiente (UNEA), em Nairóbi, e após a publicação de um relatório de revisão sobre o controle da poluição do ar em Pequim nos últimos 20 anos.

A China será uma grande anfitriã global das comemorações do Dia Mundial do Meio Ambiente em 2019. O país demonstrou liderança no combate à poluição do ar internamente e, agora, pode ajudar a estimular outras partes do mundo a agirem. A poluição do ar é um desafio global e urgente que afeta a todos. A China irá, agora, liderar o impulso e estimular a ação global para salvar milhões de vidas”, declarou Joyce Msuya.

O país asiático, com seu crescente setor de energias verdes, emergiu como um líder climático. Metade dos veículos elétricos e 99% dos ônibus elétricos do mundo circulam dentro de suas fronteiras. Ao sediar o Dia Mundial do Meio Ambiente em 2019, o governo chinês poderá mostrar sua inovação e avançar rumo a um ambiente mais limpo.

Segundo um novo relatório da ONU sobre poluição atmosférica na Ásia e no Pacífico, a implementação de 25 políticas voltadas para tecnologias poderia resultar na redução de 20% das emissões globais de dióxido de carbono (CO2) e de 45% das emissões globais de metano, o que poderia impedir a elevação da temperatura global em até um terço de grau Celsius.

O Dia Mundial do Meio Ambiente é um evento mundial liderado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente que acontece todos os anos, no dia 5 de junho, e é comemorado por milhares de comunidades em todo o mundo. Desde que foi instaurado, em 1972, se tornou a maior celebração do nosso meio ambiente.

Fatos sobre a poluição do ar:
  • 92% das pessoas em todo o mundo não respiram ar limpo;
  • A poluição do ar custa à economia global US$ 5 trilhões por ano;
  • A poluição do solo pelo ozônio deverá reduzir os rendimentos de cultivos básicos em 26% até 2030.
Fonte: ENVOLVERDE

Soltura de papagaios-de-peito-roxo no Parque Nacional das Araucárias é ameaçada por vandalismo.


Texto publicado em 15 de março 2019 no site Conexão Planeta

Por Mônica Nunes* –

Esta semana, o Instituto Espaço Silvestre anunciou, com muito entusiasmo, mais uma soltura de papagaios-de-peito-roxo no Parque Nacional das Araucárias, no município de Passos Mais, em Santa Catarina. “Após longo período de reabilitação, 36 papagaios serão levados para o parque para a sétima soltura que ocorrerá na região onde a espécie estava extinta”.

No entanto, por falta de segurança no local, essa operação corre risco de não se realizar, e isso é muito grave: pode eliminar a chance de esses bichos tão singelos viverem em liberdade e “condená-los a passar o resto de suas vidas em cativeiro”, como alerta a bióloga Vanessa Kanaan, diretora técnica do instituto e membro da Comissão de Especialistas em Conservação de Translocação da IUCN.

Esse projeto lindo, realizado pelo Instituto Espaço Silvestre desde 2010, tem reintroduzido essa espécie na região da qual estava extinta, principalmente por causa do tráfico ilegal. Até agora, já foram soltos 153 papagaios-de-peito-roxo e há mais 36 no viveiro instalado no parque, esperando para viverem livres na natureza.
Casal de papagaios-de-peito-roxo em liberdade com rádio-colares que facilitam o monitoramento.

Mas a missão do instituto desta vez está ameaçada porque, na noite de quarta (12/3) para quinta (13), foram roubados todos os equipamentos de proteção e monitoramento do viveiro. Câmeras que funcionam como armadilhas fotográficas, muito usadas por pesquisadores, e também ajudam a monitorar as plataformas de alimentação, além de todos os cadeados e correntes que as protegiam e mantinham a porta fechada.

“De manhã, as duas biólogas que estão em campo encontraram a porta aberta. Entram no viveiro para verificar se os papagaios estavam bem e, em seguida, perceberam que as câmeras tinham sumido”, conta Vanessa. “Não acredito que quem roubou os equipamentos tinha intenção de levar os papagaios. Já poderiam ter feito isso, mas tiveram o cuidado de fechar a porta com uma tranca externa”. E completa: “O sistema é seguro. Isso nunca aconteceu. Por isso, agora, estamos apreensivas”.

Assim que foi avisada do ocorrido, Vanessa acionou, por whatsapp, o que o grupo chama de Rede de Proteção ao Papagaio-de-peito-roxo, formada por instituições locais, regionais e nacionais como órgãos ambientais – como ICMBio (instituição que faz a gestão do parque já que é uma unidade de conservação federal),Ibama -, pessoas-chave no processo de soltura, e as polícias ambiental, militar e civil.
Vista de cima do viveiro onde estão protegidos 36 papagaios-de-peito-roxo e parte dos pesquisadores durante o monitoramento realizado todos os dias.

Ela conta que essa rede foi criada após reunião que definiu a competência exata de cada instituição para agilizar ações em casos desse tipo. Foi o que aconteceu agora. Lá estiveram integrantes da polícia civil e militar e do ICMBio e foi feito um B.O. (boletim de ocorrência). “Todos comprometidos e engajados. A partir de hoje (14) estão nos apoiando na fiscalização”, explica a Vanessa.

A mídia local foi avisada para que noticiasse o roubo e comunicasse o oferecimento de uma recompensa “para quem tiver informações que nos levem às armadilhas, aos equipamentos roubados. Nossa estratégia é fazer barulho localmente porque, quanto mais a comunidade souber, mas fiscalizadores a gente tem e maior segurança”.

Vale destacar que os equipamentos roubados são caríssimos e foram doados recentemente pelo Parque das Aves e pelo ornitólogo Adrian Rupp, guia de observação de aves que atua na região.

“Faz quase um ano que eu comecei a negociar o patrocínio desses equipamentos. E conseguimos. O Parque das Aves doou as câmeras, o cartão de memória e as pilhas. E o Adrian, as caixas de proteção, as correntes e os cadeados. Essa é a tristeza! Um material tão batalhado, ir embora, assim, em menos de uma semana de uso”.

Além de prejudicar o trabalho do instituto, o roubo também impede que a parceria linda com o Parque das Aves e Adrian se complete já que envolvia o compartilhamento das informações obtidas a partir desse monitoramento. Conhecimento científico se expande assim também, com essas parcerias. Quem cometeu esse crime não faz ideia do tamanho do estrago que causou e continua causando.

E se a soltura não puder ser feita?

A priori, a soltura dos 36 papagaios-de-peito-roxo está marcada para amanhã, 16/3, mas tudo depende do que acontecerá nas próximas horas.

Há pouco, Vanessa me deu uma boa notícia: ninguém esteve no viveiro durante esta madrugada. Mas, caso não seja possível dar andamento à missão, as consequências serão terríveis, como ela explica:

“Se os papagaios tiverem que voltar ao centro de triagem de animais silvestres do instituto, não teremos como fazer uma soltura em curto prazo porque teremos que recomeçar o processo de reabilitação de saúde. Além de demorado, este processo é muito caro porque cada papagaio precisa passar por 20 exames. E mais: tudo isso pode inviabilizar a continuidade do projeto, que tanto depende de apoio financeiro, de parceiros, voluntários…. Por causa de um ato de vandalismo”.

Estamos torcendo para que o projeto pode seguir seu curso, mesmo com as adversidades. E que a rede proteção ajude a impedir que mais atos como esse aconteçam e que a comunidade continue ajudando este grupo de biólogas dedicadas à vida silvestre a realizar sua missão.

Se tudo correr bem – e vai! – semana que vem conto mais detalhes desta soltura e também do trabalho lindo desenvolvido pelo Instituto Espaço Silvestre. Quero ver os 36 papagaios-de-peito-roxo, como o dos flagrantes bacanas publicados neste post (registrados pela Vanessa), vivendo livres na natureza.
Fotos: Vanessa Kanaan/Instituto Espaço Silvestre (papagaios) e Divulgação (viveiro).

Mônica Nunes – Jornalista com experiência em revistas e internet, escreveu sobre moda, luxo, saúde, educação financeira e sustentabilidade. Trabalhou durante 14 anos na Editora Abril. Foi editora na revista Claudia, no site feminino Paralela, e colaborou com Você S.A. e Capricho. Por oito anos, dirigiu o premiado site Planeta Sustentável, da mesma editora, considerado pela United Nations Foundation como o maior portal no tema. Integrou a Rede de Mulheres Líderes em Sustentabilidade e, em 2015, participou da conferência TEDxSãoPaulo.


Fonte: ENVOLVERDE

São José adota programa público para animais de grande porte.


Por Júlio Ottoboni

O sucesso de São José dos Campos com programas voltados para os animais domésticos de pequeno porte  levou a prefeitura a ampliar sua política de Bem-Estar Animal. Neste mês teve início ações destinadas aos animais de médio e grande porte. Está sendo  implementado o serviço de apreensão, transporte, guarda, tratamento veterinário, alimentação e posterior destinação para diversas espécies, nas quais se incluem suínos, caprinos, ovinos, bovinos e equinos.

O serviço tem o objetivo de recolher animais soltos ou amarrados em locais públicos, sejam saudáveis, debilitados, feridos, acidentados ou mortos em vias públicas. Ou foco são os  que estiverem sofrendo maus-tratos.

A política pública de Bem Estar Animal contempla atualmente programas como Meu Pet Feliz, com vacinação, recolha, castração e feiras de adoção de centenas de animais, além de abrigo adequado, alimentação e acompanhamento veterinário. A questão dos seres sencientes tem sido um dos pilares da administração atual e com resultados positivos e grande aceitação pública.
FOTO JÚLIO OTTOBONI

Atualmente, em São José dos Campos não existe local apropriado para abrigo e mesmo equipe especializada e veículo próprio para esse transporte. A contratação do serviço terceirizado foi feita devido à crescente demanda de animais de médio e grande porte, sendo que em muitos casos são denunciados por cidadãos como estando em situações de maus-tratos. Vários são encontrados soltos em vias públicas, além do potencial para transmitir doenças ou causar acidentes envolvendo pedestres e veículos.

A empresa Rodrigo Furlanetto Rossi – ME foi a vencedora da licitação aberta pela prefeitura e receberá pela prestação dos serviços o valor mensal de R$ 25.880,00. O contrato tem duração de 1 ano, com valor total de R$ 310.560,00. Segundo a prefeitura, o serviço funcionará 24 horas por dia, inclusive finais de semana.

A empresa será acionada através da Central 156 ou no Centro de Operações Integradas (COI). Os animais serão transportados em veículo apropriado para resgate e apreensão, apropriados para evitar qualquer risco de fuga durante o trajeto até o local da guarda.

A empresa ficará responsável também pelas despesas de alimentação e assistência veterinária, como exames, procedimentos e medicações. Além de garantir a integridade física e saúde dos animais sob sua responsabilidade. O contrato prevê que a empresa disponha de local próprio e seguro para abrigo das espécies apreendidos até a sua destinação, em área rural, não excedendo a distância de 30 km do município de São José dos Campos e sem limite de capacidade máxima de animais apreendidos.

O animal somente será retirado pelo proprietário dentro do prazo estipulado pela lei, ou seja em cinco dias, e com autorização prévia do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ). E ainda arcará com os gastos do transporte. De acordo com a lei municipal 1566, o animal recolhido só pode ser liberado após o pagamento de multa e da taxa de manutenção. A multa prevista em lei é de 50% tem como valor de dois salários mínimos, aplicando-se o dobro deste valor na reincidência.

Caso o proprietário perca o prazo, será dado como abandono e a prefeitura efetuará a sua venda precedida da necessária publicação e os recursos provenientes serão revertidos para ações do programa de Bem Estar Animal.


Fonte: ENVOLVERDE

terça-feira, 12 de março de 2019


Apicultores brasileiros encontram meio bilhão de abelhas mortas em três meses.

Por Pedro Grigori – Agência Pública / Repórter Brasil

Casos foram detectados no Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul. Análises laboratoriais identificaram agrotóxicos em cerca de 80% dos enxames mortos no RS.

Albert Einstein previu no século passado que, se as abelhas desaparecessem da superfície da Terra, o homem teria apenas mais quatro anos de vida. A morte em grande escala desse animal, interpretada como apocalíptica na época, é hoje um alerta real. Desde o começo do século, casos de morte e sumiço de abelhas são registrados nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, estudiosos destacam episódios alarmantes a partir de 2005.

Agora, o fenômeno parece chegar ao ápice. Nos últimos três meses, mais de 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas por apicultores apenas em quatro estados brasileiros, segundo levantamento da Agência Pública e Repórter Brasil. Foram 400 milhões no Rio Grande do Sul, 7 milhões em São Paulo, 50 milhões em Santa Catarina e 45 milhões em Mato Grosso do Sul, segundo estimativas de Associações de apicultura, secretarias de Agricultura e pesquisas realizadas por universidades.

O principal causador, afirmam especialistas e pesquisas laboratoriais analisadas pela reportagem, é o contato com agrotóxicos à base de neonicotinoides e de Fipronil, produto proibido na Europa há mais de uma década. Esses ingredientes ativos são inseticidas, fatais para insetos, como é o caso da abelha, e quando aplicados por pulverização aérea se espalham pelo ambiente.
Impacto nos polinizadores faz Ibama reavaliar registro de quatro ingredientes ativos (Foto: Pixabay).

As abelhas são as principais polinizadores da maioria dos ecossistemas do planeta. Voando de flor em flor, elas polinizam e promovem a reprodução de diversas espécies de plantas. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para alimentação humana e produção animal, cerca de 60% dependem em certo grau da polinização deste inseto. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), 75% dos cultivos destinados à alimentação humana no mundo dependem das abelhas.

Em Cruz Alta, município de 60 mil habitantes no Rio Grande do Sul, mais de 20% de todas as colmeias foram perdidas apenas entre o Natal de 2018 e o começo de fevereiro. Cerca de 100 milhões de abelhas apareceram mortas, segundo a Apicultores de Cruz Alta (Apicruz). “Apareceram uns venenos muito bravos. Eles colocam de avião de manhã e à tarde as abelhas já começam a aparecer mortas”, relata o apicultor Salvador Gonçalves, presidente da Apicruz.

No Brasil, há seis espécies de abelhas nativas — Melipona scutellaris, Melipona quadrifasciata, Melipona fasciculata, Melipona rufiventris, Nannotrigona testaceicornis, Tetragonisca angustula – e mais de 3 mil estrangeiras. A maioria delas não tem ferrão, ou tem o órgão atrofiado.

Cada espécie é mais propícia para polinização de determinadas culturas.  Por exemplo, a Mamangaba, conhecida popularmente como abelhão, é a principal responsável pela polinização de maracujá. “O que aconteceria se esse inseto fosse extinto? Ou deixaríamos de consumir essas frutas, ou elas ficariam caríssimas, porque o trabalho de polinização para produzi-la teria que ser feito manualmente pelo ser humano”, explica Carmem Pires, pesquisadora da Embrapa e doutora em Ecologia de Insetos.
A estudiosa conta que até em lavouras que não são dependentes da ação direta dos polinizadores, a presença de abelhas aumenta a safra. “Na de soja, por exemplo, é identificado um aumento em 18% da produção. É importante destacar também o efeito em cadeia. As plantas precisam das abelhas para formar suas sementes e frutos, que são alimento de diversas aves, que por sua vez são a dieta alimentar de outros animais. A morte de abelhas afeta toda a cadeia alimentar”.

Agrotóxicos inimigos das abelhas

Os principais inimigos das abelhas são os agrotóxicos neonicotinoides, uma classe de inseticidas derivados da nicotina, como por exemplo o Clotianidina, Imidacloprid e o Tiametoxam. A diferença para outros venenos é que ele tem a capacidade de se espalhar por todas as partes da planta. Por isso, costuma ser colocado na semente, e tudo acaba com vestígios: flores, ramos, raízes e até no néctar e pólen. Eles são usados em diversas culturas como de algodão, milho, soja, arroz e batata.

Além dos neonicotinoides, há casos de mortandade relacionados também ao uso de agrotóxicos à base de Fipronil, inseticida que age nas células nervosas dos insetos e, além de utilizado contra pragas em culturas como maçã, soja e girassol, é usado até mesmo em coleiras antipulgas de animais domésticos. Muitas vezes esse veneno é aplicado em pulverização aérea, o que o expõe diretamente às abelhas. Segundo pesquisa produzida pela Embrapa em 2004, 19% do agrotóxico manejado através do método de pulverização aérea é dispersado para áreas fora da região de aplicação.

Dentro da colmeia as abelhas vivem em sociedades organizadas, com papéis claros. Elas se dividem em castas — rainha, operárias e zangões. A primeira delas é a única fêmea fértil, é quem coloca os ovos —cerca de 2,5 mil por dia. Os zangões são os machos e têm como papel fecundar a rainha. Já as operárias são as fêmeas responsáveis por praticamente tudo dentro da colmeia: limpeza,  coleta de néctar e pólen, alimentação das larvas (abelhas não adultas), elaboração do mel e defesa do lar. A depender do tamanho da caixa e das condições climáticas, uma única colmeia pode abrigar até 100 mil abelhas.

A morte dos polinizadores por contato com os agrotóxicos pode ocorrer de vários modos. O mais comum é quando a operária sai para a polinização. Muitas acabam morrendo na hora, outras ficam desorientadas e infectadas. A partir daquele momento elas tentam voltar a colmeia, mas muitas não resistem ao caminho. As que conseguem voltar acabam infectando toda colmeia — o enxame acaba morto em pouco mais de um dia.

Casos cada vez mais agudos

Não existem números oficiais de mortes de abelhas no país, segundo o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Porém, associações de apicultores e órgãos ligados à secretarias estaduais de Agricultura fazem levantamentos próprios.

Entre dezembro do ano passado e fevereiro de 2019, pelo menos 500 milhões de abelhas foram encontradas mortas apenas nos estados de Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e Mato Grosso do Sul, segundo apurou a reportagem. Mas o número pode ser muito maior, já que é impossível contabilizar as mortes de abelhas silvestres – aquelas que não são criadas por apicultores.

A maioria dos casos recentes ocorreu no Rio Grande do Sul, onde, segundo a Câmara Setorial de Apicultura da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Desenvolvimento Rural do estado, foram 400 milhões de baixas desde dezembro do ano passado. O estado é o maior produtor apícola do país, com mais de 400 mil colmeias, de acordo com a Emater. A produção de mel supera 6 mil toneladas por safra, cerca de 15% do total brasileiro.

A reportagem identificou casos de mortandade de
abelhas em pelo menos dez estados brasileiros desde
2005.

A Secretaria recebeu comunicados de óbitos em 10 municípios: Jaguari, Sant’Ana do Livramento, Alegrete, Santiago, Livramento, Bagé, Mata, Cruz Alta, Boa Vista do Cadeado, Santa Margarida. Isso significou mais de 1% das criações de abelhas dizimadas. “O estado tem cerca de 463 mil colmeias. Dessas, cerca de 5 mil foram completamente perdidas. O prejuízo está em torno de 150 toneladas de mel”, conta Aldo Machado dos Santos, coordenador da Câmara Setorial de Apicultura gaúcha.

Por meio de notícias da imprensa, investigações do Ministério Público e estudos científicos, a reportagem identificou casos de mortandade de abelhas em pelo menos dez estados brasileiros desde 2005: Ceará, Distrito Federal, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

O engenheiro agrônomo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul Aroni Sattler é especialista em sanidade das abelhas e trabalha na área desde 1973. Segundo ele, casos de mortes de enxames se tornaram mais recorrentes na última década. “Devido ao meu trabalho, sempre recebi amostras de abelhas para análises, e vim percebendo que cada vez mais não havia sinais de doenças nos insetos que explicassem mortandades tão agudas”, explica.
Número de apicultores em Cruz Alta caiu pela metade na última década, conta o presidente da Apicruz, Salvador Gonçalves. Prejuízo com abatimento dos enxames é a principal causa (Foto: Pedro Grigori/Agência Pública).

No ano passado, ele foi procurado pelo Bioensaios, um laboratório privado, para orientar um trabalho sobre coleta de amostras em casos de mortandade. Foram analisados 30 casos de grandes baixas em enxames no Rio Grande do Sul. Os resultados mostram que cerca de 80% ingeriram ou tiveram contato com Fipronil antes de sucumbir. “Pelos sinais clínicos e pelo histórico apresentado pelos apicultores, percebemos que os agricultores da região misturavam o Fipronil no tanque junto com dessecantes desde o preparo do solo, passando pela fase vegetativa do cultivo e depois na hora da colheita. Se trata de um inseticida, e as abelhas são um tipo de inseto, por isso o ingrediente é bastante tóxico para elas”, detalha.

O especialista aponta que, mesmo naquelas que não apresentaram vestígio dos agrotóxicos, pode ter ocorrido contato. “Nos outros 20% é notado que a coleta das amostras não foi feita adequadamente, ou foi feita em um período muito longo após a mortandade, o que dificulta a identificação dos tóxicos”.

Quem é o culpado?

Desde que começou a fazer análises de abelhas mortas, o engenheiro agrônomo Aroni Sattler emitiu 30 laudos para apicultores do Rio Grande do Sul que comprovam o contato dos insetos com pesticidas. A partir daí eles podem levar os casos à Justiça e buscar ressarcimento. O especialista alerta para um risco ainda maior, o das abelhas nativas silvestres, pois não há como enumerar quantas estão morrendo e nem denunciar quem aplicou o veneno. “O impacto do uso desses agrotóxicos atinge um raio de 3 a 5 quilômetros das lavouras. Tudo no entorno desaparece”, afirma.

Aroni Sattler destaca também que muitas vezes os desastres ocorrem por falta de informação. “Há casos de mortandade que acontecem porque os agricultores utilizam o agrotóxico de modo errado, ou até mesmo, por falta de conhecimento, eles acham que a abelha prejudica a lavoura e passam veneno”.

O coordenador da Câmara Setorial de Apicultura do Rio Grande do Sul, Aldo Machado, afirma que há necessidade de um trabalho de conscientização: “Precisamos de agrônomos nos campos, acompanhando essas aplicações, vendo se está sendo feito conforme a bula”.
MPF investiga mortes de abelhas em 4 estados e no distrito federal (Foto: Pixabay).

Sobre realizar as denúncias, ele explica que o canal indicado são as defensorias agrícolas ligadas às secretarias estaduais ou municipais. Além disso, é aconselhável informar a Polícia Militar Ambiental e fazer um boletim de ocorrência na Polícia Civil. “O apicultor tem que vencer o medo e denunciar. 

Há dois anos, após um grande surto de casos no Rio Grande do Sul, fizemos um levantamento e só existiam dois registros de denúncia. Sabíamos que estava ocorrendo mais, mas sem denúncia não se torna oficial para o Governo”. Só em Cruz Alta, segundo a Associação dos Apicultores de Cruz Alta (Apicruz), 810 colmeias foram totalmente perdidas entre 2015 e 2016 – cerca de 50 milhões de abelhas. Porém, no último trimestre a Apicruz estima que o número de abelhas mortas ultrapasse 100 milhões no município.

Mas, mesmo em casos onde há um laudo que prove a relação das mortes com agrotóxicos, é difícil conseguir identificar um culpado, afirma Aldo Machado. “Em Cruz Alta, por exemplo, há diversos produtores de soja. Existe a dificuldade de provar quem colocou esse princípio ativo na lavoura. Em muitos casos, diversos produtores utilizam o agrotóxico, aí fica difícil encontrar um culpado para cada caso específico”, pontua.

De acordo com a Lei Federal 7.802/89, a Lei dos Agrotóxicos, quem deve fazer a fiscalização do uso são os órgãos estaduais. Portanto, todo problema decorrente do uso desses químicos deve ser informado às secretarias de Meio ambiente ou de Agricultura dos estados.

Agricultores utilizam o agrotóxico de modo errado,
eles acham que a abelha prejudica a lavoura e passam
veneno”, diz engenheiro agrônomo Aroni Sattler.

Há base legal para considerar a morte de abelha como crime ambiental. De acordo com o artigo 56 da Lei de Crimes Ambientais é crime “Produzir, processar, embalar, importar, exportar, comercializar, fornecer, transportar, armazenar, guardar, ter em depósito ou usar produto ou substância tóxica, perigosa ou nociva à saúde humana ou ao meio ambiente, em desacordo com as exigências estabelecidas em leis ou nos seus regulamentos”.

Porém, segundo o Ibama há grande dificuldade para comprovar que a mortalidade se deu pelo uso em desacordo com as instruções autorizadas no registro. “Quando isso fica comprovado – uso onde não devia, na quantidade que não devia, na época que não devia, usando equipamento que não devia e causando a mortalidade – aí se enquadra no artigo e se trata de crime ambiental”, informa o Instituto, através da assessoria de imprensa.

Milhões de mortes também em São Paulo – e por agrotóxicos

Testes laboratoriais apontaram o contato com agrotóxico como causador da morte de abelhas também no estado de São Paulo, onde a produção de mel chega a 3,7 mil toneladas por safra – cerca de 10% do total nacional. Entre 2014 e 2017, uma pesquisa com a participação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) realizou um mapeamento sobre os fatores que contribuem para a perda de enxames. Em 78 cidades, os pesquisadores contabilizaram 107 produtores que sofreram com perdas de colmeias. Em três anos eles relataram que cerca de 255 milhões de abelhas morreram.

O professor e pesquisador da Unesp Rio Claro Osmar Malaspina, um dos responsáveis pelo trabalho, diz que os casos em São Paulo vêm acontecendo desde 2005. “Eles se acentuam a partir de 2012, e até aquele momento os apicultores não sabiam como, mas todas as abelhas passavam a morrer do nada e em menos de 24 horas. A grande suspeita era de agrotóxicos, mas até aquele momento não tínhamos uma análise para provar isso”.

O projeto começou em 2013 com patrocínio de empresas produtoras de agrotóxicos. Batizado de Colmeia Viva, o projeto recebeu um telefone 0800 para denúncias. Quando uma abelha morria, o apicultor ligava e fazia a queixa. “Após a análise, entregamos um laudo para cada criador, que era público. E ele poderia usá-lo para entrar com ação na Justiça”, explica.
Pesticidas que causaram extermínio no Brasil já estão banidos na União Europeia (Foto: Pixabay).

O relatório do mapeamento foi lançado no ano passado com conclusões voltadas para a criação de um plano de ação nacional para boas práticas de aplicações de agrotóxicos. O objetivo é manter uma relação produtiva entre a agricultura e a apicultura, sem que nenhuma das duas áreas saia enfraquecida.

A iniciativa contou com 222 atendimentos voltados a apicultores, das quais 107 originaram visitas ao campo. Em 88 ocorreram coletas de abelhas para análise focada na relação com a aplicação de agrotóxicos. Em 59 casos – cerca de 67% – o resultado foi positivo para resíduos de pesticidas. Em 27 casos, a hipótese é que a aplicação de tóxico tenha sido feita fora da lavoura onde a colmeia fica, e em 21 casos a suspeita é de uso incorreto dentro da própria residência (11 destes foram causados por produtos à base de neonicotinoides e 10 à base de Fipronil).

O grupo também fez um trabalho educativo com agricultores, ensinando modos de aplicação de pesticidas que diminuam o impacto em abelhas. “Nos últimos meses estamos percebendo uma queda nas ocorrências de mortandade, mas ainda temos que esperar mais alguns anos para fazer um novo estudo que confirme isso e nos mostre os motivos”, explica. Nos últimos dois meses as baixas em colmeias foram reduzidas para cerca de 25.

Reavaliação de agrotóxicos

Em decorrência dos casos de mortandade de abelhas, o Ibama deu início em 2012 à reavaliação de diversos ingredientes químicos usados em plantações. O primeiro está sendo o neonicotinoides Imidacloprid, o mais usado do grupo. Empresas declararam ao Ibama a comercialização de 1.934 toneladas de Imidacloprido só em 2010. Simultaneamente, o Instituto está reavaliando também os neonicotinoides Clotianidina e o Tiametoxam, e ao fim dos três processos iniciará os testes com o Fipronil.

Em 19 de julho de 2012 o Ibama chegou a proibir a pulverização aérea do ingrediente ativo Imidacloprid. O órgão determinou também que todos os produtos deveriam conter nas embalagens o seguinte aviso: “Este produto é tóxico para abelhas. A aplicação aérea NÃO É PERMITIDA. Não aplique este produto em época de floração, nem imediatamente antes do florescimento ou quando for observada visitação de abelhas na cultura. O descumprimento dessas determinações constitui crime ambiental, sujeito a penalidades”. Porém, o Ministério da Agricultura alegou que a aplicação aérea do Imidacloprid era imprescindível para determinadas culturas. Com isso, três meses depois, ficou autorizada a pulverização para culturas de arroz, cana-de-açúcar, soja, trigo e algodão.

Tendo em vista que os agrotóxicos mais nocivos às abelhas estão sendo reavaliados, passando agora pela Avaliação de Risco, o Ibama criou em 2015 um Grupo Técnico de Trabalho para discutir os procedimentos a serem adotados para proteger especificamente as abelhas. O grupo se reúne bimestralmente e conta com 13 participantes vindos do setor acadêmico, da Embrapa, da Indústria e também do Ministério do Meio Ambiente. Sua missão é propor uma  avaliação obrigatória de risco de agrotóxicos para abelhas. Porém, não há previsão de quando isso ocorrerá.

Ministério Público Federal cobra respostas

Há procedimentos em curso sobre a morte de abelhas em cinco procuradorias estaduais, no Distrito Federal, Goiás, São Paulo, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul, segundo a Procuradoria-Geral da República.  A Agência Pública teve acesso a documentos relativos a dois desses casos.

No Rio Grande do Sul, há uma ação civil pública tramitando na 9ª Vara Federal de Porto Alegre. A ação foi ajuizada em outubro de 2017 contra o Ibama, para obrigar a autarquia a concluir no prazo de seis meses o processo de reavaliação da substância Imidacloprid.

Porém, o Ibama afirma que terá dificuldade de concluir o processo administrativo nesse prazo. Segundo um memorando, o órgão está construindo diversos protocolos de testes, por se tratar de avaliações ainda inéditas no país. A equipe que realiza as reavaliações é composta por apenas cinco analistas ambientais: três biólogos, um químico e um zootecnista. Confira a publicação na íntegra aqui.
O Ibama chegou a proibir a pulverização aérea do
Imidacloprid, mas o Ministério da Agricultura alegou
que a aplicação era imprescindível para determinadas
culturas.

Em Mato Grosso do Sul, a Associação de Produtores de Mel de Dourados entrou com uma representação protocolada em março de 2018 pedindo investigação do MPF/MS. Na justificativa, a associação afirma que os apicultores estão perdendo sua renda e produção por causa das mortes de abelhas “pelo uso indiscriminado e abusivo de agrotóxico nas lavouras de cana de açúcar, soja, milho, arroz e outras culturas agrícolas”.

A representação deu origem a uma Notícia de Fato, uma demanda encaminhada aos órgãos para investigação, e agora o MPF de Mato Grosso do Sul avalia se vai instaurar ou não um procedimento próprio.

Leis para reduzir pesticidas e salvar as abelhas

20 de maio é o Dia Mundial das Abelhas, data criada para lembrar a importância desses insetos para a produção de alimentos em escala global. Elas não são as únicas agentes polinizadoras — pássaros, morcegos, esquilos, besouros e diversos outros contribuem para a reprodução das plantas – mas o grande número e espécies de abelhas as colocam no papel principal.

Para defendê-las, a FAO/ONU, em parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), elaborou o Código Internacional de Conduta para o Manejo de Pesticidas. A organização destaca, entretanto, que sem a diminuição do uso de agrotóxicos as abelhas continuarão em risco. “Não podemos continuar nos concentrando em aumentar a produção e a produtividade com base no uso generalizado de pesticidas e produtos químicos que ameaçam os cultivos e os polinizadores”, alertou o diretor-geral da agência da ONU, José Graziano da Silva.

A passos lentos, alguns países vão adotando leis para salvar os zangões, rainhas e operárias. O Fipronil já é proibido em toda a União Europeia há mais de uma década. Em 2004, ele foi banido da França após ações que denunciavam o impacto do veneno — naquele ano, cerca de 40% dos insetos criados nos apiários franceses foram encontrados mortos. Os neonicotinoides entraram em discussão logo depois. Em 2013 tiveram os registros congelados por dois anos, e em 2018 veio o banimento permanente.

Até os Estados Unidos caminham na mesma direção. Em 2013, um relatório do Departamento de Agricultura americano (USDA) mostrou que quase um terço das abelhas de colônias do país morreram durante o inverno de 2012/2013. No ano seguinte, o então presidente americano Barack Obama proibiu o uso de neonicotinoides em áreas de vida selvagem.

Esta reportagem faz parte do projeto Por Trás do Alimento, uma parceria da Agência Pública e Repórter Brasil para investigar o uso de agrotóxicos. A cobertura completa está no site do projeto.


Fonte: ENVOLVERDE